As massas e as ruas

Mauro Santayana (JB) 

A máscara de Guy Fawkes, o conspirador católico inglês que queria atear fogo ao Parlamento, no início do século 17, tem sido usada, por equívoco, pelos manifestantes de nossos dias. Embora hoje símbolo do grupo Anonymous e tendo aparecido como ponto comum em manifestações em todo o mundo, o malogrado rebelde, que, semienforcado e, ainda consciente, teve sua genitália cortada antes de ser eventrado e  suas vísceras fervidas, para então ser esquartejado, sabia o que desejava.

Sob a influência dos jesuítas, o complô, de que participava, queria uma Inglaterra católica. Seu mérito pessoal foi o de, sob tortura — que só o rei James I podia, então, autorizar, e autorizou — proteger, até o limite do sofrimento, os seus cúmplices. Instrumento de intrigas internacionais de seu tempo, que envolviam a Espanha e a Áustria — países católicos — e se valiam de dissidentes ingleses,  Fawkes é objeto de chacota em 5 de novembro de cada ano, quando se celebra a sua desdita em pequeno Carnaval nas ruas de Londres. Os vencedores escrevem a História, e a Inglaterra é, em sua esmagadora maioria, protestante até hoje.

E os que, agora, se manifestam no mundo inteiro? O que pretendem? Aparentemente, se revoltam contra o sistema econômico neoliberal, a corrupção e a inépcia dos governantes, que se refletem na desigualdade social. É também dessa forma que se identificam os manifestantes norte-americanos: a rebelião dos 99% espoliados, contra 1%, que são os espoliadores.

A maioria se revolta contra o sistema econômico neoliberal, a corrupção e a inépcia dos governantes. Há uma razão de fundo nessa identificação, uma vez que o homem, sendo produtor e consumidor de bens, é um ser econômico. Mas seria reduzir as dimensões do problema examiná-lo apenas a partir dos números, relativos ou absolutos. O homem pode ser, como diziam os gregos, a medida de todas as coisas, mas não pode ser medido por nenhuma coisa.

CRIADOR DE SI MESMO

Como ser histórico, é o criador de si mesmo. É, no jogo dialético com a natureza, que ele se fez e se faz. A sua melhor definição é a de Aristóteles: é um animal político. Foi político antes mesmo que houvesse a polis: boas ou más, as regras do convívio, exigidas pela necessidade da sobrevivência, já eram políticas — antes dessa definição pelo léxico grego.

Em razão disso, todos os livros da Antiguidade, neles incluídos os sagrados, são, no fundo, manuais políticos. Tudo é política e, acima de tudo, é política a presumida negação da política.

Nos atualíssimos dias o confronto é nítido entre o capital financeiro,  que pretende controlar tudo — mediante as autoridades governamentais, que escolhem com o financiamento das eleições — e os cidadãos. Autoridade e cidadão, mesmo nos regimes democráticos mais evoluídos, são categorias que se contrastam. Os eleitores nomeiam as autoridades, mas o mandato não é, nem pode ser, imperativo. Imperativas são as circunstâncias que separam o sentimento do eleitor, no momento do voto, do comportamento de seu mandatário, quando no Poder Legislativo e no Poder Executivo.

O carisma de alguns governantes ameniza essa discórdia, justificando o governante diante de seus prosélitos, em nome, valha a recorrência, do peso ou da ditadura das circunstâncias.

Não há dúvida de que passamos por um tempo de desalentadora mediocridade no governo dos estados nacionais. O carisma de alguns líderes — e este é o caso, entre outros, do presidente Barack Obama — tem prazo de validade, como certos alimentos industriais. Em alguns meses, como estamos vendo no caso de Hollande, na França, o entusiasmo fenece — e é substituído, num primeiro momento, pela decepção.
Nos sistemas presidencialistas puros, e onde há o instituto da reeleição, o segundo mandato não tem a solidez do primeiro. Se o governante não for extremamente hábil, corre o risco de se transformar em um lame duck, um pato claudicante sobre os charcos escorregadios.

