As famílias desafinadas

Sebastião Nery

JAQUAQUARA (BAHIA) – Cem quilometros floresta a dentro, durante o dia a Amazônia é um espanto e um deslumbramento. À noite, é um medo incontido, insopitável. Pios, silvos, gemidos, uivos e urros.

Na década de 70, enfiei-me lá até um posto avançado da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisas Agricolas), dirigida pelo genio do cientista Eliseu Alves e que revolucionou a moderna agricultura brasileira.

Era um campo de pesquisa sobre o guaraná, um filho das florestas. Depois do dia inteiro caminhando veredas, afastando galhos e desviando de cobras e cipós, sob arvores monumentais, à noite era hora de voltar ao acampamento, tomar um uisque, um vinho, jogar conversa fora, para embalar o sono sobre a rede, naquele imenso e turvo mundo verde.

***
DO-RE-MI

De repente, aparece um engenheiro agrônomo, acampado lá :

– Nery, somos conterrâneos. Também sou de Jaguaquara. E fomos vizinhos. Meu pai era o regente da Banda de Musica Maestro Wanderley, colada à sua casa. Morávamos lá, na casa atrás do salão da banda.

– Então era ele que embalou um pedaço de minha infância, tocando flauta, clarinete, saxofone, piston, todo tipo de instrumento de sopro?

– Era, sim. Nos desfiles de 7 de Setembro da Escola Carneiro Ribeiro, a banda ia na frente e vocês, quer dizer nós, marchávamos atrás.

– Lembro-me bem. Como é seu nome?

– Do-Re-Mi. Nome mesmo. Meu pai era tão tarado por musica que me pôs na escala musical. Sai, estudei em Salvador, vim para a Embrapa.

***
SOL-LA-SI

Daqui a pouco, chega mais um engenheiro agrônomo :

– Nery, este é meu irmão. Também nosso conterrâneo de Jaguaquara. Nasceu lá mesmo, dentro da Banda Maestro Wanderley.

O presidente Eliseu Alves, Silvestre Gorgulho e Renato, jornalistas da Embrapa que comboiavam o grupo de jornalistas, ouviam a conversa:

– E como é o nome de seu irmão?

– Sol-La-Si.

– Vocês têm irmã?

– Temos. É a Fazinha. Está lá em casa.

Caímos todos na gargalhada. Uma família afinada.

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GOLPE DE 64

O maior crime político que o golpe militar de 1964 cometeu foi ter transformado a política partidária em famílias inteiramente desafinadas. Dissolveu os partidos que, naquela época, de uma maneira ou outra, representavam grandes pedaços da sociedade : o PSD mais rural, a UDN mais classe media, o PTB mais popular. E comunistas no PCB, socialistas no PSB, católicos no PDC, integralistas no PRP.

Agora, a vida partidária brasileira virou uma zorra. Nada tem identidade com nada. O país, os partidos e as eleições ficam à mercê de lideranças que a duras penas vão surgindo.

Ainda bem que, de surpresa, aparece um fenômeno cultural como a Marina, uma índia que escreve melhor, diz melhor, fala melhor, expõe melhor idéias e propostas do que a maioria da Universidade, da chamada Academia. Ela está conseguindo alimentar, instalar no pais uma ideologia verde, ecológica, seria, exequível, de desenvolvimento sustentável.

O outro lado da Marina é o PT, que morreu sem missa de sétimo dia e foi substituido pelo Lulismo, mais uma perna dos “ismos”, essas pragas populistas, fundamentalistas, totalitárias, que infectam países em todos os continentes e muito especialmente na America Latina e na Ásia. Um chefete instala-se como chefão, dá as ordens e toda a carneirada se curva diante dele, porque é ele quem distribui a ração do poder.

Colado com o PT, tão irmão na total falta de caráter político quanto ele, vem o PMDB, que não é um partido, é um molusco, arrastando-se e comendo pelas beiradas. O PSDB, o DEM, o PSB dizem querer ser partidos, mas estão sempre na dependência de que lideranças de fato, como em São Paulo, Minas, Paraná, Pernambuco, garantam partidos com cara de partido.

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A NUVEM

Ainda bem que nem tudo é esse desafinado mundo partidário. Minha querida Jaguaquara, nessa visita que fiz lá, no ano passado, me deu um tombo de emoções. Prefeitura, Câmara de Vereadores, Colégio Taylor Egidio e outros, rádios, jornais, comerciantes (o CDL da líder Noeli Almeida), fizeram uma bela festa para lançar “A Nuvem – 50 anos de História do Brasil” (Ed. Geração).

Todo mundo lá. Amigos de Salvador (Luis Gonzaga da PetroBahia, os irmãos Nery do Colégio Sartre, José Acurcio Vaz representando a Assembléia, o empresário hoteleiro Lemos Neto), de Vitoria da Conquista (ex-ministro Ubirajara Brito, ex-deputado Elquisson Soares, Humberto Flores, Eduardo Nery, professores, mais de uma dezena), outros de Jequié (a poetisa Mara Gasbarre), Itiruçú, Itaquara, e mais os que foram de Minas (professor Nicolau Schaun), Rio (advogado Cacau de Brito), e até um que veio dos Estados Unidos, o poeta e catedrático de literatura da universidade da Califórnia, Narlan Teixeira. Haja coração para um pobre marquês!

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