Béja explica ao UOL o habeas para Cabral: “Detesto o pecado, não o pecador”

Advogado Jorge Béja recorreu à Justiça por liberdade de Cabral, preso pela PF

Béja foi fotografado de surpresa para o site UOL

Vinicius Konchinski
Do UOL, no Rio

O advogado Jorge Béja diz que detesta o pecado, mas não o pecador. Por causa disso, decidiu pedir à Justiça a liberdade do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) sem que o político preso suspeito de comandar um esquema de corrupção envolvendo obras públicas o contratasse para isso — o pedido já foi negado pelo Tribunal Regional Federal.

Béja pediu o habeas corpus no último dia 21, por iniciativa própria. Repetiu a atitude que se acostumou a tomar em 45 anos de profissão. Nesse período, ele defendeu voluntariamente famílias de detentos mortos em presídios, de vítimas da chacina da Candelária (1993) e do naufrágio do Bateau Mouche (1988).

QUESTIONOU CABRAL – Procurado pelo UOL, Béja escreveu seis e-mails para explicar sua iniciativa e sua relação com Sérgio Cabral. Disse que o conheceu quando o ex-governador ainda era presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio) — Cabral ocupou o cargo entre 1995 e 2002. Afirmou que anos atrás chegou a indagar Cabral sobre as suspeitas de corrupção em seu governo e que o político negou os malfeitos.

Mesmo assim, Béja não questiona a investigação da Polícia Federal e do Ministério Público sobre Cabral. Para ele, entretanto, o governador não deveria ter sido preso, pois ainda não fora condenado. “Prenderam primeiro para investigar depois”, escreveu em uma das mensagens.

O UOL procurou a defesa do ex-governador por e-mail e telefone, duas vezes, para comentar a atitude do advogado e as suspeitas sobre o político, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

TRECHOS DE BÉJA  – Leia abaixo trechos das mensagens enviadas por Béja, que nega manter qualquer relação com Cabral:

“Tenho 70 anos de idade, dos quais 45 dedicados à advocacia. Sempre advoguei para vítimas de tragédias, de acidentes, de erros médicos. Fiz 33 ações contra o Estado do Rio pedindo indenização às famílias de detentos mortos nos presídios. Trabalhei de graça e por um ideal. Defendi vítimas da chacina da Candelária, [da queda] do edifício Palace II, [do naufrágio] do Bateau Mouche, da queda do Elevado Paulo de Frontin…

Conheci Cabral quando ele era presidente na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio). Fui até ele levar, já pronto e redigido, dois projetos de lei de minha iniciativa. Um, para dar prioridade à tramitação na Justiça os processos das pessoas idosas. Outro, para aumentar o prazo para a abertura de inventário sem pagamento de multa.

Meses depois, Cabral me ligou para me convidar para almoçar. Indiquei o restaurante XIV Bis, no aeroporto Santos Dumont, que já conhecia. Sempre que ia lá tocava no piano de cauda próximo às mesas. Lá nos encontramos. Depois do almoço, toquei duas peças de Mozart e o “Clair de Lune”, de Débussy. Terminado o almoço, cada um foi para seu lado. Nunca mais vi ou falei com Cabral.

Ele depois foi senador. Sempre votei nele. Quando o morro do Alemão foi tomado, passei mensagem e-mail para ele, felicitando. Naquela ocasião chamei Cabral de herói e bem-aventurado, numa alusão ao Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pacificadores porque deles é o reino dos céus”.

Anos depois, quando surgiram as notícias de corrupção, mandei enérgico e duro e-mail para ele, indagando a respeito. Ele respondeu, me chamou de “prezado mestre Dr. Béja” e negou tudo. Isso me tranquilizou.

Agora, quando ele foi preso, me senti abalado. E 48 horas depois da prisão dei entrada no TRF (Tribunal Regional Federal) com o habeas corpus para libertá-lo. Fiz isso por conta própria. Ninguém me pediu. Qualquer cidadão pode impetrar habeas corpus para si ou para outrem.

