Beberam a gua de Sarkozy

Sebastio Nery

Andr Malraux, glria da Frana, veio ao Brasil como ministro da Cultura do presidente De Gaulle. Foi recebido por Juscelino presidente, em Braslia, que chamou de “Capital da Esperana”, e de volta, no Rio, fez conferncia na Associao Brasileira de Imprensa.

Na mesa, Oscar Niemeyer, Austregsilo de Athayde, da Academia Brasileira de Letras, Danton Jobim, Prudente de Morais, neto. O auditrio quente, abafado, enfumaado, lotado de polticos, jornalistas, escritores.

A noite espichava e Malraux, suado, avermelhado, com seu francs rpido e cncavo, contava aventuras e lutas, a libertao da China, a resistncia da Espanha, o “maquis” da Frana, as esperanas do homem.

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MALRAUX

Diante de Malraux, intocado, um copo dgua. L de trs, levanta-se um senhor alto, moreno, cabelos grisalhos, terno branco, gravata vermelha e sai andando em direo mesa. Ploc, ploc, olhar firme, erecto. Como um general. Malraux pra, fica olhando. O auditrio no entende, sussurra. E o homem vai em frente, passos fortes, cabea levantada.

Chega perto da mesa, estira o brao, pega o copo dgua do conferencista, bebe gole a gole, pe o copo no lugar, volta, ploc, ploc, senta-se. Malraux apenas sorriu e continuou. Era o deputado federal Fernando Santana, comunista do PTB da Bahia, que na vspera tinha sido eleito, pelos jornalistas de Braslia, o melhor parlamentar do ano.

Na sada, os amigos escandalizados:

– Mas, Fernando voc bebeu a gua do orador?

– gua para quem tem sede. gua no tem propriedade privada.

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FRANA

Desde2008 os franceses esto bebendo a gua de Sarkozy. Eles no esperaram nem um ano para cobrarem do presidente eleito em maio de 2007 as promessas feitas e no cumpridas, sobretudo o aumento do emprego, salrios e poder de compra. Pelo contrrio, vm caindo a cada dia.
Logo depois da eleio, ele chegou a ter a esperana e a confiana de 70% da populao. Hoje, est em queda livre.

Todas as bandeiras que a direita francesa imaginou e prometeu devastadoramente vitoriosas j desceram do mastro e Sarkozy no sabe o que fazer, nem sequer o que dizer.

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DISTRITAL

As eleies municipais francesas tm uma importncia bem maior do que no Brasil porque l, como o sistema parlamentarista, a disputa distrital e majoritria, e os principais lderes, deputados, senadores, so candidatos chefia do Conselho (prefeitura) de sua cidade, que acumulam.

A partir da, nas eleies gerais legislativas (de quatro em quatro anos), eles saem tambm candidatos Assemblia Nacional ou ao Senado. Derrotado na sua cidade nas eleies municipais, dificilmente um candidato se eleger depois para a Assemblia Nacional, porque a eleio parlamentar tambm distrital. E isso faz a diferena.

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