Baleia no aquário

Carlos Chagas

Viajar no avião de um cliente não chega a ser pecado  mortal. Mentir pode ter sido a gota d’água, quando negou na Câmara e no palácio do Planalto  a carona  fotografada e agora  divulgada na primeira página dos  principais  jornais.  Carlos Lupi está sendo defenestrado menos pelo vôo, em 2009,  no King-Air alugado pelo empresário Adair Meira, pelo interior do Maranhão, mais pelo conjunto da obra não realizada no ministério do Trabalho.

Além  de haver celebrado convênios com montes de ONGs fajutas,  ligadas ao PDT, daquelas que se apropriaram  de recursos públicos sem prestar os serviços prometidos, o que  mais fez o  ministro desde que empossado,  nos últimos anos do governo Lula? Pouquíssima coisa. Deixou de destacar-se na luta por um salário mínimo  mais digno, deu de ombros para o reajuste das aposentadorias do trabalhador que recebe acima do salário mínimo. Ignorou as greves justas  de diversas categorias de trabalhadores. Deixou o combate ao trabalho infantil e ao trabalho escravo por conta da Polícia Federal.   Não reuniu nem  dialogou com empregados e patrões, simplesmente engolindo as determinações de um  governo infenso a lutas sociais.

Lupi cai por inação, muito mais do que por aviação. Porque se fosse para contar  as vezes em que ministros voaram em aeronaves particulares, nem de carreira,  nem da FAB, quantos ministérios inteiros já teriam sido  exonerados?

Também cai por haver transformado sua pasta  num  feudo do PDT, onde,  para exercer funções grandes  e pequenas,  o único requisito tem  sido  a carteirinha de filiação ao  partido. Bem como, é claro,  as facilidades de locar dinheiro público para atividades eleitorais-partidárias.

Não fez,  o indigitado  ministro, nada além do  que a maioria de seus colegas  de ontem e até  de hoje, mas com o agravante de não haver realizado  mais nada. Nenhum plano de vulto, nenhum programa capaz de merecer os aplausos gerais,  sequer  de  chamar a atenção dos assalariados. Quanto mais da presidente Dilma.  Com todo o respeito, foi uma baleia nadando  num aquário.

Cinco outros ministros do atual governo já  saíram por acusações de corrupção,  enriquecimento  ilícito ou mau uso dos recursos públicos.  Mas principalmente por empáfia e incapacidade de ser ministros. Carlos Lupi é apenas o sexto. Serviu fielmente a Leonel Brizola, mas esqueceu-se  das lições do mestre. Nada deixa capaz de ser lembrado, ao contrário da reforma no ensino público, da resistência democrática contra a ditadura, das obras  materiais e, em especial, da esperança pelo aprimoramento social.

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AINDA É TEMPO

A questão Lupi acende o sinal amarelo no semáforo postado diante do palácio do Planalto. Com todas as dificuldades inerentes à sua ascensão ao poder pelas mãos do Lula,  Dilma Rousseff tem diante dela a chave para o  futuro:  acabar com o loteamento do governo entre partidos que só pensam em aumentar o próprio  faturamento, e quem sabe  de seus caciques, ou romper o círculo de giz e escolher uma equipe capaz de exprimir a construção de  um projeto digno do país.

Está  mais do que claro que com os ministros já demitidos, e agora, com Lupi, a presidente não chegaria a lugar algum.  Ainda pontificam  no ministério figuras iguais ou  piores daquelas até hoje  exoneradas. A hora seria de extirpar os incompetentes. E os malandros. Para que esperar janeiro? Por que não manter apenas aqueles que  colaboram com ela? 

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OS VELHOS E OS NOVOS 

Quem não se programa, em política, costuma quebrar a cara. É aquela historia do provérbio árabe que vivemos repetindo neste espaço: bebe água limpa quem chega primeiro na fonte.

Para as eleições presidenciais de 2014 já estão posicionados a presidente Dilma, como alternativa  o ex-presidente Lula, Aécio Neves, José  Serra, Geraldo Alckmin, Eduardo Campos e até Michel Temer, se a realidade revelar-se mais estranha do que a ficção.                                                                  

Esses são, sem referências à idade, os candidatos velhos, de que todo mundo começa a falar. Mas os novos, aqueles que nem por sombra são incluídos no rol dos prováveis  óbvios?

Quem quiser que especule, mas tem gente dando asas à imaginação. Coisas novas sempre aparecem, à margem dos partidos e dos esquemas ortodoxos. Como, também, afastados da mídia. Como, por exemplo… (cala-te boca, para não  perturbar a placidez da equação).  Mas poucos imaginavam, três ou quatro anos  antes das respectivas eleições,  que Getúlio Vargas voltaria pelo voto,  Jânio  Quadros, pelo histrionismo, Fernando Collor, pela audácia, e até Dilma Rousseff, pelo  ineditismo. Todos, vale lembrar, surpreendendo as pitonisas antecipadas…

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LIÇÕES DE ANTANHO

Em Paris, o   Barão d’Olbach, um dos pais do iluminismo  e do  enciclopedismo que tanto abriram a cabeça da Humanidade, escreveu certa vez que “se recuarmos ao começo, veremos que a ignorância e o medo criaram os deuses, que a imaginação, o entusiasmo e o embuste os  desfigurou, que a fraqueza os venera, que a credulidade os preserva, que o costume os respeita e que  a tirania os apóia, a fim de fazer com  que a cegueira dos homens atenda aos seus interesses”.

Mais de trezentos anos depois, fica difícil resistir à tentação de aplicar a lição do mestre à nossa realidade política. Ou a cegueira dos homens não faz a tirania  apoiar líderes  que a maioria  venera como se fossem deuses?

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