RESPONSABILIDADE

A renúncia dos eleitos em assumir sua plena responsabilidade de garantir o bem-estar  e a independência das sociedades nacionais abriram caminho para que o neoliberalismo corroesse, até os alicerces, a autonomia dos dirigentes políticos. O início da curva histórica ocorreu  a partir do conluio estabelecido, nos anos 80, entre Reagan, Thatcher e Wojtila, com a cooptação de Gorbatchev — hoje conhecido em seus detalhes,  constrangedores.

Os legisladores e governantes foram transmudados em simples marionetes dos donos do capital, que dominam o mundo. Esses têm, em suas mãos, os maiores bancos, e, mediante eles, ou diretamente, as maiores empresas transnacionais do mundo. Os bancos e essas corporações controlam todos os recursos naturais e ditam os rumos da economia mundial.

Os legisladores e governantes foram transmudados em simples marionetes dos donos do capital Seu domínio vai ao ponto de provocar a  fome de alguns povos, por meio do controle dos alimentos — da produção dos fertilizantes, do uso da água, da fixação dos preços, pelo mercado de futuros, a estocagem e a especulação — dos cultivos até a prateleira dos supermercados. Isso sem falar nos minerais, do ferro ao nióbio, do urânio a terras raras.

As manifestações revelam a inadaptação da vida humana aos módulos impostos pela sociedade de produção e consumo, agravadas pela crise histórica da contemporaneidade. Elas pedem e anunciam uma nova forma de convívio — mas qual?

Estamos diante de uma nova fase da rebelião das massas, já examinadas com precisão por Ortega y Gasset, e Elias  Canneti, em “Masse und Macht”,  e hoje mobilizáveis em instantes pelos meios eletrônicos que pretendem controlá-las.
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17 thoughts on “As massas e as ruas

  1. Por que mentir? Mentir por quê?
    .
    Reinaldo Azevedo sobre Ricardo Boechat:
    “É espantoso que, sendo uma figura pública, tenha concedido essa entrevista”: “… eu sou favorável a jogar ovo, eu sou favorável a revolta, a quebra-quebra, o c..lho. ‘Ah, isso é vandalismo!’ Vandalismo é o cacete! Vandalismo é botar as pessoas quatro horas na fila das barcas todo dia (…) Vandalismo é tu roubar feito um condenado o dinheiro público”
    .
    Reinaldo não fique triste não se zangue…Tenho uma interpretação diferente. Uma figura pública e por ser figura pública não tem, necessariamente, obrigação de mentir. Tem?
    Isso é a essência do nocivo “politicamente correto”.
    – “A verdade geral e abstrata é o mais precioso de todos os bens. Sem ela, o homem é cego; ela é o olho da razão…A justiça está na verdade das coisas; a mentira é sempre iniquidade, e o erro é sempre impostura quando provocamos algo que não segue a regra do que devemos fazer ou crer: e seja qual for o efeito resultante da verdade, sempre somos inocentes quando a dissemos, pois nada acrescentamos de nosso – Rousseau” –
    A verdade, que está somente em dois lugares, em Deus e nos fatos, é sim que se insere como dever da figura pública. O que resta saber é se Boechat estava sendo honesto para com ele mesmo ou não; se estava sendo verdadeiro ou não. Sócrates e Platão, lido por Nietzsche que concorda com eles, avisa:
    “seja o que for que o homem faça, ele faz sempre o bem, isto é, aquilo que lhe parece bom (útil), de acordo com seu grau de inteligência, de acordo com o nível atual de sua racionalidade”
    .
    A ética sobre a qual tanto refletimos e falamos não é algo que se possa exigir, em especial dos políticos ou figuras públicas sempre mais envolvidos em suas rotineiras necessidades de opção; sempre pendendo entre deus e o diabo. A ética pode, justificadamente e em um mesmo e único caso, pender tanto para o lado da responsabilidade, quanto da convicção. A ética é o burro que puxa a pachorrenta carroça da moral. Sobre isto Max Weber me parece insuperável.
    O papel moral de uma figura pública certamente que pressupõe a expectativa (nada além disto) de que se comportem e expressem discursos e atitudes condizentes com a moral e os bons costumes. Todavia, a moral é um dever ser a ser obedecido, não um clichê imanente no humano. Afora isto, o crime, por ser um fato de sociologia normal, existe para ser cometido e assim, consequentemente, sofrer a respectiva sanção moral, religiosa ou legal. O pai da sociologia, Émile Durkheim, leciona que:
    “O crime é necessário; está ligado às condições fundamentais de qualquer vida social mas, precisamente por isso, é útil; porque estas condições de que é solidário são elas mesmas indispensáveis à evolução normal da moral e do direito”; segue: “Aliás, por o crime ser um fato de sociologia normal, não se segue que não se deva odiá-lo. Também a dor não tem nada de desejável; o indivíduo odeia-a tal com a sociedade odeia o crime e, no entanto, ela depende da fisiologia normal”.
    Olha, estimado Reinaldo, prefiro a figura pública honesta consigo mesmo, que a desfocada, mascarada, mentirosa; ponho –me sempre ao lado da verdade, ainda que a opinião que a transmite contrarie a minha:
    – Stuart Mill e Erasmo de Rotterdam bem precisam o que penso: “Se toda humanidade menos um, fosse de uma determinada opinião, e apenas uma pessoa fosse de opinião contrária, a humanidade não teria mais justificativas para silenciar aquela pessoa , do que ela, se tivesse o poder, de silenciar a humanidade”.
    – ”Não uso disfarce, não dissimulo no rosto o que não sinto no coração. Sou sempre igual a mim mesma. Não ponho a máscara, como aqueles que pretendem representar um papel de sábios e andam desfilando como macacos vestidos de púrpura e como asnos com pele de leão. Que se vistam com disfarces quanto quiserem, que suas orelhas sobressalientes revelarão sempre um Midas (o do Toque de Ouro) oculto”
    .
    “POR UM DEBATE SUJO PARA UM BRASIL PASSADO A LIMPO”.
    .
    Necessitamos saber quem é quem nesta guerra de foice no escuro da mentira e de mentirosos.

