Atenção, Brasil: analistas dizem que a Olimpíada de 2004 foi prenúncio de crise grega.

O comentarista Carlos Germani nos envia uma impressionante reportagem de Thomas Pappon, da BBC Brasil em Londres, em que ele afirma que a escalada de custos, a falta de controle nas obras e o abandono generalizado do legado físico da Olimpíada de Atenas 2004 foram sinais da tragédia financeira que estaria por vir, a crise da economia grega.

“A aventura olímpica de Atenas trouxe prestígio, fez a Grécia reviver – mesmo que por apenas três semanas – a glória e a pompa dos jogos pan-helênicos da Antiguidade e deu uma boa polida na autoestima e no orgulho da população”, diz Pappon, acrescentando que o evento também expôs sérias falhas de planejamento e organização, levantando dúvidas sobre a capacidade do Estado grego – no início de 2004, antes da expansão da UE, a Grécia era o segundo país mais pobre do bloco em termos de PIB per capita – em lidar com uma promoção do porte de uma Olimpíada.

“Os Jogos foram determinantes para inflar os números na época”, disse à BBC Brasil Marika Frangakis, economista do EuroMemo (Economistas Europeus por uma Política Econômica Alternativa). Segundo Frangakis, o país já vinha acumulando gastos públicos extraordinários, uma situação que teria se agravado “com as oportunidades de corrupção abertas na distribuição de contratos a grandes corporações”.

Se a Olimpíada de Atenas foi a mais cara da modernidade, podemos imaginar como será a do Rio de Janeiro. O repórter Thomas Pappon diz que hoje, sete anos depois, ainda é difícil precisar o total dos gastos com a Olimpíada de 2004. Em novembro daquele ano, o governo grego anunciou o custo final como sendo de 8,9 bilhões de euros (R$ 21,3 bilhões) quase o dobro do orçamento inicial e o suficiente para apelidar, na época, Atenas 2004 de os Jogos mais caros da história moderna.

O montante não inclui gastos com obras que vinham sendo planejadas antes, independentemente dos Jogos, mas que foram aceleradas por causa destes, como o novo aeroporto internacional, uma via expressa e linhas de bonde e trem, todas na capital ou nos arredores.

Segundo dados do Ministério das Finanças grego divulgados em novembro de 2004, dos 8,9 bilhões de euros (R$ 21,3 bilhões) – quase o dobro do gasto dos Jogos anteriores, os de Sydney, de 6,65 bilhões de dólares australianos (R$ 11,8 bilhões) –, 7,2 bilhões vieram do Estado, que disponibilizou a maior parte destes recursos através de um programa de investimentos em infraestrutura semelhante ao PAC brasileiro.

O país também teve o azar de estar realizando os primeiros Jogos após os ataques de 11/9 nos Estados Unidos, o que o obrigou a aumentar várias vezes a parcela dedicada à segurança do evento.

“A Olimpíada pôs pressão sobre as finanças públicas”, disse à BBC Brasil o economista Vassilis Monastiriotis, da London School of Economics. “Grande parte dos gastos (do Estado) foi financiada com empréstimos. Os Jogos arrecadaram bem menos do que o estimado originalmente. O governo esperava recuperar parte dos custos com a venda ou privatização de instalações olímpicas, mas ele conseguiu levantar apenas uma parte disso, 25% talvez, do esperado”, diz Monastiriotis.

Hoje, longe de ter ajudado a revitalizar Atenas, o complexo olímpico de Faliro está abandonado, os dois principais estádios estão fechados e várias outras instalações que sediaram competições estão às moscas, cobertas de mato e grafite.

Segundo a Eurostats, o braço de estatísticas da União Europeia, a economia grega fechou 2004 com um deficit de 7,5% do PIB, o maior entre todos os países do bloco. No ano anterior, o deficit grego tinha sido de 5,6% do PIB. A dívida pública em 2004 subiu para 98,6% do PIB – ou equivalente a cerca de 50 mil euros para cada família no país.

Como todos sabem, o orçamento dos Jogos no Rio 2016 ainda está sendo revisto, para cima, é claro. No dossiê da candidatura, ele estava estimado em R$ 28,8 bilhões – R$ 7,5 bilhões a mais do que o custo de Atenas 2004. E vai custar muito mais, porque a irresponsabilidade administrativa no Brasil e no Rio de Janeiro realmente não tem limites.

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