As duas Argentinas

Sebastião Nery

Quando chego a Buenos Aires, sempre me lembro do francês gordinho do bendito hotel de Andorra, no pé dos Pirineus soprados pela nevasca, em pleno dezembro. Três mil metros de neve e precipícios. Frio de menos de 30 graus. Em cima o pico de Estats, como um véu de noiva, embaixo o desfiladeiro, e o carro, com correntes nos quatro pneus, deslizando devagar a madrugada inteira, à beira dos abismos, na estrada branca e mal iluminada.

Ao amanhecer, afinal, um hotel. Chamava-se Argentina. Por que Argentina, ali embaixo da França, se ele era francês e a Argentina tão longe?

– É uma homenagem ao Brasil. Morei um ano no Rio, trabalhei lá em hotéis e tenho muita saudade das praias e das brasileiras.

– E o que é que a Argentina tem com isso, se não é Brasil?

– É porque Argentina é a palavra mais bonita da língua portuguesa.

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A PRATA

A orgulhosa Argentina fez com que lhe pintassem um universal retrato de arrogância, geralmente injusto. Buenos Aires, o “Puerto de Nuestra Señora Santa Maria Del Bueno Aire”, foi fundada em 1536 pelo espanhol Pedro de Mendoza e refundada pelos espanhóis em 1580, onde hoje é a Plazza de Mayo.

A independência é de 1816, com San Martin, o grande herói nacional. Passaram séculos antes de a chamarem de Argentina. Em documentos antigos, já se falava em “civitas argentea”, depois falaram em “argentópólis” e “argyrópolis”, até que o poeta Martin del Barco Centenera criou a “definitiva, bela e melodiosa, maravilhosamente poética” palavra “Argentina”, por causa da prata encontrada com os nativos: nome de mulher, do latim “argentum”, deus das minas de prata (cujo adjetivo é “argentinus”).

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O CUSPE

“Na Argentina, onde se cospe nasce uma flor”, diziam os argentinos. Os não argentinos achavam petulância. Darwin esteve por lá em 1833:

– “Os habitantes respeitáveis do país sempre ajudam os contraventores a escapar. Acham que eles pecaram contra o governo e não contra o povo”.

O comediante mexicano Cantinflas popularizou uma frase invejosa:

– “Os argentinos querem afundar a Argentina mas não conseguem”.

Einstein disse algo parecido quando passou por lá em 1922:

– “Como é que um país tão desorganizado pode progredir?”.

Os espanhóis, pais da Argentina, vingavam-se deles:

– Um argentino dirigia em Madrid, avançou um sinal, o guarda o deteve:

– “Você é argentino, não é?”

– “Sou. E daí? Só os argentinos furam o sinal vermelho?”.

– “Não. Mas só os argentinos fazem isso sorrindo”.

E o brasileiro resumiu tudo na definição italiana:

– Compre um argentino pelo que vale e venda pelo que ele acha que vale.

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