  2. Parabéns ao Sr. Mauro, pelo artigo e ao Sr. Barata,aprendemos muito, mas, creio em um DEUS, como Senhor do Universo, e que nos criou por AMOR, e colocou esse AMOR como nosso destino. nos deu a VIDA, com duas situações: O “BEM e o MAL”, ou melhor: o Direito de “ESCOLHA” nessas duas situações, para sermos responsáveis pelas nossas “OBRAS” perante nossa CONSCIÊNCIA, Tribunal Divino, em nosso caminhar na Estrada do Progresso ao “Reino da Luz” como usuários de diversas vidas, quer creiamos ou não.
    O Maior representante do CRIADOR, veio à NÓS a 2 mil anos,encarnou no homem, Jesus, dividiu o TEMPO, antes e depois de sua vinda, nos legou um “CÓDIGO DE VIDA”, que enterramos nos anos 300, e criamos o “Código da Hipocrisia e do mal”, com as religiões que se digladiam,vendendo o CÈU, e nos dando o Inferno, em que vivemos.
    A Ciência e Filosofia,confirmam a mensagem de 2 mil anos,de Jesus, basta termos” Olhos para ver” e Ouvido
    para ouvir”; “A Cada um segundo suas obras”, Pagarás até o último ceitil”, e veremos a separação do “JOIO DO TRIGO”, dita:…nos fins de tempo, o que hora a HUMANIDADE VIVE, por falta de AMOR FRATERNO.

  3. Vejam as mentiras da patroa de Santayana e de todos os chapas brancas como ele que apoiam os bandidos do mensalão e querem querem destruir a democracia atacando a imprensa livre e colocando a PEC #& para acabar com a investigação do MP, que condenaram seus comparsas

    “Ao contrário do que afirmou a presidente da República, Dilma Rousseff, em pronunciamento na sexta-feira, há sim dinheiro federal em obras de estádios da Copa de 2014. E não é pouco. Somados os incentivos fiscais, subsídios em empréstimos e até participação em arenas, a União já comprometeu R$ 1,1 bilhão com os locais para jogos do Mundial.