Na peça não rebati as acusações da Polícia Federal e do Ministério Público, mesmo porque não era advogado de Cabral. Indaguei à Justiça sobre para que servia a prisão preventiva de Cabral, uma vez que todas as diligências referentes às medidas cautelares de arresto, sequestro e bloqueio de bens móveis e imóveis pertencentes a ele e sua mulher já estavam cumpridas.

Argumentei que Cabral, em 24 horas, foi despojado da disponibilidade de todos os seus bens. Que ele não estava indiciado em inquérito policial, nem era réu em ação penal. Que tinha endereço certo e folha penal limpa. Que a prisão preventiva violava o princípio da inocência. Que sua reclusão ao cárcere era a imposição de uma pena de um processo inexistente. Que ele nem foi ouvido. Que prenderam primeiro para investigar depois. Que um condenado só é recolhido à prisão após o trânsito em julgado da condenação.

Ou seja, o habeas corpus abordou apenas questões processuais. O desembargador federal Abel Gomes indeferiu o pedido. Considerou que eu tinha feito considerações abstratas. Eu não quis insistir com recurso. Me senti sozinho. E mal interpretado por pedir a libertação de um ex-governador acusado de corrupção.

Esperava que todas as acusações contra o Cabral não fossem verdadeiras, porque iria sofrer muito mais do que sofri ao ver Cabral posto à execração pública. Detesto o pecado, mas não o pecador.

Faz perto de cinco anos que não vou mais ao meu escritório. Vivo só com minha esposa (somos casados há 45 anos). E assim repito a passagem do El Cid, de Corneille: “Je demeure immobile avec mon âme abattue. Ou seja, permaneço imóvel, com minha alma abatida.”

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG (1)
 – Como se vê. Dr. Béja foi mais um dos milhões de brasileiros que se iludiram com Serginho Cabral. Eu também fui um deles. Ajudei muito no início da carreira dele, levei-o ao “Sem Censura”, abri espaço para ele na mídia. No lançamento de sua primeira candidatura, a deputado estadual, eu estava lá, na mesa principal da Churrascaria Copacabana, junto ao pai e à mãe, Sérgio Cabral e Magali, ao sogro Gastão Neves, ao senador Artur da Távola e ao deputado Francisco Dornelles, a mesa era pequena. Ele se elegeu, no início era tão cioso que recusou o carro oficial, dirigia um modesto Voyage, a gente se orgulhava dele, eu então o levei para participar do programa “Bate Boca”, na TV Manchete, junto com Eduardo Mascarenhas (era deputado), Garotinho (ex-prefeito de Campos), Lindbergh Farias (presidente da UNE) e mais uma porção de debatedores. Depois, Cabral mostrou que era um farsante, agora espero que nunca mais saia da cadeia.

NOTA DA REDAÇÃO (2)Quanto à matéria do UOL, está incompleta. O repórter não menciona outros importantes habeas corpus impetrados por Béja. Eu conheço, pelo menos, três deles. O primeiro, em 1980, para que o cacique Juruna pudesse viajar à Holanda e participar do Tribunal Bertrand Russel. Juruna foi impedido pelo governo brasileiro de viajar. O HC foi aprovado pelo antigo Tribunal Federal de Recursos por 33 a 0. E Juruna viajou.  O segundo foi para a paciente Dilma Fernandes, em 1990, Béja leu nos jornais que ela fora internada no Souza Aguiar e os ratos da enfermaria estavam comendo sua perna. Dilma estava com paralisia cerebral e engessada dos pés até a cintura. Com o emagrecimento, suas pernas ficaram fininhas. O gesso ficou largo e permitiu que os ratos comessem suas carnes das pernas. O HC foi concedido. Béja foi com a polícia no HSA. Dilma foi removida. A enfermaria fechada. E o juiz determinou a abertura de inquérito policial contra o diretor do HSA.  O terceiro habeas foi em 1992. Sob pressão dos chineses, o Brasil negou visto de entrada do 14º Dalai Lama, Tenzin Guiatzu e sua comitiva para participar da Eco 92. Também, por conta própria e sozinho, Béja foi a Brasilia e deu entrada num HC para o Dalai Lama e sua comitiva viajarem ao Brasil. O STJ proveu o recurso e o líder tibetano veio ao Rio. Convidou Béja e a esposa Clarinda para serem recebidos no Sumaré, onde Dom Eugênio Sales hospedou o Dalai Lama. O advogado Jorge Béja é realmente uma personalidade fascinante. (C.N.)

