As malas abriram e o jogo virou

Sebastião Nery

A campanha eleitoral estava fervendo em Goianinha, a 100 quilômetros de Natal, Rio Grande do Norte. O coronel Adauto Rocha, da UDN, jogava tudo, naquela eleição, para derrotar o coronel José Lúcio, do PSD.

De Natal, para ajudar a campanha do PSD, chegou a Goianinha o jovem Fernando Marinho, sobrinho do deputado Djalma Marinho, que, apesar de udenista, na eleição municipal estava apoiando o candidato do PSD. Fernando foi para o serviço de alto-falantes, começou a atacar Adauto Rocha:

– É um ladrão! Esse coronel Adauto Rocha é um ladrão!

Adauto Rocha pegou o revólver, saiu de casa, entrou no serviço de alto-falantes, pôs o cano na cabeça de Fernando Marinho:

– Meu filho, estou gostando do seu discurso. Só que é o contrário. Você não está dizendo certo. Diga certo, senão morre! E diga logo!

Fernando Marinho continuou:

– Pois é, meus amigos de Goianinha. Adauto Rocha é bom. O coronel José Lúcio e meu tio é que não prestam!

Estavam salvas a honra de Adauto Rocha e a cabeça de Fernando Marinho.

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ROBERTO JEFFERSON

 Jefferson, em 2005

O deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, chegou ao Conselho de Ética da Câmara como quem vai para o patíbulo. Iria ser destroçado e cassado pelo PT, porque acusou (“sem provas”, dizia o PT) o ministro José Dirceu, o presidente José Genoino e o tesoureiro Delúbio Azul de criarem um “mensalão” para comprar deputados do PL e do PP a R$ 30 mil por mês.

Recebido com cara feia, depois de sete horas de depoimento e interrogatório, brilhante, seguro, firme, contando tudo que sabia, Jefferson virou o jogo. A maioria dos deputados, com o salão da Câmara lotado de parlamentares e jornalistas, passou a ficar flagrantemente a favor dele.

Mas não foi só, nem sobretudo por causa dele. À medida que a sessão andava, começaram a chegar ao Conselho folhas tiradas da Internet com notícias de depoimentos arrasadores. E os dois primeiros de mulheres, como sempre aconteceu na história do Brasil, sempre mais livres e mais valentes.

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RAQUEL E KARINA

De Paris, onde estava representando o governo de Goiás, em um congresso internacional, a deputada Raquel Teixeira, secretária de Ciência e Tecnologia do Estado, conversou com o deputado Carlos Sampaio, do PSDB de São Paulo, um promotor de primeiro mandato que pela primeira vez apareceu e com um discurso claro, lúcido, profissional, dando o recado dela:

“Ela me autorizou a confirmar que recebeu, sim, a proposta de um bônus (R$ 1 milhão) e de uma mesada (R$ 30 mil) para trocar de partido, e que ela contará isso no Conselho de Ética e na CPI, se for convocada”.

Daí a pouco, chegavam as primeiras folhas da edição extraordinária da revista Isto É Dinheiro, que saiu ontem de manhã, com a entrevista-bomba de Fernanda Karina Ramos Somaggio, uma mineira de 32 anos, que trabalhou durante oito meses com o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, dono das agências de propaganda DNA e SMP&B, as maiores de Minas:

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MARCOS VALÉRIO

1. “Entre abril de 2003 e janeiro de 2004, ela foi secretária de Marcos Valério, responsável pelas contas dos Correios e Banco do Brasil e da Câmara dos Deputados”. A SMP&B está entre as agências que mais cresceram nos últimos anos. Ela agendava os compromissos de Marcos Valério, anotando tudo na agenda, que guarda em seu poder, com encontros, dia, local e hora, entre Valério e dirigentes do PT”.

3. “O interlocutor mais freqüente de Valério, segundo Karina, era Delúbio Soares. Eles se falavam pelo menos uma vez por semana”. O segundo na lista era Sílvio Pereira. Ela cita até mesmo o ministro José Dirceu: “O Dirceu e o Marcos Valério falavam diretamente”.

Os encontros entre Valério e os petistas ocorriam sempre em hotéis, “tudo na surdina”: Macksud em São Paulo, Blue Tree em Brasília. Valério organizava festas para dirigentes do Banco do Brasil, em que rolava dinheiro e mulher.

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BENEDITO DOMINGOS

Antes de terminar o depoimento de Jefferson, apareceu mais um torpedo, uma entrevista ao jornalista Expedito Filho, do Estado de São Paulo, dada pelo secretário-geral do PP de Brasília, Benedito Domingos, provecto pastor batista, várias vezes deputado e ex-vice-governador do Distrito Federal:

“Benedito confirmou hoje que o esquema do mensalão realmente existiu. Até abril, Domingos era tesoureiro nacional do PP e disse que o dinheiro circulava pelo caixa 2 e era chamado de apoio financeiro.

A distribuição era feita no apartamento do deputado José Janene (líder do PP), na Asa Sul, que era chamado de “pensão” pelos próprios deputados do PP”.

Abertas as malas, rolaram os milhões do mensalão do PT e o jogo virou.

(Este artigo de Nery foi publicado dia 16 de junho de 2005
e continua cada vez mais atual)

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