    Em cadeia nacional, Dilma afirmou que: “Em relação à Copa, quero esclarecer que o dinheiro do governo federal, gasto com as arenas, é fruto de financiamento que será devidamente pago pelas empresas e governos que estão explorando estes estádios. Jamais permitiria que esses recursos saíssem do orçamento público federal, prejudicando setores prioritários como a Saúde e a Educação.”

    Mas não é bem assim. Os empréstimos para as obras das arenas foram concedidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) com juros subsidiados, ou seja, mais baixos que o normal. Para facilitar a construção ou reforma dos estádios, o banco estatal abriu mão de R$ 189 milhões, valor que poderia ser aplicado em outros financiamentos para outros projetos.

    Esse cálculo foi feito por uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União). O órgão também já identificou que as isenções de impostos federais concedidas pelo governo às construtoras responsáveis pelas obras dos estádios da Copa somam R$ 329 milhões.

    Foi o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antecessor e aliado de Dilma, quem concedeu os incentivos fiscais às empreiteiras dos estádios. Em dezembro de 2010, ele assinou a lei 12.350 e as liberou do pagamento de PIS/Pasep, Cofins, Imposto sobre Produção Industrial, e taxas de importação sobre às construções de arenas da Copa.

    Os 12 estádios da Copa aderiram ao programa Recopa, que concede os benefícios. Só com a Arena Pantanal, por exemplo, o governo já abriu mão de R$ 16 milhões em impostos por conta do Recopa. Isso representa em torno de 4,5% do valor da obra contratada do estádio.

    FIFA GANHA ISENÇÃO E TRABALHADOR PAGA CONTA
    Enquanto a Fifa e as empresas parceiras da entidade estão livres do pagamento de impostos na realização da Copa das Confederações deste ano e da Copa do Mundo de 2014, o mesmo não pode ser dito sobre os trabalhadores brasileiros que prestarem serviço na organização desses eventos. Quem for contratado diretamente pela Fifa ou suas empresas estrangeiras parceiras, além de ter que recolher normalmente sua parte, inclusive do imposto de renda, ainda será obrigado a pagar uma parte do imposto que caberia à entidade máxima do futebol ou suas parceiras.” (UOL)

  4. Gente com pouco conhecimento social, político e pior, da condição humana, absorve qualquer coisinha sentimental.
    Coisa séria se traduz com fatos e números e não filosofias que visam escravizar esse bobinhos , que acreditam em Papai Noel. Perdem totalmente a capacidade cerebral de processar a realidade, emocionando-se facilmente com a falsa-moral das ideologias ou religiões, que dividem as pessoas em boas ou más e que só tem um fim, acabar com a democracia e a ocupar o poder absoluto para escravizar esses inocentinhos.
    Se é que existe algum país neo-liberal, que não passa de um rótulo infantil para desqualificar aqueles que querem um regime fechado como o de Cuba, que Santayana sempre defende, que ele aponte aqui, pois essa de generalizações sentimentais só pega frágeis emocionais e culturais. Os otários.

  5. E mais, UM FATO INDISCUTÍVEL: o Brasil nunca foi capitalista. O país teve um estado forte onde ninguém está seguro diante da sanha opressora deste estado.
    Aqui é um país socialista que se caracteriza como nos países escandinavos pela altíssima carga tributária. Só que aqui, ao contrário dos escandinavos, o povo não recebe os benefícios de direito. E taí o povo nas ruas para não nos deixar mentir.
    Então essa conversinha de malandro contra ou favor isso ou aquilo, num contexto de generalizações, como a de santayana (com minúsculas mesmo), serve mesmo para salvadores da humanidade que não saem de um boa mesa de botequim.

