As mãos da princesa

Sebastião Nery

O Senado em Minas sempre foi a mão da princesa. Guardada para o príncipe. Qualquer um podia disputar outras vagas. Mas a do príncipe era sagrada, só dele. Sempre grandes mineiros.

Em 1945, acabada a ditadura, o príncipe ainda não era Benedito Valadares, apesar de dono de Minas de 1933 a 45, como governador e interventor. Elegeu-se deputado à Assembléia Nacional Constituinte.

O príncipe era Fernando de Mello Viana, “presidente” (governador) de Minas de 1924 a 26, vice-presidente da República de Washington Luís de 1926 a 30. Foi eleito senador (o outro foi Levindo Coelho, ambos do PSD) e presidente da Constituinte de 46.

Depois de Nilo Peçanha (presidente da República e do Estado do Rio), Mello Viana era o primeiro negro (quase negro) a chegar ao poder.

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MELO VIANA     

O poeta português Júlio Dantas veio ao Brasil e foi a Belo Horizonte. Desceu na estação, estava lá, esperando-o, o florido mundo das autoridades. Não conhecia ninguém. Sabia apenas que o prefeito era o “doutor Negrão”. Olhou para um lado, para o outro, abriu os braços e dirigiu-se rápido e sorridente para o cordão dos importantes:

– “Doutor Negrão, meu abraço!”.

Abraçou Mello Viana, senador, mulato retinto, quase negro. O doutor Negrão, Otacílio Negrão de Lima, prefeito, branco, estava ao lado.

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BERNARDES

Em 1947, uma vaga só para o Senado. A mão foi de Artur Bernardes Filho. Ele (PR e UDN) e Benedito Valadares (PSD) pediram licença da Câmara e disputaram. Ganhou Bernardes. Para governador, Milton Campos (UDN e PR) derrotou Bias Fortes (PSD), abrindo uma vaga para Afonso Arinos, que tinha ficado como primeiro suplente na Constituinte.

A UDN de Minas, com sete deputados, fez a “Semana Mineira” na Câmara, contra Benedito. Cada dia um ia à tribuna e desancava o ex-interventor, sempre querendo passar a idéia de que ele era burro e tapado. Quando o último falou, Benedito subiu para responder. E foi uma surpresa, pela inteligência, pelo bom gosto literário e pela sabedoria. Chamou os udenistas de “boquirrotos”, uma novidade. Zezinho Bonifácio aparteou:

– Um amigo meu, com paciência beneditina, apurou que em 1944 V. Exª passou mais de seis meses fora do Palácio, nos cassinos de Minas.

– Senhor deputado José Bonifácio, o tio de V. Exª, o “presidente” Antonio Carlos, também foi acusado de viajar muito. Respondeu assim: “Eu não governo com as pernas, governo com a cabeça”. Eu também.                      

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BENEDITO

Gabriel Passos entrou na discussão:

– Mas era Antonio Carlos e tinha cabeça.

– Lamento, deputado Gabriel Passos, o feitio colérico e energúmeno de V. Exª. Foi por isso que o dispensei de meu secretariado.

Gabriel Passos (concunhado de Juscelino, casado com a irmã de dona Sarah), constituinte de 1934, tinha sido, em 35 e 36, secretário do Interior e Justiça do governo de Benedito, que gostava de jogar bilhar, no fim da tarde, no Palácio. Gabriel Passos jogava com ele. Mas Benedito, como todo autoritário, não respeitava as regras. Encestava qualquer bola, fosse ou não a da vez. Gabriel Passos reagiu, jogando o taco na mesa:

– Essa não é a regra!

Benedito jogou o dele também:

– Deputado, você jogou o taco e a pasta.

E o demitiu. Getúlio Vargas nomeou Gabriel Passos Procurador Geral da República, o mais jovem do Pais.

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MILTON

Em 1954, com Juscelino governador, chegou afinal a vez de Benedito. Havia duas mãos e Minas deu uma a Benedito Valadares, do PSD, e outra a Lúcio Bittencourt, do PTB, querido professor da Faculdade de Direito de Minas, fundador do PTB, deputado federal, um nacionalista.

Em1958, a mão do Senado era outra vez uma só. Minas deu a Milton Campos, da UDN. Em 70, eram duas. A Arena dividiu com Gustavo Capanema, do PSD, e Magalhães Pinto, da UDN. Minas elegeu os dois.

Em 1974, Itamar Franco tomou a mão. A Arena queria dar a José Augusto, suplente de Milton Campos, mas o MDB elegeu Itamar. Em 78, foi a vez de Tancredo Neves: derrotou Israel Pinheiro Filho e Fagundes Neto. Em 1982, Tancredo elege-se governador e Itamar se reelege senador.

AECIO E ITAMAR

Em 2010, Minas decidiu logo. Com duas mãos para o Senado, uma seria para o ex-governador Aécio Neves e a outra para o ex-presidente Itamar Franco, mas o destino reservou uma delas para o primeiro suplente de Itamar, Zezé Perrela, presidente do Clube Cruzeiro e envolvido em várias denúncias.

A princesa ficou sem uma das mãos.

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