Bala na veia, no nariz e na goela

Jacques Gruman

Ao jovem Nathan Bloc, que, mesmo ameaçado, se
recusou a participar da subjugação de um povo.

Seu Gama era um estranho aos olhos do Menino. Nunca tirava o pijama listrado e os chinelões, caricatura de aposentado (que o Menino não sabia o que era). Aquele homem grandalhão parecia viver a resmungar, acompanhado à distância pela mulher, resignada figurante na rotina inalterável de classe média baixa. Doce figura, a dona Gisa.

Burnat e as câmeras quebradas

O filho Hélio se alistou no Exército, trampolim social para os de baixo. De vez em quando, ele aparecia com o uniforme de recruta, coturnos impecáveis, corte reco, rosto seco. Diziam que servia no quartel da Polícia do Exército, futuro centro de torturas na ditadura militar, poucas quadras de distância. Durante anos, o Menino passaria em frente àquelas instalações, na rua Barão de Mesquita, caminho da escola. Mal desconfiava que, ao lado de uns caminhões velhos e sentinelas congelados, se armava uma arapuca de sádicos a serviço do Estado.

Quando Emad Burnat, um palestino morador de Bil’in, começou a filmar, queria apenas registrar o nascimento do filho Gibril e cenas familiares. Também ele não podia desconfiar que a história seria outra. Aos poucos, passou a documentar a resistência pacífica dos aldeões contra as tropas de ocupação israelenses, que destruíam oliveiras anciãs, protegiam a expansão de colônias ilegais (habitadas, principalmente, por fundamentalistas religiosos) e reprimiam com extrema violência as manifestações semanais contra o a ocupação.

Uma bomba de gás lacrimogêneo atingiu e quebrou a câmera. Ela seria a primeira de cinco, quebradas uma após a outra, todas incansáveis testemunhas de uma luta pela autodeterminação. Vemos imagens de solidariedade, militantes israelenses e de outros países marchando ao lado dos palestinos. Assistimos, terrificados, a brutalidade da repressão. Soldados atirando com munição viva, matando e ferindo gente desarmada. Numa das cenas, um palestino com olhos vendados e manietado é alvejado no pé, por um soldado israelense, a um metro de distância. Prisão para crianças e adolescentes. Razias estridentes na madrugada, para intimidar a população. Tudo feito com planejada truculência.

DUAS ESPÉCIES DE VÍTIMAS

A ocupação dos territórios palestinos está produzindo duas espécies de vítimas. As principais, claros, são os próprios palestinos. Desterrados, desrespeitados, agredidos, discriminados, encurralados. Não se respeitam sequer suas plantações seculares. Camponeses destituídos do sustento, jogados na miséria e no desespero. É nesse ambiente que crescerá Gibril, associando israelenses com prepotência e morte. Francamente, como se pode esperar que reaja ?

Há, no entanto, outra espécie de vítima. É a geração de soldados que tocam a repressão. Excluindo-se os casos patológicos, os sádicos que têm prazer em infligir dor, desconfio que as cenas de barbárie contra civis terão efeitos colaterais importantes. Nas guerras, convencionais ou não, os soldados se agarram ao que for possível para suportar o inferno de explosões, corpos estraçalhados, vidas destruídas, a morte como parceira. A aparente virilidade se dissolve em drogas e todo tipo de transtorno psíquico.

No guerra contra o Vietnã, o consumo de drogas se tornou endêmico. Estima-se que 80% das tropas imperialistas norte-americanas usavam algum tipo de droga. Na década de 70, quase um terço consumia heroína regularmente. A guerra fez a festa dos acionistas da Dow Chemical, que abastecia a Força Aérea ianque com napalm e agente laranja, mas trouxe para casa uma legião de mutilados, viciados, inadaptados e sem-teto.

O mesmo script se repete com as intervenções no Iraque e no Afeganistão. Há uma escalada rumo ao entorpecimento, que está gerando redes de tráfico que atravessam oceanos e desaguam no mercado norte-americano. Os casos de overdose, seguidos de morte, se acumulam.

E EM ISRAEL?

Será que Israel está livre deste tipo de cenário ? Não há muitos dados disponíveis, mas o que existe dá para, no mínimo, acender uma luz amarela. Dados oficiais apontam para um mercado interno de cerca de 300 mil consumidores de drogas, entre ocasionais e viciados. Na faixa de 18 a 30 anos, em que se encontram, entre outros, membros das forças armadas, há um aumento consistente do uso de maconha, haxixe e ecstasy.

Estima-se que são consumidas, anualmente, em Israel, 100 toneladas de maconha, 4 toneladas de heroína e 3 toneladas de cocaína. Mais de 20 milhões de doses de alucinógenos completam o quadro. Há, por outro lado, denúncias crescentes de consumo de álcool nas unidades militares, mesmo as chamadas de elite (como a Brigada Golani). As Forças Armadas refletem a sociedade.

Vietnã, Iraque, Afeganistão, territórios palestinos ocupados. Morte e doença a granel. Guerra é uma droga – e põe duplo sentido nisso. O Menino só espera que o Hélio não tenha seguido carreira no quartel da PE nos anos 60, bestializando-se e decepcionando seu Gama e dona Gisa. Eles não mereciam.

Em tempo: A história de Emad Burnat é verídica e se transformou no documentário “5 broken cameras”, codirigido pelo israelense Guy Davidi. Concorreu ao Oscar de melhor documentário este ano. Ironicamente, ao desembarcar no aeroporto de Los Angeles, Emad foi detido por algumas horas (devem ter achado que ele era um “terrorista”).

(enviado por Mario Assis

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