Beberam a água de Sarkozy

Sebastião Nery

André Malraux, glória da França, veio ao Brasil como ministro da Cultura do presidente De Gaulle. Foi recebido por Juscelino presidente, em Brasília, que chamou de “Capital da Esperança”, e de volta, no Rio, fez conferência na Associação Brasileira de Imprensa.

Na mesa, Oscar Niemeyer, Austregésilo de Athayde, da Academia Brasileira de Letras, Danton Jobim, Prudente de Morais, neto. O auditório quente, abafado, enfumaçado, lotado de políticos, jornalistas, escritores.

A noite espichava e Malraux, suado, avermelhado, com seu francês rápido e côncavo, contava aventuras e lutas, a libertação da China, a resistência da Espanha, o “maquis” da França, as esperanças do homem.

***
MALRAUX

Diante de Malraux, intocado, um copo dágua. Lá de trás, levanta-se um senhor alto, moreno, cabelos grisalhos, terno branco, gravata vermelha e sai andando em direção à mesa. Ploc, ploc, olhar firme, erecto. Como um general. Malraux pára, fica olhando. O auditório não entende, sussurra. E o homem vai em frente, passos fortes, cabeça levantada.

Chega perto da mesa, estira o braço, pega o copo dágua do conferencista, bebe gole a gole, põe o copo no lugar, volta, ploc, ploc, senta-se. Malraux apenas sorriu e continuou. Era o deputado federal Fernando Santana, comunista do PTB da Bahia, que na véspera tinha sido eleito, pelos jornalistas de Brasília, o melhor parlamentar do ano.

Na saída, os amigos escandalizados:

– Mas, Fernando você bebeu a água do orador?

– Água é para quem tem sede. Água não tem propriedade privada.

***
FRANÇA

Desde 2008 os franceses estão bebendo a água de Sarkozy. Eles não esperaram nem um ano para cobrarem do presidente eleito em maio de 2007 as promessas feitas e não cumpridas, sobretudo o aumento do emprego, salários e poder de compra. Pelo contrário, vêm caindo a cada dia.
Logo depois da eleição, ele chegou a ter a esperança e a confiança de 70% da população. Hoje, está em queda livre.

Todas as bandeiras que a direita francesa imaginou e prometeu devastadoramente vitoriosas já desceram do mastro e Sarkozy não sabe o que fazer, nem sequer o que dizer.

***
DISTRITAL

As eleições municipais francesas têm uma importância bem maior do que no Brasil porque lá, como o sistema é parlamentarista, a disputa é distrital e majoritária, e os principais líderes, deputados, senadores, são candidatos à chefia do Conselho (prefeitura) de sua cidade, que acumulam.

A partir daí, nas eleições gerais legislativas (de quatro em quatro anos), eles saem também candidatos à Assembléia Nacional ou ao Senado. Derrotado na sua cidade nas eleições municipais, dificilmente um candidato se elegerá depois para a Assembléia Nacional, porque a eleição parlamentar também é distrital. E isso faz a diferença.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *