Beltrame deve ser substituído por um general na segurança do RJ

Pedro do Coutto

Os acontecimentos marcados pela violência que vêm explodindo no Complexo do Alemão a partir da noite de domingo, colocando em confronto direto forças do Exército e traficantes de drogas, acentuam a necessidade de o Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, ser substituido por um general da ativa.

Reportagens de Ana Cláudia Costa, Rubem Berta e Taís Mendes, no Globo, Diana Brito e Marco Antonio Martins, Folha de São Paulo, e de Alfredo Junqueira e Tiago Roberto, no Estado de São Paulo, revelam o panorama crítico naquela área já por si tumultuada. A foto de extrema precisão de  Pablo Jacob, O Globo, fala pela força da imagem: comércio de drogas ativado.

 Todas as matérias a que me refiro foram publicadas na quarta-feira. Elas demonstram o que se temia com a iniciativa de instalar-se Unidades de Polícia Pacificadora: a impossibilidade de haver acordo permanente entre os que asseguram a lei e os que vivem fora dela. Pior: contra ela.Quando digo que o Secretário Beltrame, que é delegado da Polícia Federal, deva ser substituído, não é porque não identifique qualidades essenciais nele. Ele as tem em larga escala. Sobretudo é um homem honesto, íntegro, qualidades cada vez mais raras na administração pública. Combate a corrupção dentro e fora do sistema policial, civil e militar, refiro-me à PM. Mas não é um homem aranha, capaz de conter todos os golpes inimigos.

Até porque, como ele próprio já comentou , existem dentro do quadro estadual setores comprometidos. Não foi só com uma pessoa que ele fez tal observação. Lembro agora, no momento em que escrevo, entrevista sua que foi manchete de O Globo há alguns meses. Deixou claro.

Não sendo por falta de qualidades pessoais, porque seria então? – devem perguntar os leitores. Porque as forças do Exército, sob o comando do general Cesar Leme Justo, estão ocupando o Alemão incluindo a Vila Cruzeiro, área lateral ao Complexo. Assim, Mariano Beltrame não pode assumir o controle das operações. Claro. Se discordar, não tem como dar ordens aos militares que lá se encontram como força de ação direta. Tem que assistir tudo sem opinar. Configura-se assim, nitidamente, uma intervenção federal na área estadual. A Polícia Militar, pela lei, uma reserva do Exército, enquadra-se naturalmente nesse perfil de atuação. A Polícia Civil, não. Como seu nome define, ela subordina-se totalmente à Secretaria de Segurança. A Força da Polícia Federal, também presente, desde o conflito de 2009, dos mais graves, quando se planejou uma invasão conjunta, mas na última hora, acertadamente, optou-se por abrir uma fenda no cerco para evitar mortes em série de moradores, no episódio de agora deve buscar a orientação do ministro da Justiça, Eduardo Cardoso. Sua subordinação é junto àquele ministério.

Este é o panorama do Rio de Janeiro, uma cidade em que proliferam as favelas, os becos, as milícias, os pontos de insegurança. Recentemente arquivaram-se milhares de inquéritos de assassinatos, muitos deles sequer lidos pelos seus responsáveis. Mistérios desafiam a Polícia Técnica. O assassinato do empresário Artur Sendas, um deles. No governo Rosinha Garotinho, o chefe da Polícia Civil, Álvaro Lins, terminou preso e condenado.Um habeas corpus, como virou rotina, garantiu-lhe a liberdade provisória. O chefe da Polícia – incrível, caso para Agatha Christie – comandava forte facção criminosa. De dentro do Palácio Guanabara. Não é fácil desfiar essa rede estatal de contradições essenciais.

José Mariano Beltrame tentou. Alcançou resultados positivos. Mas não poderiam durar muito, como está se comprovando. Pois é impossível pacificar-se de modo permanente interesses e objetivos tão conflitantes. Vejamos se um general consegue.

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