  6. Mauro Julioooooo!!!
    Você conhece um lugar mais sagrado do que uma mesa de botequim??? Ou … bater aqueeeele papo em pé, mesmo, com todos opinando, todos contestando tudo, todos sonhando com tantas coisas que se presumem impossíveis??? Ora, se não sonharmos … viver pra quê? A propósito, neste domingo irei lá na porta do edifício onde mora o governador Cabral, encontrar com outros manifestantes. Perguntaremos: quais as suas ligações com a super corrupta Delta? O Sr é amigão do Cavendish, que é assim, ó, com o Cachoeira … e agora, o que pode nos dizer?
    Às 16 horas, neste domingo ainda … praia de Copacabana, na rua!!! Contra a PEC 37!!! E … Mauro Julio! … vai um pastel aí!!! E um chopinho!!! Bora “salvar a humanidade”!!!

  7. Falou Almério, vc tá certo. E resumindo: aqui o país é de tralhadores honestos mas o estado sempre foi dominado por sem-vergonhas, como se diz num botequim, e corruptos, que jamais serão punidos, pois eles legislam em causa própria.
    Uma merda, infelizmente.

  8. Ortega y Gasset, citado em artigo sobre ensaio de uma “convulsão tupiniquim!, quiçá alvissareira ao que se tem em questões pendentes aos montes, né!…

    Mas, afinal, documentado o episódio, quem são os homens-massa, e onde encontrá-los? No caso de Pindorama, até então, tínhamos a idéia de uma patuléia ignota, parvos em sua cidadania… Alguém tem lembrança de uma máxima que reza sobre o bicho traiçoeiro, quando o caçador chega muito perto…O engraçado desse momento histórico e globalizante, a estupefação de uns… e o atônito… de outros, todos, que se dizem não entender o por quê do ensaio revolucionário(?)em massa,ocorrido em terras amarronzadas dos brasis de poucos brasileiros. Em profusão, homens-malvadeza, livres, leves e soltos, em harmonia com a impunidade criminal institucionalizada, e garantida nos meandros da Justiça claudicante… Certa vez, o ex-mandatário neoliberal, Ferdinand II, mandou: ” Brasil é uma ilha de estabilidade”. Afinal, Homens-massa, onde?…

    Olcimaréapenasumsenciente,
    umavozuníssona…
    CidadedeItaboraíRJBrasilBR12:04dom23junho2013

  9. ALGUEM PODERIA DAR UMA SUJESTÃO COMO PODERIAMOS PUNIR OS CORRUPTOS QUE ESTAO NO MERCADO? DIGO SUGESTÃO, PORQUE FAZER A LEI COM AS PROPRIAS MÃOS JA FOI PENSANDO…O PROBLEMA E QUE SOU UM SO E EXISTE MUITOS, NÃO TERIA BALAS SUFICIENTE PARA DISTRIBUIR.

  10. Tudo Bem , Seytrin, estamos ainda numa democracia e cada um tem lá sua opinião.
    Mas vc há de convir que este articulista sectário repete sua falácia o tempo todo.

  11. O gigante foi criado a leite com pera e Ovomaltine na geladeira

    Crônica sobre um titã incompreendido.

    Militantes das antigas, comunistas comedores de criancinhas, políticos corruptos e malvados em geral: tremei! O gigante acordou.

    Acordou, de fato, não há o que se discutir quanto a isso. Mas acho que acordou com amnésia. Ou o gigante esqueceu da história recente do país ou talvez não a tenha vivenciado. Estava dormindo, afinal de contas.

    O gigante também quer brigar contra o que está errado, mas não entende muito bem o que está acontecendo. Acho que ele acordou assim meio de supetão, no susto. Ouviu uma gritaria, uma certa baderna e à princípio achou ruim – quem gosta de baderna? Mas depois que viu algumas pessoas apanhando da polícia sem qualquer motivo aparente, mudou de ideia e resolveu participar.

    Foi assim que descobriu um pessoal brigando por seus direitos. Mas no calor do momento ele não pôde parar para entender o que de fato estava acontecendo. Simplesmente entrou na dança.
    Foto: G1
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    Correndo ali no meio do povo, o gigante ouviu dizerem que todo o vuco-vuco era para baixar o preço da tarifa do transporte público, que havia subido vinte centavos. Aquilo era meio estranho pro gigante, pois ele nunca andou de ônibus e alguns centavinhos para ele era mixaria.

