As vaias das ruas são o clamor por esperanças perdidas

Pedro do Coutto

Leio na Folha de São Paulo matéria da sucursal de Salvador, revelando que, na véspera do dois de julho, data da Bahia, durante as comemorações, o governador Jacques Wagner foi vaiado pela população, especialmente pelos professores que se encontram em greve. Claro que em função de reajuste salarial negado. Mas não é esta a questão dominante que marca manifestações populares contrárias aos governantes.

O salário é fundamental, sem dúvida, porém não constitui o único fator que motiva o povo nas ruas, levando-o a ponto de vaiar. Para que a vaia ocorra, sobretudo com intensidade, é necessário que, antes dela, tenham surgido fatos que acumulam insatisfações. Não acontecem por acaso, tampouco em face de reações setoriais e isoladas de um contexto. Os apupos – palavra antiga, quase em desuso – exigem atmosfera própria que os impulsione. Como tudo na vida. Sem atmosfera própria não se faz política. A rigor, não se realiza nada.

Política é esperança, definiu o presidente Juscelino a mim, numa entrevista para o Correio da Manhã. Guardei a frase forte e sintética na cabeça e, volta e meia, ela me vem ao pensamento. Política só, não. Na existência humana, tudo sempre começa e acaba na esperança. Seja ela qual for. Se ela desaparecer do horizonte, a pulsação diminui. A emoção também. Os presidentes, governadores, prefeitos, enfim os que possuem a caneta do poder devem levar em conta a quase profecia de JK.

Na política brasileira, infelizmente, sobretudo de pouco tempo para cá, o gesto não corresponde à palavra. Nas campanhas, os candidatos prometem muito. Na maioria dos casos realizam pouco. Alguns, então, não fazem nada. Só administram interesses pessoais. Daí a existência de empresários como Fernando Cavendish e Carlos Cachoeira, para citar dois exemplos emblemáticos de como não se deve agir em matéria de parceria público privada.

Mas esta é outra questão. O fato é que o poder necessita ir ao encontro de sua fonte, que está no voto livre do eleitor. O sistema partidário, claro, divide-se em correntes de pensamento e comportamento. Mas tem que existir, para nós, espectadores desse teatro, um mínimo de coerência. Inclusive não adianta querer que o conservadorismo se alie ao reformismo, porque são as forças antípodas de qualquer sociedade. Excetuando momentos de altíssimo risco, como na segunda guerra mundial, a opinião pública reage como lhe é possível à aproximações que interpreta serem forçadas de mais e necessárias de menos.

Outro dia, o intelectual Humberto Braga escreveu ótimo artigo sobre alianças surpreendentes através da história. Citou a firmada entre Roosevelt, Churchill e Stalin contra o nazismo de Hitler. No mesmo período e dentro das mesmas circunstâncias, na Inglaterra, o governo Winston Churchill, primeiro ministro, investiu Clement Atlee, seu adversário do Labour Party, no cargo de ministro do Trabalho. Era um governo de coalizão.

Em outros momentos menores, aproximações causam surpresa, como a que marcou o encontro do ex-presidente Lula com o deputado Paulo Maluf, que deu motivo a um texto satírico excelente de Luis Fernando Veríssimo no Globo. Veríssimo lembrou que Maluf é procurado pela Interpol e, no encontro, reapareceu das sombras.

Lula buscava apoio adicional para Fernando Haddad, quando, creio eu, o seu próprio apoio é mais que suficiente. Pois se Haddad perder, mesmo assim, a culpa não cabe a Lula, é claro. E sim à própria fraqueza do ex-ministro da Educação. O que, em decorrência do equívoco, aconteceu na convenção do PT, no sábado? Vaias surgiram. Lula estava ausente. O episódio se afirma por si.

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