Barcelona não é invencível: no futebol o time do sonho não existe

Pedro do Coutto

Escrevi este texto, e a partir deste título, com base em artigo que o repórter Rodrigo Bueno publicou na Folha de São Paulo de quinta-feira 22, sobre o Barcelona. Claro que é uma das maiores equipes da história do futebol, pelo menos das que vi atuar e vejo jogos desde 41, decisão histórica do Fla-Flu da Lagoa.

O Flamengo precisava da vitória, o jogo, num final dramático, acabou dois a dois. Saimos campeões cariocas. Portanto com base em experiências acumuladas, admiro muito o Barcelona, seu toque de bola, sua velocidade, sua capacidade de chegar rapidamente à área adversária. Tudo isso está perfeito, é verdade. Mas não é invencível. Isso não existe no futebol, um dos raros esportes em que o adversário interfere na atuação do outro.

Rodrigo Bruno tampouco disse que o Barça seja imbatível. Porém esse mito anda se espalhando por aí. Pelos cafés e pelas esquinas, como dizia Nelson Rodrigues, cujo centenário de nascimento ocorre no ano que vai começar.O Barcelona não é imbatível, simplesmente porque a equipe do sonho, mágica, ideal, não existe.

Em 1950, no Maracanã, derrotamos a Espanha por seis a um, com o estádio Mário Filho lotado cantando as Touradas de Madrid, de Braguinha, quando Zizinho fez o quinto gol. Vencemos na sequência a Suécia por 7 a 2. O carnaval no centro do Rio começou no sábado, 15 de julho. No dia seguinte, domingo, final da ópera, o Uruguai nos bateu por 2 a 1. Foi o primeiro esquema tático 4-3-3 da história.

Passados quatro anos, surgiu o escrete húngaro de Puskas e Hideguti. Fez exibições fantásticas de bola. Emocionou o mundo com sua arte e eliminou o Brasil por 4 a 2. Na fase de classificação, por coincidência, derrotou a Alemanha de Fritz Walter por 6 a 2. A final foi entre estas duas seleções. Alemanha 3 a 2, todos os 3 gols de Fritz Walter.

O Brasil foi campeão em 58 e 62. Em 66, o time alemão era franco favorito. Perdeu para a Inglaterra na final, com um gol esquisito no tempo normal que levou o título para a prorrogação. Em 70, a Seleção de Ouro de Pelé, Tostão, Gerson, Carlos Alberto, Rivelino, reinou absoluta.

Em 74, despontou nos gramados da Copa a seleção da Holanda, liderada por Cruyff. Deslumbrou o mundo. Todos atacavam, todos defendiam. Ocupavam os espaços do jogo. Exceto as laterais. Foi por ali que a Alemanha de Beckenbauer encontrou em Berlim o caminho da vitória: 2 a 1.

Em 78, mas sem Cruyf, a laranja mecânica continuava deslumbrante. Botou uma bola na trave da Argentina no último minuto do tempo normal. Na prorrogação, perdeu mais uma vez a Copa.

Apareceu a Seleção do Brasil de 82, toque de bola espetacular, mas sem cobertura nas ações defensivas. A exemplo de 50, perdemos a semifinal para a Itália após uma sucessão de erros primários. A Espanha, também em 82, era considerada a fúria. Sequer se classificou jogando em seu próprio país.

Real Madrid, de Di Stefano, Milan de Ronaldo e Ronaldinho, tantas equipes brilhantes se sucederam e vão se suceder. O Santos de Pelé e Coutinho, também de Zito, talvez o maior tático do futebol. O homem que defendia e atacava, e tinha um senso quase perfeito, porque a perfeição, seja em que setor da atividade humana, ainda está para aparecer.

Os atletas e as equipes passam e encantam gerações, como foi o caso do Santos, como o Boca Júnior de Labruna, Lostau e Nestor Rossi. Como foi a Seleção do Brasil em 58, 62, 70, 94 e 2002. Pentacampeão. Vamos fazer uma ressalva à conquista de 94. Foi sofrida demais e não teve a beleza das demais jornadas heroicas.

Mas, como vêm, os sonhos se vão. Surgem outros. O Barcelona está na vez. Uma beleza vê-lo jogar. Mas nem por isso é invencível. Invencibilidade, como a perfeição, é algo que só existe no plano da fantasia. Não no gramado.

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