Bernardo Cabral, um nome de redemocratização, ao lado de Ulisses e Tancredo

Pedro do Coutto

Numa noite, final do mês de março, o advogado e ex-deputado Alexandre Farah ofereceu em sua residência um jantar ao ex-senador Bernardo Cabral, seu amigo fraterno, pela passagem dos 80 anos do homenageado. Tornou-se ocasião adequada para realçar sua forte presença no processo de redemocratização do país.

Muitas vezes os fatos passam diante de nossos olhos e nossa mente, e de forma tão próxima, que perdemos a perspectiva da real dimensão das pessoas amigas. Mas os aniversários, marcados pela emoção e sinceridade, funcionam para que se possa mais efetiva e concretamente destacar o valor dos seres humanos e sua importância decisiva nos embates e processos políticos. Este, creio, é exatamente o caso de Bernardo Cabral.

Todos se lembram dele como o relator da Constituinte eleita em 86 que produziu a Carta Cidadã de 88, como a chamou Ulisses Guimarães. Mas sua participação na obra de reconstrução democrática antecede de pouco essa presença. Aliás decisiva para o encadeamento na época das articulações políticas indispensáveis. Foi ele o presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil que, de 81 a 83, comoveu o país na luta pelo retorno ao estado de Direito.

A força do Direito contra a força das armas do ciclo dos generais no poder, nas suas etapas finais, ciclo responsável pelo atentado homicida do RioCentro, pela explosão e incêndio da Tribuna da |Imprensa, pela bomba numa correspondência que matou a funcionária da OAB-RJ, Lida Monteiro da Silva.

O documento redigido por Bernardo Cabral na reunião nacional dos advogados, que teve o salão do Hotel Glória como cenário, foi um momento alto na história do país. Um grito de revolta contra o arbítrio, que recorria às sombras do terrorismo, exaltando a liberdade e a democracia como resposta. Aquela noite tornou-se um marco na vida nacional. Um revide da opinião pública aos nãos de chumbo que naufragavam nos impasses que envolviam o poder militar surgido, não das urnas, mas dos segmentos que consideravam o arbítrio e a restrição como fatores de progresso. Um desastre.

Daquela noite surgiu o movimento pelas diretas já, em 84, transformado na sequência imediata na candidatura de Tancredo Neves à presidência da República, que, buscando o voto indireto pela última vez, levou a campanha às ruas de todo o país, emocionando, impulsionando, mobilizando multidões pelo restabelecimento da liberdade, apagada do mapa brasileiro desde março de 1964.

O poder militar – eis a sua maior contradição – não podia perder. Por isso, fugia do voto e consolidava seu colégio eleitoral nas armas. Entretanto não podendo conter a pressão popular, passou a recorrer ao terror, tanto para intimidar a oposição quanto para aprisionar o presidente João Figueiredo.

Desabou em função de ter entrado em conflito consigo mesmo. Impossível conciliar correntes dentro de um quadro discricionário. A facção de Costa e Silva sobrepôs-se à de Castelo Branco. Costa e Silva, para derrotar Castelo, tornaram-se prisioneiro dos radicais.

Médici foi uma solução episódica de compromisso. Ernesto Geisel, irmão do ministro do Exército, Orlando Geisel, projetou-se em 74. Geisel fez de Figueiredo seu sucessor em 79. Mas aí surgiram o atentado à Tribuna, a bomba do Riocentro. O esquema de poder militar desabou. Em grande parte face a atuação de Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Bernardo Cabral e também Barbosa Lima Sobrinho.

Ao sair com Elena, minha mulher, do belo jantar de Alexandre Farah, consolidou-se na minha consciência a importância extraordinária desses homens para uma passagem que ficará eternamente na história do Brasil. Somos testemunhas da atuação dos personagens que ficam para sempre. Contemporâneo de Bernardo Cabral e Alexandre Farah.

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