Bolvia: a mesma receita

Sebastio Nery

rfo numa famlia ilustre e rica, criado pela negra Hiplita, que considerava me, Jos Antonio de la Santssima Trinidad Simon Bolivar y Palacios nasceu em Caracas em 24 de julho de 1783. Teve sua educao orientada por Simon Rodriguez, pedagogo revolucionrio que lhe infundiu o amor liberdade e s idias avanadas.

Aos 17 anos, em 1800, foi estudar na Espanha. Em 1804, assistiu coroao de Napoleo, na Notre Dame, em Paris, e se familiarizou com as doutrinas de Rousseau, Montesquieu e Voltaire. Em 1805, em Roma, l em cima do Monte Sacro, jurou “dedicar a vida a romper as cadeias com que nos oprime o poder espanhol”.

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BOLIVAR

E cumpriu. Na volta, passou pelos Estados Unidos e, em 1807, h 200 anos, retornou Venezuela para lutar pela independncia, com a ajuda de um brasileiro, o pernambucano Jos Incio de Abreu e Lima.

Pregava “o sonho bolivariano” de “uma Amrica Latina unificada”, “uma Comunidade das Naes Americanas”. Uma ONU americana, um sculo e meio antes da ONU.

Libertou a Venezuela, atravessou os Andes a cavalo, em terrvel inverno, e libertou o Equador e a Colmbia. Encontrou-se com o argentino San Martin e os dois libertaram o Peru. Depois, Bolivar libertou a Bolvia.

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LIBERTRIO

Houve uma hora em que era presidente da Colmbia, chefe supremo do Peru e o presidente da Bolvia. Renunciou aos trs. Era um libertrio: “No usurparei a liberdade. Tenho mais medo da tirania do que da morte. Fugi de um pas onde um s indivduo exerce todos os poderes. Seria apenas um pas de escravos. Chamai-me Libertador da Repblica. Jamais serei seu opressor”. Libertou e criou cinco naes.

Morreu em Santa Marta, na Colmbia, em 17 de dezembro de 1830, aos 57 anos. Segundo a Enciclopdia Britnica, “como salvador dos povos e maior expresso de estadista e gnio poltico da Amrica Latina, o nome de libertador lhe deu a aura mstica que se perpetuou atravs dos tempos”.

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BOLVIA

Desde o sculo 13 (1200 e tantos), os ndios quchuas e aimars do altiplano (norte) da Bolvia eram do imprio inca. Em 1530, chegaram os espanhis e escravizaram os ndios para trabalharem de graa nas minas de prata de Potos.

A Bolvia virou duas: a Bolvia ndia, com mais de 75% da populao l em cima no altiplano, a milhares de metros de altitude, e por isso a capital em La Paz, e c embaixo a Bolvia branca, entre os rios e o mar, na branca Santa Cruz de la Sierra, com uma capital de mentira, Sucre.

Proclamada a independncia da Bolvia, por Bolivar, em 1825, comearam as invases. Espanha, Inglaterra, Estados Unidos queriam continuar roubando a prata de Potos. Um dia, atravs do Paraguai, na guerra do Chaco, por causa da descoberta do petrleo no p dos Andes. Outro dia, pelo Chile, na guerra do Pacfico, para tirar o acesso da Bolvia ao mar.

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POTOS E GS

E os ndios brigando e morrendo. E a prata de Potos indo embora para a Europa. Desde a invaso espanhola, em 1830, mandaram os brancos do sul e seus presidentes brancos. Foram sculos de golpes e tiranias (um general por ano, s vezes por ms e at por semana, todos brancos).

At que um dia os 75% de ndios resolveram eleger um deles, Evo Morales, presidente. Ganhou, convocou uma Constituinte. Os brancos, os l de baixo e os de fora (sobretudo a imprensa americana, espanhola, brasileira), abriram guerra, j no mais de olho na prata, mas no gs.

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MORALES

O ndio Morales os desafiou a todos e, no meio de seu mandato, convocou um referendo para confirmar ou anular seu mandato e os dos 9 chefes dos departamentos (governadores). Na eleio, tinha ganho com 52% dos votos. O referendo o confirmou com 67,5%. Uma lavagem.

E, dos 9 “governadores”, s 5 foram confirmados. Quatro perderam. No havia jeito. A soluo s podia ser a mesma que os Estados Unidos comandaram no Brasil em 64, no Chile em 73, na Argentina em 76. No podiam derrubar no voto, tinham que derrubar no golpe.

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64, 73, 76

A receita sempre a mesma. No Brasil, envolveram ou compraram alguns governadores e jornais, e comearam as provocaes. “Pegaram” Magalhes Pinto, Ademar de Barros e Lacerda, criaram arapucas, como o Ipes (Instituto de Pesquisas Econmicas e Sociais) de Golbery e Hasslocher, a ADP (Ao DemOcrtica Parlamentar), do baiano Joo Mendes da Costa Filho, os trs diretamente financiados pela embaixada norte-americana, aliciaram alguns generais carreiristas e o golpe estava pronto.

No Chile, puseram os caminhoneiros paralisando as estradas e o general assassino Pinochet bombardeou o La Moneda, levou Allende resistncia pelo suicdio e mataram 10 mil chilenos em dez anos. Na Argentina, os empresrios fizeram uma fantstica paralisao, o general Videla assaltou a Casa Rosada e assassinaram e desapareceram 30 mil.

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GOLPE BRANCO

Na Bolvia, em 2008, o “governador” branco de Santa Cruz quer fazer de seu departamento (estado) uma provncia dos Estados Unidos, como Porto Rico. E a imprensa canalha da Amrica Latina apoiando o golpe branco. Nada mudou.

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