50 thoughts on “Béja explica ao UOL o habeas para Cabral: “Detesto o pecado, não o pecador”

  1. Ensinou o mestre Jesus Cristo para sermos seletivos em nossa caridade:

    “Não deis aos cães as coisas santas, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”

  2. O Dr. Béja tem uma enorme alma humana e cidadã. Se eu fosse alguém para aconselhá-lo , diria para que ele não entrasse em assuntos políticos, área muito suja. Deveria ficar somente com a sua advocacia humanitária/cidadã e com a música, onde as ” notas ” não engrendram traições..

  3. O Dr. Jorge Béja, por toda a sua trajetória, demonstra ser um ser humano bom e admirável, quanto a isso, ninguém tem dúvidas.
    Quanto ao Sérgio Cabral, que em seu governo com a política de benefícios as empresas, gastanças, empreguismo e graves denúncias de corrupção, deixou o Rio de Janeiro na situação que se encontra hoje.
    Eu tenho pena do desespero dos servidores e suas famílias, que não sabem o que pode acontecer amanhã. Além de receberem os pagamentos em atraso, com desconto, vê o aliado do Cabral querer aprovar um pacote de maldades, para que os servidores paguem pelo rombo que deram no Estado. O futuro dos servidores do Estado é incerto, e nada é pior para um ser humano, do que viver nessa agonia. ..

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  4. Entendo e aprovo a postura humanitária e acredito que iniciativas desse quilate deveriam ser promovidas mais amiúde, considerando haver milhares de presos em nosso sistema carcerário que assim se encontram sem o desfecho de um processo legal. O que me surpreende é a quem se dirigiu tal iniciativa, ou seja, a um ladravaz contumaz cujas práticas criminosas tanto mal, direta ou indiretamente, fez, vem fazendo e ainda por um bom tempo vai fazer a uma imensa e sofrida população do RJ. Sem contar que com o tratamento diferenciado em que a lei e seus rigores sabidamente não é igual para todos, certamente, logo ele estará livre, leve e solto para usufruir de sua imensa fortuna conseguida da forma como o conseguiu.

  5. Há tempo queria ver uma foto do dr. Béja e aí está uma. Eu o imaginava um homem forte, morenão carioca. Olhem como sou ruim de imaginação. A bondade de seu coração, entretanto, não precisa ser imaginada.Já tivemos mostras dela muitas vezes. Agora, só falta uma foto daquela senhora que o acompanha e, por certo, lhe dá ainda mais alento para essas atitudes corajosas e humanas.
    Um abraço, lindo senhor de lisos cabelos grisalhos.

  6. O cidadão Çelso de Mello deu liberdade a um assino comprovado e condenado, porque o cidadão só pode ser preso quando esgotados todos os recursos, inclusive ao STF, famoso pela sua absurda ineficência – quase inutilide. O povo que ficou exposto a um criminoso, pela atitude incompreensível do decano, não foi levado em conta. É o interesse da sociedade que deve ser levado em conta quando há dúvida sobre a lei – não aquele que cometeu o crime. Decide-se pró reu quando se tem dúvida sobre a culpa dele.
    Cabral foi moleque, corrupto sem vergonha, safado. Desgraçou a vida de muita gente.
    Nestes termos, discordo do senhor Beja sem pestanejar. Cadeia no canalha do pecador. Já!

  7. Tanto li sobre Fidel Castro ter sido um homem de convicções, que seguiu as suas ideias, porém um ditador sanguinário, que se precisamos de exemplo sobre uma pessoa que segue com absoluta determinação seus pensamentos e conceitos, este se chama Dr.Jorge Béja!

    Profissional reconhecido nacional e internacionalmente pela sua capacidade e conhecimento, reage quando detecta uma prisão que, na sua ótica, não preenche os requisitos exigidos na sua totalidade.

