As ziquiziras do Urucubaca

Sebastião Nery

Ele foi escolhido candidato a presidente da República em maio de 1909. Duas semanas depois, em junho de 1909, o presidente Afonso Pena morreu no palácio do Catete, em pleno mandato, de “traumatismo moral”, por causa da escolha dele. Eleito presidente, antes mesmo da posse, viajou para a Europa, em abril de 1910.

Primeira escala, Portugal. Exatamente no momento em que o recepcionava no palácio, o rei D. Manuel II foi derrubado. Ele ofereceu asilo ao rei, no encouraçado “São Paulo”, em que viajava. Por via das dúvidas, o rei preferiu ir para Gibraltar.

Entre 1911 e 1912, no governo dele, o Brasil tomou um empréstimo de 2,4 milhões de libras ao Loyds Bank. Ele depositou a metade do dinheiro em um banco russo. Veio a revolução bolchevique de 1917 e o dinheiro foi confiscado, junto com o banco.

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HERMES DA FONSECA

Quando deixou o governo, em novembro de 1914, foi, de trem, passar uns dias na fazenda de Pinheiro Machado, perto de Macaé, no interior fluminense. Em conversa com um amigo que viera de Campos, ficou sabendo que um trem, que viera logo depois do dele, descarrilara.

Sentado numa rede, de cabeça baixa, ele concluiu, melancolicamente:

– É o diabo isso. Agora vão dizer que é porque passei antes pela linha.

Dando tanto azar e ziquizira para os outros, ele entrou para a história do Brasil como “Dudu, o Urucubaca”. Era o marechal Hermes da Fonseca.

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DUDU 

Os jornais, revistas e chargistas, como o clássico J. Carlos, se lavavam com ele. E no carnaval o povo cantava uma modinha: “Ai, Filomena, se eu fosse como tu/tirava a urucubaca da careca do Dudu./ Ai, Filomena,/na careca do Dudu/subiu uma macaca./Por isso, coitadinho,/ele tem urucubaca”.

Durante seu governo, houve dez meses de estado de sítio. A polícia proibiu que os jornais, ao publicarem os resultados do “jogo do bicho”, que era permitido, dessem qualquer palpite sobre o “burro”. Podia ser sobre ele.

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ISABEL LUSTOSA

Essas e tantas outras deliciosas histórias estão em um livro imperdível, primorosamente ilustrado, da historiadora Isabel Lustosa, “Histórias de presidentes – A Republica no Catete, de 1897 a 1960”, publicado em 1989 pela editora Vozes, esgotado, e depois  relançado pela Agir.

Vai de Prudente de Morais (1894-98) a Juscelino Kubitschek (1956-1961). Há apelidos deliciosos: Prudente de Morais “o Biriba”, Rodrigues Alves o “Morfeu”, Afonso Pena o “Tico-Tico”, Nilo Peçanha o “Moleque Presepeiro”, Epitácio Pessoa o “Tio Pita”, Artur Bernardes o “Seu Mé”, Getulio Vargas o “Gegê”, Dutra o “Voxê Qué Xabê”.

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LULA

Mas o marechal Hermes da Fonseca não foi o único presidente “urucubaca”, “ziquizira”, “seca-pimenteira”, da história do país. Como escrevia todo dia durante a guerra o profético baiano diretor de “O Paládio”, de Santo Antonio de Jesus, “advertindo (sic) o presidente Roosevelt para o perigo da aliança com Stalin”, “eu também avisei”!

Tempos atrás, acho que em 2006, quando Guga era o imbatível campeão mundial de tênis, foi a Brasília levar uma raquete de presente para Lula. Alertei aqui: “Não faça isso, Guga! Lula tem uma sorte fantástica, mas só para ele. Para os outros, é um azarado, um urucubaca, um ziquizira. Chegou perto dele, aproximou-se dele, está lascado. Veja José Dirceu, Genoino, Palocci, Gushiken, Delubio, Greenhalgh, etc. Lenharam-se todos.” Guga saiu de lá e nunca mais ganhou um torneio de tênis.

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