Azar e sorte podem selar o destino de pessoas e cidades. Vejam o exemplo de Praga.

Primavera de Praga
Sandra Starling

Quando vi na televisão o atentado ocorrido em Boston, quase morri de susto: naquela cidade mora uma de minhas filhas com dois netos e, naquela semana, lá estavam em visita a eles meu ex-marido e nosso filho.

Até receber notícias deles, fiquei apavorada. Depois passei a pensar agudamente no caso do menino que morreu portando um cartaz com o nome do pai, que corria a maratona, e em sua mãe e uma irmã, ambas gravemente feridas.

Por que isso aconteceu com eles? Por qual razão estavam todos exatamente no lugar escolhido por um maluco terrorista para sinalizar contra ou a favor de seja lá o que for na história de nossos dias? Por que tanto azar ou falta de sorte atingem dadas pessoas em dados momentos e poupam outras?

Com certeza, tantas perguntas se relacionam ao que vivi nestes dias, tendo visitado Dresden e Praga, uma cidade após a outra. Sobre Dresden: um monumento cultural da humanidade destruído para satisfazer os objetivos políticos de um líder (Churchill, receoso do confronto com o vitorioso Stalin, nos estertores da Segunda Grande Guerra).

PRIMAVERA DE PRAGA

Praga faz jus ao nome dos acontecimentos de 1968, a “Primavera de Praga”, quando seu povo ousou tentar se libertar da submissão à União Soviética: a primavera estava por toda parte, com multidões de turistas nas ruas, visitando cada pedacinho indescritível de uma cidade inesquecível. Música em concertos nas igrejas ou em cada esquina por ambulantes. Vi até um realejo! E dancei, como se ainda tivesse 20 anos, ao som de “Garota de Ipanema”, tocada por dois jovens que podiam ser amigos de meus netos… cantando com eles no meio da rua.

Praga foi poupada pela sorte e pela ironia da história. Entregue, na bandeja, pelos governos britânico, francês e italiano em 1938, quando Hitler reivindicou a região dos sudetos, uma vez  dominada pelo führer foi logo esquecida para que este anexasse a Polônia, iniciando a Segunda Guerra Mundial. Quando as tropas nazistas já recuavam e Stalin corria em direção a Berlim, Praga não ficava no meio do caminho, e, assim, a Polônia foi novamente a vítima do destino e da falta de sorte que já a perseguira antes.

CORREDOR POLONÊS

Depois da Primeira Guerra, a Liga das Nações estabelecera um corredor que separava a Prússia Ocidental da Oriental, dando acesso dos poloneses ao mar: daí a imagem vulgar do “corredor polonês”, a Prússia Ocidental e a Oriental ameaçando e brutalizando os poloneses. Praga, que não ficava na mesma latitude de Berlim, acabou sendo poupada no fim da guerra também. Por que tanta sorte para Praga e tanto azar para a Polônia? Não sei.

Diziam os gregos que os deuses se vingam dos humanos que querem ser como eles. Mas em que o menino de Boston e Dantzig irritaram os deuses com a falta de sorte dele ou da cidade, o reverso de Praga, tão bela?

Com certeza, jamais vou saber, mas, também com certeza, por conta de minha constante curiosidade, jamais vou deixar de perguntar: por quê?

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4 thoughts on “Azar e sorte podem selar o destino de pessoas e cidades. Vejam o exemplo de Praga.

  1. No texto sobre a Primavera de Praga, parece que houve uma supressão de alguma coisa entre a primeira e a segunda parte.O que seria ?

  2. Quanta inocência prezada Sandra. Sabedores de que bombas caem rotineiramente sobre as cabeças de crianças e idosos em países como Afeganistão, Iraque, paquistão entre outros; jogadas candidamente pelos líderes dos bostonianos a pretexto de sua cruzada antiterrorista, caberia perguntarmo-nos por que o ataque foi à Maratona de Boston e não à São Silvestre do nosso Rio de Janeiro, de março e também de fevereiro?

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