    Se entendeu que a prisão de Cabral não foi correta, o nosso eminente advogado abandona o seu descanso, justa e merecida aposentadoria, e parte para retomar a profissão ao perceber que ela se faz necessária pela sua competência e experiência profissionais.

    Tal reação demonstra o caráter desse advogado, que se soma à sua cidadania e disposição de impedir que as injustiças tenham precedência sobre a liberdade e direitos civis, mesmo que a população quisesse ver o preso na cadeia sem qualquer direito e merecidamente.

    O dr.Béja age conforme a engrenagem de um motor, que não adiantam dimensões maiores ou menores, precisa ser exata ou não funciona o propulsor.

    Desta forma, cabe-me apenas elogiar esta conduta pessoal e profissional pela sua clareza, sem concessões, puramente de acordo com a lei, com os meios que ela possibilita de se deixar detido ou livre o acusado.

    Desta forma, sem matar, sem prender, sem impedir o direito de ir e vir, sem condenar o povo ao sofrimento, o nosso articulista e comentarista, dr.Béja, demonstra cabalmente o significado de um homem e suas convicções, por mais que alguns o critiquem e não entendam as suas posições com relação ao Direito, que obedece à risca!

        • Que decepção!

          Ruy e o tal ou a tal de maritaca barata(só podia), no lugar de criticarem quem merece, quem precisa ver a reação do povo pelos roubos que praticaram, apontam suas metralhadoras para um homem decente, honrado, que sempre fez o bem!

          E ousam querer tomar-lhe satisfações pela conduta, atitude bizarra, insana, verdadeiramente ridícula!

          Por favor, usem desta disposição para escrever contra a corrupção, a desonestidade, mas não contra alguém que representa o ser humano absolutamente cônscio de seus deveres e responsabilidades, uma pessoa de exceção, pois estão agindo excepcionalmente errados desta forma, e ocasionando reações de comentaristas que se sentem perplexos com esta maneira como tratam este cidadão exemplar!

          • Caro senhor Francisco, o Cabral tem o bastante para contratar um bom advogado e certamente não precisa dos serviços gratuitos e humanitários do Sr. Beja.
            Por que o Cabral mereceu os préstimos do senhor Beja e não os pobres funcionários que estão comendo o pão que o serginho amassou? É este o motivo do repúdio de alguns leitores ‘a atitude filantrópica do senhor Beja.
            “Something is rotten in the state of Denmark”, não acha?

      • Ruy,

        Se antes de me criticares pelo que escrevi, tivesses lido o artigo anterior do dr.Béja, observarias que ele foi categórico ao afirmar que Cabral “estava nu”, ou seja, completamente à mercê da Justiça, inclusive com bens indisponíveis.

        Conforme seus conhecimentos, uma pessoa nesta situação não precisa ser presa, enquanto o processo se desenrola até o julgamento em Primeiro Grau, imagino.

        Quanto aos milhares de presos injustamente, esta tua afirmação carece de lógica, de bom senso, haja vista existir a Defensoria Pública, que se encarrega dessas situações consideradas irregulares, basta que os familiares dos presos acionem esta sessão do Judiciário.

        E continuo afirmando que o dr.Béja é um ser humano extraordinário, incomum, tanto pelas ações de grande impacto social e jurídico que patrocinou, quanto pelo que representa na condição de cidadão e ser humano!

        Saúde.

      • Ruy fico triste com esta injustiça com o Dr. Béja. Os milhares de presidiários contam com defensores públicos! E o Dr. Béja não é nenhum mercenário que só advoga por dinheiro. Já lemos casos aqui na TI de verdadeira abnegação dele. Por favor, a cabeça está acima do coração, fisicamente, é pra gente pensar, antes de falar bobagens que ofende.

  8. Cada um defende o que acredita. Dr. Béja faz o que acredita. Admiro quem faz aquilo que acredita mesmo que contrarie muita gente. Ele que entende das amarras da Lei é queu tem critério pra dizer se é certo ou errado prender seja lá quem for. Se este quem for teve o fortúnio de ter um advogado influente, sorte deste seja lá quem for. Este mesmo princípio usei aqui algum tempo atrás pra defender a ação agressiva dos advogados dos acusados na lava jato e fui praticamente incendiado aqui.

