Ato do PT contra imprensa precisa dos jornais para repercutir

Pedro do Coutto

Leio em O Globo de tera-feira, 21 de setembro, matria da reprter Leila Suwan revelando que o PT programou ato absurdo para hoje, quinta-feira, destinado a atacar a imprensa e denunciar (custa a crer) o que classifica como impulso golpista para destruir a democracia. Nada sobre o vergonhoso episdio Erenice Guerra no qual foi estendida uma teia de negcios ilegtimos no terceiro andar do Palcio do |Planalto.

Esto assinalados como promotores do estranho evento a CUT, a Fora Sindical, a CGTB, o MST e a UNE. O ato est marcado para a sede do Sindicato dos Jornalistas de So Paulo. Para citar Marcel Proust, ser o caminho descoberto por Suwan uma rota para alguma tentativa de ruptura institucional? Fica a dvida.

Impulso golpista da imprensa? Como? Todos os dias os jornais e emissoras de TV e rdio destacam as pesquisas que apontam a alta popularidade e a aprovao do governo Lula e tambm a liderana de sua candidata, Dilma Rousseff, nos levantamentos de inteno de votos. Francamente, procurem outra desculpa . Essa tentativa de golpe est sim para desviar a ateno da opinio pblica dos escndalos em srie protagonizados por Erenice e seus familiares. Mas em todo elenco de siglas revoltadas contra a liberdade de expresso, princpio ptreo da Constituio do pas, a presena de uma delas nesse ballet extremamente triste: a da Unio Nacional dos Estudantes. Tenho a impresso que a juventude universitria foi cooptada pelo poder. Cedo demais para que os jovens abandonem a tese reformista e passem a conservadores. Sob o ngulo do governo, de nada adianta envolver a juventude. Acomodada esta, perde-se o sentido do relativo, da crtica livre no tempo e no espao.

A atual direo da UNE necessita lembrar que na histria herica da entidade esto dois fatos essenciais na luta pela democracia. A primeira em 1942 na passeata que derrubou Filinto Muller da chefia de polcia. A segunda a concentrao dos cem mil que culminou na Cinelndia contra a opresso da ditadura militar e de reao priso de estudantes na Praia Vermelha levados fora para o antigo campo do Botafogo. Na passeata dos cem mil – absolutamente histrica estavam na tribuna, escadaria do Palcio Pedro Ernesto, Vladimir Palmeira, Franklin Martins, Elinor Brito e Marc Van Der Heidt, formando uma muralha contra o peso das foras repressoras e obrigando o governo Costa e Silva a dialogar. Mas isso foi ontem. Pertence ao passado. Parece ter sido esquecido pela UNE de hoje. Uma pena.

No roteiro de Leila Suwan, est acentuada a violncia da injustia do PT e unidades sindicais contra os jornais e jornalistas. Injustia e ingratido. Porque em momentos crticos das lutas que travaram ao longo do tempo, recorreram imprensa pedindo cobertura e espao para seus pronunciamentos. fcil querer-se democracia quando se est debaixo. Difcil pratic-la quando se est de cima. Esta frase encontra-se no livro de David Nasser contra Filinto Muller, “Falta Algum em Nuremberg”, um dos melhores ttulos da literatura brasileira. Quando se est sob o peso da ditadura, fcil pedir a publicao de notas e reportagens. Fcil pedir, como aconteceu na poca da censura, notcias cifradas a respeito da priso de pessoas. Natural pedir-se que se divulgassem seqestros praticados. Difcil, entretanto, , na prtica, aceitar e conviver com a liberdade.

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