    Foi aí que ele ouviu alguém gritar: “É mais do que vinte centavos!” e tudo fez sentido. Gigantes, você deve saber, têm dificuldade para interpretar as coisas, por isso ele entendeu que aquela era a hora de lutar por TUDO de uma vez só: saúde, educação, salários justos, etc.

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    Em meio àquele carnaval ideológico, o gigante se sentiu em casa. Escreveu cartaz, pintou a cara e se vestiu de branco. Até que finalmente encontrou uma causa ainda mais nobre para defender: chegara a hora de lutar contra o verdadeiro Mal.

    Gigantes não compreendem nuances de pensamento. Eles são maniqueístas por natureza, por isso precisava de um vilão bem malvado para lutar contra. Imagine como ele ficou contente ao sussurarem em seu ouvido: o governo atual é o vilão, pegou dinheiro do povo. E como ele esteve dormindo por tanto tempo, achou que foi o partido do governo que inventou a corrupção, e que antes deles nada disso tinha ocorrido no Brasil.

    E quem pode culpar o gigante? Poxa, ele não sabe das coisas. No fundo ele é bem intencionado, se você pensar bem: quer acabar com a corrupção, quem poderia ser contra isso?
    Foto: G1
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    Então o gigante avistou um monte de bandeiras vermelhas, cada uma com uma sigla totalmente diferente da outra, mas como ele não sabia ler direito, achou que todas eram a favor do governo, achou que todas representavam o Mal. E se chateou, pediu para baixarem a bandeira.

    Amigos compatriotas, vermelho é mal. Como vocês podem defender algo assim? Não pode! – bradava o gigante.

    O pessoal não quis ouvir o grandalhão. Até tentaram explicar o conceito de democracia pro gigante, mas o blablabla acabou por irritar o colosso ainda mais, que bateu nos manifestantes sem a menor cerimônia. Gigantes são assim: muito fortes, bastante estabanados e têm um pavio muito curto.
    O gigante tem fome. Foto: Terra
    Mas quem poderia culpar o gigante? Ele dormiu durante as aulas de História, por isso não sabia que aquelas pessoas estavam acordadas muito antes dele. Já tinham lutado muito, conquistado direitos, derrubado governantes. Mas para ele isso tudo não queria dizer nada.

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    O que poucos sabem, entretanto, é que gigantes são muito vaidosos. E toda aquela confusão que ele já tinha causado acabou chamando a atenção da mídia. Só que ao invés de contrariá-lo, a mídia resolveu bajular o gigante. Disse que aquilo que ele estava fazendo era o certo, e o gigante ficou todo cheio de si.
    Papai gigante chegou.
    Gigantes gostam de ser tratados assim, com todo o carinho. Experimente dizer “não” a um gigante. Não dá certo. Gigantes foram criados na base do leite com pera e Ovomaltine na geladeira. Quando vão no supermercado com os pais, sempre saem com um brinquedo novo. Quando vão para a balada, acreditam que todas as meninas são obrigadas a dar atenção pra ele. E se por acaso forem contrariados, os gigantes brigam. Brigam muito, esperneiam, se jogam no chão, batem, quebram tudo. Se a briga não der certo, chamam os pais. Aí a coisa fica séria, pois os pais dos gigantes são gigantes também, mas têm muito mais poder. Normalmente mais dinheiro, mais influência, mais cara-de-pau.

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    Todos achavam que o gigante acalmaria em algum momento, mas aí a tal da manifestação da tarifa deu certo: reduziram o preço pago pelo transporte público. Foi a maior festa. Só que o gigante queria mais, não podia simplesmente parar ali. Finalmente ele estava acordado, não queria dormir de novo.