  9. Meu respeito pelo Dr. Béja é tão grande que mesmo quando ele toma atitudes para mim equivocadas , isso não diminui de maneira nenhuma minha admiração e respeito pelo grande advogado!

  10. Também eu acho que ninguém poderia ser preso primeiro, condenado e depois julgado. Fiquei do lado do Cabral, porque achei que tudo foi feito do lado avesso. Vejo um requinte de perseguição e vingança também.

  11. Amo o pecador, mas odeio o pecado (Santo Agostinho, Patrologia Latina, 1845, vol. 33.).

    Qualquer réu para ser condenado precisa de defesa. Sem defesa a pena é nula. Tudo que se tem divulgado sobre Cabral e sua esposa é pavoroso. O juiz federal do Rio, dr. Brêtas, na decisão que prendeu Cabral e determinou outras medidas preventivas, citou o Eclesiastes e fez um afirmação que mexeu comigo. Disse que os indícios indicavam que o ex-governador cometeu o pior dos delitos, que é o de “infidelidade eleitoral”. Em outras palavras: que traiu a confiança do eleitor.

    Mesmo assim tem ele o direito de defesa. Porque sem defesa qualquer condenação que sobrevier é condenação nula.

  12. Estou boba com com comentários negativos referentes ao Dr. Béja. A gente faz comentários quando tem conhecimento do autor e da causa. Mas, enfim! Se Jesus Cristo foi perseguido, apedrejado, crucificado e se voltasse fariam tudo novamente, quem somos nós nesta altura do campeonato. Dr. Béja também deve pensar assim: Se J Cristo foi condenado…..

  13. De tudo isso extrai-se uma coisa boa. Ao que parece, o Dr. Béja está arrependido dessa defesa em prol do Cabral.

    São palavras do nobre advogado: “Eu não quis insistir com recurso. Me senti sozinho. E mal interpretado por pedir a libertação de um ex-governador acusado de corrupção.”

    Dr. Béja, com todo o respeito que lhe devo – acho que a sociedade também lhe é devedora: não se avoque em defensor do Cabral. Ele tem todo o dinheiro necessário para defender-se do que lhe for lançado de justo e de injusto.

    E se defenderá, em última análise, com o nosso dinheiro. Esse mesmo dinheiro que falta ao Estado do Rio de Janeiro, agora sob a batuta do discípulo dele, que foi, durante todo esse período, Secretário de Obras – sem ilações precipitadas.

    Não sei se sou pouco ingênuo ou por demais malicioso, mas lhe digo: há certo tipo de pessoas que não têm o poder de me enganar. Lula e Cabral são exemplos desse tipo.

    Nunca seriam capazes de me decepcionar, porque nunca acreditei neles.

    Lula, para dizer o mínimo, foi forjado nos alçapões da ditadura militar, para combater o Brizola, temidíssimo pelos próceres da ditadura. A única maneira que o sistema possuía era apresentar alguém tão popular quanto o gaúcho, mas que falasse mais de perto, que fosse – sejamos francos – mais parecido com o povão.

    Não bastava vestir os ideais do povo; era necessário ter a cara do povo.

    Lula tinha essa “cara”: era metalúrgico, Brizola era engenheiro. Lula falava um português sem concordâncias, Brizola se expressava corretamente. Lula propunha ações rasteiras e imediatas, Brizola comia pelas beiradas, procurava agir nas causas, não nas consequências.

    Para o povão, era mais fácil entender o Lula. E o governo militar enxergou isso tudo e muito mais. Assim, fabricou O Adversário de Brizola. E o plano deu certo. Num primeiro momento, em 1989, nem Lula, nem Brizola: deu Collor.

    Mas era ele mesmo o indicado pelo sistema. Se tivesse ido ao segundo turno com Brizola, Collor teria sido “jantado”. Esse era o receio, para não dizer o pavor, do establishment.

    Verdade se diga, para que não nos estendamos mais sobre o Lula, que ele, quando presidente, não só roubou. Algumas realizações foram proveitosas para o país.

