As possibilidades da fora-tarefa versus a fora incontrolvel da natureza

Milton Corra da Costa

Em mais um episdio em que a repulsa da natureza mostra a sua fora devastadora, 11 pessoas morreram segunda-feira na Regio Sudeste do pas, na divisa MG-RJ, sendo duas crianas, em consequncia de deslizamentos de terra que soterraram residncias, havendo ainda 15 pessoas desaparecidas e cerca de 60 famlias desalojadas. S no Estado do Rio de Janeiro h dez mil desalojados e dois mil desabrigados. O mais triste e desolador, na tragdia deste domingo, que a maioria morreu dormindo durante a madrugada, sem possibilidade de fuga, soterradas pela avalanche de pedra, terra e partes de concreto.

Um das vtimas fatais vejam que agonia na forma como morreu – gritou por socorro durante 4h aps o deslizamento em Sapucaia (RJ). Das 3h da madrugada 7h da manh. O pai dele disse que ele falava pai, me ajuda. Mas ele no conseguia identificar onde o filho estava. Um pai tambm destroado para o resto de sua existncia. Os vizinhos tentaram mexer para procurar, mas muita pedra e muita terra, contou desolada a esposa Renata. Bombeiros continuam fazendo buscas por corpos na regio.

A fora da natureza tamanha e imprevisvel que um jornal televisivo mostrou, numa cena inusitada, o flagrante da impotncia humana com a sada, em pnico, de dezenas de pessoas por uma rua enlameada na localidade de Sapucaia entre elas bombeiros, policiais e funcionrios da defesa civil- descolando-se em desabalada carreira, apavorados ante o reincio de um deslizamento de terra numa encosta. Ou seja, contra a fria da natureza o ser humano torna-se extremamente impotente.

Mexeram, durante anos e anos, com um gigante pacfico e adormecido, que resolveu, de tempos pra c, dar o seu troco ante a injusta agresso sofrida. O Planeta Terra estar doravante, talvez irremediavelmente, em permanente desequilbrio.

As palavras realistas do Coronel BM Srgio Simes resumem tudo: uma histria que se repete, porque foi de madrugada, quando as pessoas esto mais indefesas. esse o cenrio de tristeza, cada corpo que sai, uma comoo, disse o Secretrio de Defesa civil do Estado do Rio de Janeiro, que acredita que os trabalhos dos bombeiros devem durar de 2 a 4 dias.

Obviamente, senhor secretrio, se a natureza resolver colaborar e der uma trgua na chuva. Contra a fora da natureza no mais h verdades e pensamentos absolutos.

Em meio a tanta tragdia (sempre anunciada), impotncia e desolao, o governo federal, onde alguns ministros de estado, conforme denunciado pela imprensa escrita, recentemente, em razo de participao em conselhos de estatais, conseguem perceber, instalados confortavelmente no ar condicionado, at R$ 45,7 mil de salrios, resolvem, num remdio bem tardio, anunciar a criao de uma fora-tarefa para combater as chuvas na Regio Sudeste, forca de emergncia esta que ser composta por 50 gelogos e hidrlogos, alm da ordem de liberao de R$ 444 milhes para obras nas localidades mais afetadas pelas enchentes.

Sinceramente, com o devido respeito a governantes, gelogos e hidrlogos alm do anncio da liberao das verbas emergenciais, confesso-me ctico com relao a tais medidas. Depois que presenciei na televiso um desolado chefe famlia, vtima sequencial das enchentes, declarar que a terceira vez que trabalha para ter que comprar novamente todos os utenslios domsticos e reaparelhar o seu lar, melhor seria (perdoem-me pela proposta e ousadia) comear a dar incio ao planejamento de um amplo programa de retirada estratgica de boa parte da populao perigosamente residente s margens de rios e prximo de encostas e diques.

Tenho dvidas se o programa Minha Casa. Minha Vida a soluo definitiva para a grave questo. Nada adiantar construir residncias populares nas mesmas regies onde h possibilidade permanente de todos ficarem ilhados e viver sob a intranquilidade do sinal de alarme de novos deslizamentos e enchentes. uma forma cruel de viver sobressaltado para o resto da vida.

Fica claro que algumas regies do interior do Brasil, importantes reas agrcolas vejam a dura seca do Rio Grande do Sul – vo se tornando reas inspitas. Talvez no futuro o xodo de populaes interioranas para os grandes centros seja mesmo inevitvel. Por mais que se tente remediar os estragos da fora da natureza nas regies do interior, todo esforo talvez seja pouco.

preciso pensar – corrijam-me os mais otimistas, se estiver errado – na possibilidade de receber e realocar milhares de brasileiros, com a devida infraestrutura necessria, pelo menos nas periferias das grandes cidades. Talvez seja mesmo o caminho inevitvel e relativamente mais seguro no futuro. Uma difcil empreitada onde muitos, acostumados com a vida interiorana, relutaro em aceitar. Mas preciso entender tambm que nada na vida definitivo.

preciso preservar ao mximo a vida, essa maravilhosa ddiva divina. Correr o risco de morrer prematuramente no vale a pena. A nica verdade absoluta, nesse contexto de dor, sofrimento e impotncia humana, que contra a fora da natureza, por maior que sejam as foras-tarefas, estas sero sempre impotentes. Estamos sendo vencidos, inexoravelmente, pela fora da natureza.

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