Bilhete a Helio Fernandes

Sebastião Nery

SALVADOR – A ditadura não sabia o que fazer naquele segundo semestre de 68. Os intelectuais, os estudantes, os cavalos do Exercito e da Policia Militar e os primeiros cadáveres estavam nas ruas. A TV Globo  era uma escuderia para quem como eu ainda respondia a vários IPMS. Mas eu queria, precisava escrever em jornal e cassado não podia.

Todas as manhãs, passava em escritórios de amigos para saber de alguma novidade. Subi ao de José Aparecido, no edifício Avenida Central. Estava lá com ele o principe do livro no Brasil, Enio Silveira. E entra,  barbudo, apressado, falando encachoeirado, Helio Fernandes.

Eu o lia de muitos e  muitos anos, no “Diário de Noticias” e agora na “Tribuna da Imprensa”. Ele não me conhecia. Foi direto:

– Sebastião Nery,li seu livro “Sepulcro Caiado, o Verdadeiro Juracy”. Bom e bem escrito. Dei uma nota. Por que você não escreve na “Tribuna”?

– Helio, li sua nota, fiquei contente e agradeço muito. Quanto a escrever na “Tribuna”, sou nordestino de Jaguaquara, na Bahia.  Lá na minha terra a gente só entra na casa dos outros convidado.

– Pois está convidado. Quando quer começar?

– Hoje. Quanto você me paga?

– Nada. A “Tribuna” não tem dinheiro para um profissional como você.Mas tem toda a liberdade que você quiser usar.Comece quando quiser.

***
TRIBUNA

Despedi-me, fui para a rua do Lavradio, apresentei-me ao chefe da redação, o baiano Helio Ribeiro, e fiz a primeira coluna. Escrevia todos os dias. Não era um emprego. Era uma tribuna contra a ditadura.

Exceto quando a ditadura me impediu, como impediu Paulo Francis, Oliveira Bastos, Evaldo Diniz, Genival Rabelo, Monserrat, tantos, e os cinco anos na “Ultima Hora” (de 78 a 83), escrevi mais de 30 anos na “Tribuna”, todos os dias, até o jornal fechar recentemente.

Sou testemunha diária da bravura de Helio Fernandes. Comecei em agosto de 68, em dezembro veio o AI-5 e a ditadura, como uma bomba de Hiroshima, queria matar o país de uma vez. Enfiaram um major na redação, que lia tudo, vetava tudo, queria cortar tudo. E Helio resistindo,sendo preso, confinado e o jornal explodido por uma bomba na madrugada.

Quando ele chegou do confinamento em Fernando de Noronha, Pirassununga, etc, eu estava no aeroporto Santos Dumont. Os militares ameaçavam: – Se ele voltar a escrever, vai de novo.

Helio voltou a escrever, sempre, até hoje, já no jornal on-line.

***
O AMIGO

No dia 13 de maio de 71, ele me mandou este bilhete, batido na redação, em lauda do jornal  :

– “Sebastião Nery, meu abraço.

Sua coluna de hoje só não é a melhor que você já fez pois tem feito tantas excelentes que seria impossível a classificação. Mas a de hoje é genial. Lúcida, limpa, magnificamente bem escrita, desassombrada, com aquele tom que só os grandes jornalistas conseguem. Infelizmente, grandes jornalistas é precisamente o que está faltando ao jornalismo brasileiro. 

São raros os que sabem escrever. Mais raros os que têm alguma coisa a dizer. E pouquíssimos os que têm coragem de dizer o que sabem. Você, para honra nossa, reúne as três coisas: sabe escrever, tem o que dizer e o diz daquela forma corajosa que apavora os que têm medo da liberdade.

Meu abraço de admirador profissional e de amigo, Helio Fernandes”.

(Este não é um bilhete. É um galardão que guardo na parede – SN).

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CENSURA

Um dos maiores empulhamentos que se tentou criar no Brasil é que quem mais sofreu com a censura e resistiu foram os jornalões, mas revistonas. Uma fraude, uma farsa. Falsos heróis continuam falando de uma valentia que não tiveram. Negociavam com os militares no escurinho do cinema. 

Em alguns raros dias, como a noite do AI-5, de fato todas as redações foram pressionadas pessoalmente por militares. Mas logo iam embora e a censura era feita pelo telefone, entre amigos.

Censura mesmo sofreu a “Tribuna”, porque se rebelava, resistia, denunciava as torturas, publicava as noticias de assassinatos.

Quando surgiram o “Pasquim”, “Politika” e “Opinião”, esses foram também diretamente censurados. Tínhamos que entregar tudo antes para ser censurado em Brasília. Mas os “jornalões”, não. Nunca tiveram de mandar edições para Brasília.

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RODOLFO

Esta crônica foi a maneira que encontrei, aqui da Bahia, de mandar um abraço a Helio Fernandes, Rosinha, Helinho, irmãos, na hora desta dor infinita que desabou sobre eles com a tragédia do Rodolfo, tão sábio, tão sereno, tão gentil, tão amigo, tão jovem, mais jovem do que meus filhos.

Dor de pai e mãe é como o infinito. Não tem medida.

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