    Mas, aqui, o foco é o Cabral.

    Este filho de um homem decente – até onde sabemos, Cabral pai deve estar morrendo de vergonha, agora que parte da verdade veio a público (e virá muito mais) -, este Cabralzinho, no entanto, se apegou ao vil metal desde sempre.

    Passou uma infância decente, mas sem riqueza, morando no subúrbio, mas querendo ser elite. Como se diz, quando comeu mel, lambuzou-se todo (Paris, mansões, lanchas, carrões, guardanapos na cabeça, joias, champagnes etc. etc.).

    Lembro-me (muitos se esqueceram ou nunca souberam) de um projeto de lei de autoria do deputado estadual Sérgio Cabral que proporcionava redução no preço dos remédios adquiridos nas farmácias ou drogarias para as pessoas da terceira idade. O projeto virou lei. Ele se acertou com essa fatia do eleitorado. Os velhinhos sempre adoraram o Cabralzinho – tão doce, tão meigo, tão atencioso, tão com cara de “filhinho” ou “netinho”.

    Mas, é claro, como poderiam as farmácias, sem nenhum subsídio governamental, bancar essa redução repentina de preços finais? Por que deveria recair sobre os ombros desses comerciantes o custo desse “presente” do Cabral?

    Em questão de dias, liminares foram concedidas a favor dos empresários, como era de se esperar. E nunca mais se falou nisso.

    Cabral apareceu bem na fita, na base do “fiz o que pude, mas a Justiça não permitiu, que absurdo!”.

    Ora, um parlamentar que tenha um mínimo de noção de economia, que tenha, pelo menos, uma assessoria regular, jamais proporia um projeto de lei dessa natureza, flagrantemente inconstitucional.

    Então, sem falar de roubos e roubos, já era de se antever que Cabral, no mínimo, era intelectualmente desonesto.

    Esse, talvez, tenha sido um dos atos menos graves que ele praticou ao longo da sua vida política, que agora é de se esperar que se encerre, de vez.

    Resumindo, Dr. Béja, por favor, em nome da sociedade que tanto o admira, não desperdice pólvora com esse Cabral – ou, sendo um pouco mais trágico, “não desperdice bala boa com defunto”. Causas grandiosas estão por vir. O Brasil precisa de sua sede de justiça. Estamos em profundas trevas. Sem bússola. Sem comandante, sem mapas, sem orientação. Precisamos de patriotas como o senhor.

    E não precisamos de indivíduos como Sérgio Cabral soltos por aí.

  14. Dr. Béja, o senhor é um humanista cristão da estirpe de um Teillard de Chardin ou de um Jaques Maritain, um Alceu Amoroso Lima. Não ligue para essas críticas maldosas de gente envenenada pelo ódio. Um dos princípios basilares da nossa República Federativa do Brasil é a dignidade da pessoa humana, e é esta que o senhor está defendendo, independentemente de quem seja o réu. Quando reclamei tratamento digno ao Garotinho também fui execrado. Infelizmente, estamos já no curso de um caminho institucional rumo já a um Estado de Exceção causado por um Judiciário e um Ministério Público irremediavelmente politizados e hipertrofiados, enquanto o direito de defesa se encontra amesquinhado, aviltado e vilipendiado. Quem defende as garantias constitucionais do devido processo legal e da ampla defesa, é taxado de defensor da corrupção. Até que em relação ao Cabral sou a favor da sua prisão, devido ao risco de fuga do país e de vir a coagir testemunhas que possam incriminá-lo. Peço a sua atenção para o link que envio abaixo para reflexão do senhor sobre o momento grave de exaltação persecutória que atravessa o país, em que os juízes se transformaram em promotores.
    Forte abraço do Alverga.

    http://www.diariodocentrodomundo.com.br/quem-vai-pagar-pela-destruicao-da-vida-de-mateus-preso-na-lava-jato-e-absolvido-por-falta-de-provas-por-kiko-nogueira/

  15. Como tem gente que cuida da vida dos outros! O Dr. Beja fez porque quis e com os seus recursos. Deus de uma vida a cada um, para que cada um cuide da sua.
    Quanto ao Cabral pai , ouvi dizer que ele está com Alzheimer e não tem nem noção do que está ocorrendo.
    Aliás eu prefiro o Alzheimer ao Parkinson, pois é melhor esquecer de pagar a conta do bar do que derrubar o copo.
    Depois falam em livre arbítrio.