    Por favor não julgue o incompreendido gigante. Faltou educação, faltou mais carinho e menos mimos. Tente entender o lado do gigante: um belo dia ele acorda e vê que o povo tem poder. E assim, sem entender, ele se envolve com a luta e consegue atingir um dos principais objetivos. Ora, não tem nada que um gigante goste mais do que quando cedem a seus pedidos. Por isso ele acabou se descontrolando de vez.
    Foto: G1
    Começou a carregar placas de tudo quanto é tipo. Falaram de um tal de PEC e que isso era ruim. Ele passou a ser contra. Falaram que a Copa era ruim, ele gritou contra. Falaram que os médicos de Cuba queriam roubar emprego dos médicos brasileiros, e o gigante gritou contra. Falaram que o melhor era tirar os vermelhos do poder, e então ele passou a gritar pelo impeachment da presidenta – mesmo sem ter nenhuma proposta do que fazer depois que ela saísse do poder. Mas ele gritou mesmo assim.

    ——————————————————————————–

    E foi aí que resolveram fazer o gigante de bobo de vez. Pois gigantes são, como eu falei antes, muito fortes e maniqueístas, estão sempre preocupados em fazer o Bem e lutar contra o Mal. Mas são ingênuos, coitados. É só fazer um carinho aqui, um lero-lero ali e eles já ficam todo abertos. E a tal da mídia – amiguinha do gigante – tinha um plano. Sabendo que o gigante estava todo cheio de “causas”, apresentou para o grandalhão um amigo de longa data, o Novo Candidato. Era um fulano genérico, sem bandeira de partido nenhum. Vestia branco e dizia que o Brasil não tinha que ir pra esquerda nem pra direita: tinha que ir pra frente. O gigante foi ao delírio.
    Foto: G1
    Diziam que esse cara era do Bem. Com “B” maiúsculo mesmo. Daqueles que acredita na família tradicional, no avanço do país. É totalmente contra a corrupção, contra os vermelhos, contra todo mundo que visa desestabilizar o modo Do Bem de viver que o gigante levava. Com um amigo grande, forte e meio burro como esse, foi muito fácil para o Novo Candidato chegar ao poder.

    Ele falou pro gigante que ter partidos era ruim e o gigante acreditou. No dia seguinte não haviam mais partidos políticos no Brasil.
    Ele falou pro gigante que baderneiro tem que levar bala mesmo e o gigante concordou. No dia seguinte qualquer tipo de manifestação estava proibida.
    Ele falou pro gigante que toda essa burocracia era ruim pro país e o gigante entendeu. No dia seguinte o Congresso Nacional, as assembleias legislativas e câmaras de vereadores amanheceram fechadas.
    Foto: G1
    O Novo Candidato fez uma limpa. Apagou todo mundo que pensava diferente, jogou os pobres numa vala qualquer e chamou o gigante para um coquetel. Para comemorar o Novo Brasil.

    O gigante se sentia satisfeito. Na noite do coquetel ele comeu e bebeu muito. Sentia que tinha feito algo muito importante pelo país e estava orgulhoso. Ao mesmo tempo se sentia cansado, com dores pelo corpo todo. Percebeu que há muito não parava, há muito não descansava.

    Agora o país estava em boas mãos, finalmente.

    E então o gigante dormiu de novo.

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  12. Prezado Senhor Santayana: texto lapidar, irretocável!
    Quanto à falá(ci)ção da chair(wo)man é lamentável. Mas parece que ainda engoda a clientela da bolsa-esmola!
    A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO! (AQUI É A COCAÍNA/CRACK!)

  13. Bem, santayana começa enredando suas presas com fantasias históricas , que, se nelas contém algum fundamento real, pouco o interessa , pois o que deseja é tentar dar um respaldo concreto à sua boa e velha falsa-moral, advinda de ideologias da salvação, para então definir os bons, que são seus cumpanheiros ou kamaradas, e os maus , seu inimigos, nos artigos, ou melhor, em suas pregações.
    Até Lula ele teve a cara de pau de elogiar, sempre com essa mesma fórmula sentimentalizadora, obscura, depois de tudo que o malandro aprontou e cujo filho hoje é bilionário.
    E por aí vai…
    Enfim, tem gente que se emociona fácil ou gosta mesmo.

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