Baixaria histórica e sem precedentes

Augusto Magalhães Coimbra:
“Estou escrevendo decepecionado e até frustrado, sem sequer pedir desculpas, pois seu admirador, nunca vi o senhor se omitir como agora. Ontem à noite acessei logo seu blog para ver o que o senhor iria dizer sobre a sessão do Senado. Hoje o senhor certamente terá uma explicação.”

Comentário de Helio Fernandes:
Você justamente não pede desculpas, eu peço, completando que tenho explicação ou explicações, mas nenhuma delas conclusiva ou aceitável: NÃO CONSEGUI ESCREVER. De 5 às 7 fiquei vendo e ouvindo pela TV-Senado, aquela barbaridade, fiquei tão assombrado que não havia o que dizer. Como gosta de repetir o brilhante professor Helio Jaguaribe, eu precisava condenar o CONTINENTE e o CONTEÚDO, mas com que palavras?

Só poderia usar o tom e a grosseria utilizada por representantes dos dois lados. Foi uma B-A-I-X-A-R-I-A, esta a palavra, num espetáculo parlamentar que jamais presenciei em minha vida jornalística.

Frequentei a Câmara e o Senado diariamente durante 14 anos, de 1946 (a primeira e verdadeira Constituição) até 1960 (a tragédia da mudança da capital), que permitiu ou provocou a B-A-I-X-A-R-I-A de ontem.

E o Congresso, no Rio, viveu espetáculos memoráveis, dilacerantes, hostis e contraditórios, sem sequer se aproximar do que os senadores protagonizaram ontem.

Em 1950, a tentativa de não posse a Vargas, ditador por 15 anos, mais aí eleito pela primeira vez. Em 1955, o GOLPE para não dar posse a Juscelino, eleito com 36 por cento dos votos, mas eleito. Em 1957, a tentativa desse mesmo Juscelino de cassar o mandato de Lacerda, depois de PROIBI-LO de falar na televisão, já tendo determinado a mesma PROIBIÇÃO para este repórter e para o jornalista Millor Fernandes.

E é impossível deixar de registrar a CPI da “Última Hora”, o discurso de Afonso Arinos nas vésperas do suicídio (politicamente genial) de Vargas, numa noite da Câmara (Afonso Arinos ainda não era senador) completamente lotada, no plenário e fora dela.

Foi o mais importante e destruidor discurso que ouvi em toda minha vida. (O próprio Afonso Arinos considerou assim, tanto que se reconciliando com a família Vargas, fez desaparecer o brilhante discurso não só de suas memórias, mas até mesmo dos anais do Congresso).

Poderia contar episódios que dividiram o Congresso no Rio (Distrito federal)que tinham hostilidade e desavença geral, mas não chegaram à B-A-I-X-A-R-I-A de ontem.

Você vê, Augusto, espero que compreenda, a razão de não ter escrito nada sobre o tumulto PLANEJADO de ontem. Por que digo PLANEJADO? Sarney presidiu a primeira parte, quando começou a Ordem do Dia e normalmente assume, foi embora, pois na presença dele, como iriam brigar como moleques de rua? Acabado o tumulto, reassumiu, risonho e satisfeito, como se o personagem que provocava toda aquela B-A-I-X-A-R-I-A não fosse ele.

Para terminar, quero chamar a atenção: estou usando nesta resposta pela quinta vez a palavra B-A-I-X-A-R-I-A. Tenho certeza que os senadores se encontrarão, se reconhecerão e se satisfarão nela e com ela.

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