  16. “Primeiro levaram os negros, Mas não me importei com isso.
    Eu não era negro.

    Em seguida levaram alguns operários,Mas não me importei com isso
    Eu também não era operário.

    Depois prenderam os miseráveis, Mas não me importei com isso
    Porque eu não sou miserável.

    Depois agarraram uns desempregados, Mas como tenho meu emprego
    Também não me importei.

    Agora estão me levando, Mas já é tarde.
    Como eu não me importei com ninguém,
    Ninguém se importa comigo.”

    Bertold Brecht (1898-1956)

  17. Respeito a iniciativa do Impetrante que exerceu na plenitude um direito subjetivo. Todavia não está imune à crítica e digo Eu que a iniciativa diante da figura tóxica de Sérgio Cabral, diríamos que foi um tremendo de um “mau passo “!

    • O pai não foi nomeado pelo filho. Primeiro o pai – figura ímpar, que deve estar envergonhado não é de hoje – foi eleito ver(m)eador.

      O filho é que se aproveitou do prestígio do pai, à época. De vereador a conselheiro do TCMRJ é fácil. É um caminho quase natural.

      Não consta que lá no TCMRJ tenha se corrompido. Não consta… O que não assegura que não se tenha.

      Afinal, será que vale a máxima: “Pai de peixinho, peixe é”?

  18. CN,
    Faço minhas as palavras do Dr Beja, segundo as quais ele detesta o pecado e não o pecador. Não há nada mais cristão. Entretanto, vejo o seu posicionamento de desejar que o Sérgio Cabral nunca mais saia da cadeia algo odiento, totalmente divorciado do equilíbrio que deve ser perseguido por todos nós, especialmente por formadores de opinião como os operadores do jornalismo. Sim, odeio a corrupção, mas franqueio ao suposto corrupto o direito de defesa que deve ser pedra de toque do estado democrático de direito. E que ele seja julgado, não pelo clamor da malta ensandecida pelo furor midiático, mas por um judiciário imparcial, neutro e técnico que, alfim, promova a justiça e sancione o réu com a dosimetria de pena limitada pelo império da lei.

    • No Brasil, somos lenientes com a corrupção dos políticos. Em qualquer país que se diz civilizado, Cabral iria ficar preso per saecula saeculorum. Pense no aconteceria se fosse japonês. Seria haraquiri certo. Se fosse chinês, a família pagaria a munição. Sou religioso, mas tenho umas convicções mais radicais quanto ao combate ao crime. Gosto muito do sistema japonês, que é bastante rígido. O país tem quase o mesmo número de habitantes que o Brasil e no ano passado só houve 4 homicídios. Aqui, tivemos quase 60 mil. pense nisso.

      Abs.

      CN

  19. Newton, Cabral está encalacrado até a alma. Eu prevejo que vá suicidar-se. Na hora que o martelo bater dando a sentença de 40 anos de prisão ele não vai aguentar. Sair da vida de fausto e riqueza para uma hora de banho de sol de 24 em “24h”, comendo aquela boia que cachorro olha de lado? Não vai aguentar. Além do mais Sergio tem o apelido de “boca nervosa”. Gosta de comer muito do bom e do melhor.

  20. Tenho 61 anos, ja me deparei com diversos advogados, mas toda minha vida conheci apenas dois que se preocupavam com a Justica e um deles foi o Dr. Jorge Beja (30 anos atras), mesmo sendo advogado da parte contraria ao ouvir-me decidiu que eu estava certo e pediu o cancelamento do feito.
    Concordo plenamente quando nao devemos julgar as pessoas, mas apenas o ato. Todos somos responsaveis pelas nossas acoes (livre arbitrio). Nao podemos abrir mao deste direito sagrado.
    Jarbas Macedo

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