As multidões e a visita do papa Francisco

João Batista Libânio

Diante das últimas manifestações de massa a que assistimos, as análises debruçam-se para perceber ora as semelhanças, ora as diferenças. As mobilizações de junho, a imensa multidão na praia de Copacabana na celebração do papa Francisco, as explosões da torcida atleticana com a vitória do Galo revelam desejo escondido nos corações com vontade de manifestar-se.

Tínhamos a impressão de que estávamos “deitados eternamente em berço esplêndido” e de repente sacudiram-nos e saímos às ruas para gritar, protestar, quebrar vitrines, ameaçar governadores, extravasar a alegria difícil da vitória na Copa das Américas, manifestar a fé na serenidade do silêncio e da festa alegre e civilizada.

Os romanos já conheciam o “panem et circenses”, pão e jogos de circo. O Brasil recebeu o pão ultimamente nos projetos sociais do governo: Fome Zero, Bolsa Família, Minha Casa, vários programas sociais. Apesar da existência ainda de tristes bolsões de miséria, houve melhoria para milhões de brasileiros com certa distribuição de renda.

Os efeitos tranquilizantes do pão passam rapidamente. Então, explode o desejo do “circo”. Temos dois permanentes: esporte e Carnaval. O Carnaval perde bastante da força popular, em muitos lugares, por ser devorado pelo turismo, comércio, marketing. O esporte traz vitórias e derrotas. Portanto, sozinho não preenche o vazio.

A ORIGINALIDADE DO EVENTO

De tempos em tempos, surgem outras explosões. E recentemente as experimentamos. Malgrado o crescimento de certo espírito laicista e antirreligioso, tanto em meios do governo, como em certa elite do país, a visita do papa Francisco mobilizou multidões de modo diferente. Vale a pena analisar a originalidade do evento. Milhões de pessoas estiveram juntas, ora na alegria da dança e do canto, ora no silêncio da prece, de maneira ordeira, sem violência, sem turbulência. E uma que outra minguada provocação externa não recebeu resposta, senão o silêncio e o recato.

Onde estaria o segredo da singularidade em face das outras mobilizações de massa? No espírito religioso. Lançando olhar para a história, percebemos que a religião provocou duplo movimento antagônico. Gerou guerras e paz, conflitos e reconciliações, lutas e festas. O cristianismo não se isentou historicamente de tal ambiguidade. No entanto, nas últimas décadas, a Igreja Católica, na grande maioria, a partir de João XXIII, que agora aparece redivivo na pessoa do papa Francisco, lançou o forte grito “Pacem in terris” – Paz na Terra – e anunciou a Reconciliação. João Paulo II, ao iniciar o milênio, celebrou em Roma belíssima liturgia em que a Igreja Católica pedia perdão pelas violências passadas e propunha-se ser sinal de harmonia e paz no mundo.

Se um bilhão de pessoas católicas assumirem atitude de serenidade, de congraçamento, de alegria na festa e de silêncio na contemplação, o mundo caminhará por outras vias. As ondas secularistas não se dão conta do mal que injetam no mundo, minando a força apaziguante, conciliadora e benfazeja da religião, da fé quando anunciam a paz e a concórdia. (transcrito de O Tempo)

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One thought on “As multidões e a visita do papa Francisco

  1. Trata-se de um tedioso cliché segundo o qual a religião é dotada de força apaziguante, conciliadora e benfazeja. Tedioso e falso.
    Quanto ao que foi denominado de “ondas secularistas”, desde os filósofos gregos antigos existem sérias refutações no que concerne à existência de Deus. A probabilidade de que Deus exista é mínima. Não estou me referindo a um ateísmo radical, mas ao que o articulista chamou de secularismo. Do mundo Ocidental, hoje não existe nação mais secular que a Inglaterra. Por quê, não sei. Os chamados “Pais Fundadores” da nação americana foram explícitamente secularistas, a começar por Benjamin Franklin. Nenhuma influência a religião podia ter sobre os assuntos do Estado.
    Se o Cristianismo esconde agora suas garras, o islamismo, que partiu dos mitos judaicos e cristãos, antes tão apaziguador, hoje é feroz, agressivo e truculento em sua base monoteísta (Al Qaeda).
    Todo o Velho Testamento advoga em defesa de um desprezível materialismo. Os Salmos de Davi já foram considerados como caracterização de um delinquente. Nada mais que isto.

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