Bebida alcoólica em estádios da Copa: o compromisso, os patrocínios e a ameaça à ordem pública

Milton Corrêa da Costa

Uma Copa do Mundo, assistida ao vivo hoje por bilhões de espectadores no planeta, gera importantes divisas para todos os segmentos envolvidos, além do legado, inclusive no setor turístico, para o país sede (vejam o exemplo da áfrica do Sul), que precisa preparar-se adequadamente em obras de infraestrutura, transportes, telecomunicações, aeroportos, rodovias em bom estado, rede hoteleira suficiente e de bom nível, medidas preventivas e repressivas de segurança pública, inclusive de defesa antiterrorismo.

É oportunidade para reaparelhamento das forças de segurança estaduais, da Polícia Federal e das próprias Forças Armadas, sem falar na geração de milhares de empregos pré-evento, para que se possa assim cumprir a contento o estabelecido no caderno de obrigações firmado com a entidade máxima do futebol, a Fifa.

Enfim, o mundo estará de olho voltado, entre12 de junho e 13 de julho de 2014, para o Brasil. “Teremos a chance – disse a presidente Dilma Rousseff – de realizar a melhor Copa do Mundo e a melhor Olimpíada, porque a realidade do país está mudando”.

Ocorre, no entanto, que o Brasil, numa complexa sinuca de bico, entre um país soberano, o protocolo firmado com a Fifa, a competência concorrente para legislar entre a União e os Estados-Membros e a ameaça à ordem pública, terá que decidir, o quanto antes, sobre a permissão ou não da venda de bebidas alcoólicas nos estádios onde serão realizados jogos da Copa. O acordo firmado pelo Brasil com a Fifa prevê a venda nos estádios, porém ela é proibida hoje em sete dos estados da federação onde os jogos serão realizados.

Para se ter uma ideia da importância da medida de proibição, basta observar a queda substancial nos registros de ocorrência e flagrantes delito na circunscrição da área de jurisdição da 18ª Delegacia Policial e na própria sede do Juizado de Instrução montado no Estádio do Maracanã, relativamente a conflitos entre torcedores.

É só analisar e comparar o antes e depois, tomando por base os números registrados e um determinado período de observação, para deixar comprovado, mis uma vez, que o uso excessivo de álcool é inegavelmente fonte geradora de incentivo à violência e causa permanente de tragédias, dentro e fora do mundo do futebol. Vejam a violência familiar, os trágicos acidentes de trânsito, os homicídios e lesões corporais causados pelo uso imoderado de bebida alcoólica, cuja propaganda midiática bombardeia, a todo instante, e influencia os mais jovens apresentando-o como uma ‘fonte irresistível de prazer’.

Nesse jogo de interesses, tem-se notícia de que a Budweiser, patrocinadora da Fifa, perderá pouco, em vendas, se proibirem cerveja nos estádios. Neles, comenta o jornalista Ancelmo Gois, telões exibem jogos, com muita música, suor e…. cerveja. A nota informa ainda que na Copa de 2006, na Alemanha, estima-se que cerca de 18 milhões de pessoas tenham passado pelos Fan Fest em 12 cidades daquele país. Quantos festivais da cerveja poderíamos promover, pois,durante a Copa, num país muito mais populoso como no caso o Brasil?

Aí está mais um argumento de que possam se valer parlamentares e autoridades contrários à autorização de venda de bebidas alcoólicas nos estádios. Por mais que as torcidas de jogos de Copa do Mundo sejam diferentes de violentas torcidas organizadas domésticas, até mesmo no poder aquisitivo e diferenças culturais, o uso de bebida alcoólica em campos de futebol é uma evidente ameaça à ordem pública e à paz social.

Evitar o uso do álcool em estádios de futebol e em suas cercanias será tarefa difícil e hercúlea – não impossível – para os que se posicionam contra a discutível permissividade da Fifa. Que se posicionem também as organizações não-governamentais de combate ao uso de drogas em todo o país e no mundo. Está em jogo uma intrigada questão que envolve segurança pública, soberania nacional, patrocínio do evento, compromisso com a Fifa e, acima de tudo, bom senso.

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