As decisões já estavam tomadas

Carlos Chagas

Foi triste, penosa e longa a reunião do Senado, ontem, quando da cassação do mandato de Demóstenes Torres. Menos pela presença constrangedora dele no plenário, bem como por sua emocionada defesa, mais pela repetição de todos os fatos que levaram à abertura do processo contra ele por quebra do decoro parlamentar.

Os pronunciamentos de Humberto Costa, relator no Conselho de Ética, e de Pedro Taques, na Comissão de Constituição e Justiça, serviram para que eles contraditassem discursos anteriores de Demóstenes Torres. Depois, cada senador entendeu de opinar, nas diversas fases da sessão, em seguida ao uso dos microfones pelos líderes dos partidos.

Ficou claro, nas longas horas transmitidas ao vivo pela TV-Senado, que ninguém mudou seu voto por conta dos discursos de ontem. Chegaram todos com a decisão já tomada. Democracia tem dessas coisas, e é bom que tenha: debater nunca será demais. Só que às vezes é redundante.

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SENADO VERSUS ITAMARATY

A Comissão de Relações Exteriores do Senado ofuscou a sessão de cassação do mandato do senador Demóstenes Torres. Primeiro pelo inusitado da hora em que iniciou seus trabalhos para ouvir o chanceler Antônio Patriota: 8 da manhã. Depois, pelo tom veemente das críticas da maioria dos senadores à política externa brasileira, com ênfase para a suspensão do Paraguai e o ingresso da Venezuela no Mercosul. Apenas Roberto Requião defendeu o governo Dilma.

O presidente da CCJ, Fernando Collor, manteve a isenção ao dirigir os trabalhos, apesar de, como senador, incluir-se entre os maiores críticos do posicionamento brasileiro.

Francisco Dornelles referiu a suspensão e o ingresso como das mais lamentáveis iniciativas do governo brasileiro, evidência de não termos mais uma diplomacia de estado, mas apenas de governo. Disse que o Mercosul será destruído em pouco tempo.

Ricardo Ferraço cobrou coerência do Itamaraty, que condenou uma ação constitucionalmente correta do Congresso paraguaio, ao afastar o presidente Lugo, mas aceita rupturas democráticas verificadas na Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina.

Aloísio Nunes Ferreira considerou normal a permanência de relações econômicas com o Paraguai, inclusive a geração da energia de Itaipu para aquele país, dizendo que mesmo se Gengis Khan assumisse o poder naquele país, o governo brasileiro continuaria respeitando os contratos. Para ele, a reação brasileira à deposição de Lugo foi digna de um grêmio estudantil de quinta categoria. Não poupou o conselheiro Marco Aurélio Garcia, a quem chamou de “sub-Kissinger trotskista”, como inspirador da ação brasileira.

Álvaro Dias denunciou um novo conceito de democracia por parte do palácio do Planalto, pois apoiamos Hugo Chavez, “um presidente boquirroto que censura a imprensa”, faltando-nos competência para decidir se houve ou não golpe de estado no Paraguai. Acrescentou que 500 mil brasileiros instalados no país vizinho apoiaram a ascensão do vice-presidente ao poder.

Roberto Requião foi a exceção, pois elogiou a iniciativa do governo brasileiro e denunciou o afastamento do presidente Lugo como manobra de seus adversários para impedir sua influência nas próximas eleições presidenciais, em abril.

Ao responder a essas e outras exposições e perguntas, o ministro Antônio Patriota historiou a participação brasileira desde que o ex-presidente paraguaio foi submetido a processo de impeachment. Justificou a suspensão do Paraguai e o ingresso da Venezuela no Mercosul como ação comum dos países da América do Sul. Mas ficou evidente estar o Senado em posição oposta ao Itamaraty e ao governo.

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