At o Ano Novo, tudo velho

Carlos Chagas

Jos Serra e Acio Neves no decidiro quem ser o candidato tucano, muito menos informaro sobre a hiptese de uma chapa-pura.

Dilma Rousseff no definir nemassistir o presidente Lula definindo quem ser seu candidato a vice, sado ou no dos quadros do PMDB.

Ciro Gomes no anunciar se disputa a presidncia da Repblica ou o governo de So Paulo.

Roberto Requio no iniciar seu priplo pelos diretrios regionais do PMDB para reforar a proposta da candidatura prpria.

O Congresso no votar a reforma poltica, sequer a reforma tributria.

O Supremo Tribunal Federal no teroportunidade de pronunciar-se outra vez sobre a extradio de Cesare Battisti para a Itlia, porque o presidente Lula nada decidir a respeito.

A Cmara Legislativa de Braslia no avanar na deciso pelo impeachment ou a absolvio do governador Jos Roberto Arruda.

O ministro Guido Mantega no reagir diante dos nmeros do IBGE que o desmentiram abertamente a respeito do crescimento do Produto Interno Bruto.

O presidente Lula no dispensar os dezenove ministros que so candidatos s eleies do ano que vem, deixando-os na expectativa da desincompatibilizao futura.

Ora bolas, de hoje at o incio de janeiro no acontecer nada na poltica nacional. Fica tudo como est, salvo se Papai Noel dispuser de planos surpreendentes, daqueles que continuamos ignorando.

Vem, assim, a pergunta que no quer calar: para que escrevermos sobre poltica nos prximos quinze dias, se assunto no haver antes do Ano Novo? S que tem um problema adicional: e do Ano Novo at o Carnaval, algum se animar a tomar iniciativas polticas de vulto?

Metralhadora na torre da igreja

De vez em quando o vento levanta certas pginas da Histria que desmancham verses tidas como eternas. Remexendo papis velhos e lembranas mais antigas ainda, deparei-me com cpia de uma reportagem onde, nos idos de 1961, este que vos escreveexaltava o patriotismo do Cardeal-Arcebispo de Porto Alegre, D. Vicente Sherer, desaudosa memria.

Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, havia levantado a bandeira da legalidade quando os trs ministros militares, no Rio, lanaram manifesto contra a posse do vice-presidente JooGoulart, depois da renncia de Jnio Quadros. Expediram ordem para a priso de Jango, assim que pisasse em territrio nacional e mostravam-se dispostos a esmagar pelas armas a resistncia de Brizola. At ordens para o bombardeio areo do palcio Piratini tinham sido dadas.

O comandante do III Exrcito, general Machado Lopes, era uma incgnita. Permanecia fechado no quartel, proibindo a tropa de sair, fosse para coonestar o golpe, fosse para, como foi depois, aderir ao respeito Constituio.

Na dvida, o governador mandou cercar a sede do governo com sacos de areia, instalando metralhadoras no permetro e disposto a resistir at o fim, mesmo sabendo que dois ou trs tanques em quinze minutos reduziriam a resistncia a p.

Um dos oficiais da Brigada Militar alertou para o fato de que estavam expostos a ataques de avies de caa da FAB, se eles cumprissem a determinao do bombardeio, felizmente logo depois impedido pela ao dos sargentos da Base Area de Canoas, que desarmaram as aeronaves.

Naquela hora, porm, ningum sabia de nada, e Brizola aceitou o conselho para instalarem as duas nicas metralhadoras Ponto Cinqenta que a Brigada possua, no alto da torre da Catedral Metropolitana, bem ao lado do Piratini. Era muito pouco em termos de revide, mas o mximo que poderiam fazer. Sugeriu-se que fossem pedir licena a D. Vicente Sherer, que no deu. Brizola conhecia o prelado de tertlias variadas e ordenou que as Ponto Cinqenta fossem instaladas de qualquer maneira, como foram.

O cardeal exasperou-se, alegou a invaso de solo sagrado e partiu para tirar satisfaes com o governador. Como as entradas do palcio do governo estivessem cercadas pelos sacos de areia, ficou do lado de fora, exigindo uma audincia. Maliciosamente, Brizola recomendou aos auxiliares para no o deixarem entrar.

Entrado em anos, D. Sherer no aguentou ficar de p na calada, sentando-se no meio-fio recostado num poste. A imprensa logo percebeu sua presena, servindo-se os fotgrafos com flagrantes de toda espcie, sem que os reprteres fizessem muito caso do cenho fechado e da cara emburrada do cardeal, que pouco depois se retirou. Foram buscar explicaes com o governador, que matreiramente disse noter percebido D. Sherer do lado de fora, mas que havia sido informado de ter vindo oprelado solidarizar-se com a campanha da legalidade. Foi o que os jornais de Porto Alegre publicaram no dia seguinte, com amplas fotografias da adeso da Igreja resistncia do governador pela posse de Joo Goulart, quando, na realidade, ele tinha ido protestar contra as metralhadoras instaladas na torre da catedral.

Pois . Anos depois, conversando com Brizola sobre a magnfica tomada de posio do cardeal, ouvi dele a verso real e um comentrio: No foi nada do que vocs divulgaram, mas eu no tinha motivo algum para desmentir…

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