Bolsonaro é levado a ignorar o iceberg fiscal e seguir no rumo da gastança

William Waack
Estadão

Os brilhantes almirantes junto a Jair Bolsonaro podiam explicar ao capitão do Exército que um azimute constante em relação a um obstáculo (outro navio, por exemplo, que também está se movendo) vai dar em colisão. O presidente quer gastar para manter a popularidade, e está encantado com as vozes (do ministro do Desenvolvimento Regional, mas não só) que lhe dizem que estaria unindo o útil (reeleger-se) ao agradável (fazer o bem para pessoas ainda mais necessitadas).

O obstáculo é o formidável rochedo fiscal, que está aumentando de tamanho. À medida que 2021 se aproxima, fica próximo do irresistível esse canto da sereia de que a excepcionalidade atual imposta pela calamidade pública podia ser esticada um pouquinho mais, só um pouquinho mais, só para algumas obras já orçadas, já iniciadas, necessárias até por razões humanitárias (como levar água para o Nordeste, por exemplo).

NUM PAÍS MISERÁVEL – Sim, esse argumento procede, tem sólidos fundamentos num país miserável no qual metade da população nem esgoto tem. Sim, as circunstâncias da dupla crise de saúde e economia obrigam a mudar os cálculos (políticos, sobretudo), alteram prioridades (como reforma do Estado ou privatizações) e impõem gastar sem olhar para o fundo do cofre.

Afinal, não é o que uma Angela Merkel está fazendo? Deixem os economistas debatendo entre si se esse “novo normal” jogou por terra tudo o que aprenderam na vida acadêmica, pautada ou não pela ortodoxia.

O problema no caso brasileiro, no qual Bolsonaro é uma expressão perfeita de mentalidades e atitudes generalizadas, é o conceito de excepcionalidade.

GASTANDO DEMAIS – Não há nada de novo no fato de a sociedade brasileira conviver com gastos públicos muito acima da capacidade do nosso espaço econômico de financiá-los. Ao contrário, é o que estamos fazendo há décadas. Também não é novidade alguma o fato de que nos acostumamos a acomodar interesses setoriais e regionais espalhando pela nação inteira os custos dessas acomodações – traduzindo: benefícios, renúncias, incentivos, proteções, privilégios, regimes especiais, a gritante diferença entre o emprego público e o privado.

Circulam no Congresso, e no Planalto, números dando conta de que mais da metade dos 60 milhões de brasileiros que recebem ajuda emergencial acredita que ela será permanente e que a quase totalidade dessas pessoas não está preparada para o momento em que essa ajuda cessar.

ISENÇÕES TRIBUTÁRIAS – Para montar já para o ano que vem um grande programa social para Bolsonaro chamar de seu o ministro da Economia, Paulo Guedes, precisa sentar com o Congresso e decidir no que mexer nos R$ 350 bilhões de isenções tributárias – ou seja, onde cortar nas “acomodações” tão ao gosto de nossa sociedade.

Com TCU, STF e o presidente da Câmara dos Deputados avisando que puxadinho no teto de gastos não passa, e que a abertura de créditos extraordinários via MP também não, é com o Centrão que Bolsonaro terá de se entender.

O começo dessa relação parece auspicioso: as “novas” lideranças políticas abraçadas pelo presidente garantem a ele governabilidade e a agradável sensação de que o pior da crise ficou para trás, agora que vamos gastar. Convenientemente, ignora-se o fato de que o fisiologismo, que azeita o que for necessário em Brasília, é dono de insaciável apetite (o que isso tem de excepcional?).

NÚMERO DE MORTOS – Some-se a isto um fator subjetivo muito elucidativo quando se considera a rapidez com que nos acostumamos ao número de mortos na pandemia (um horror em escala mundial): é a de que estamos aparentemente confortáveis dentro da excepcionalidade. Esses tempos “excepcionais” se parecem tanto à normalidade, deixando de lado a chateação das máscaras e as escolas fechadas, com as crianças azucrinando em casa.

Na ponte de comando em Brasília, muitas vezes paralisada por tantas mãos do Executivo, Legislativo e Judiciário mexendo no leme, traçar um rumo é notoriamente uma questão de alta complexidade e mantê-lo também, ainda mais com um “skipper” errático. Que está correndo o risco de confundir rumo com deriva.

12 thoughts on “Bolsonaro é levado a ignorar o iceberg fiscal e seguir no rumo da gastança

  1. Sem querer personalizar meu comentário, gostaria de relatar brevemente meu contentamento em falar com um Boçalnariano ontem á noite. Foi uma experiência incrível: pela primeira vez na vida me senti superior a alguém. Fico a imaginar se todos são como ele: acusou a menina Greta Thunberg de trabalhar para interesses estrangeiros e atribuiu ao Idiota Mor a façanha de modernizar o nordeste em apenas 2 anos! Vou parar por aqui como prometi, mas sugiro a todos arranjar pelo menos uma vez na vida um papinho com um boçalnariano – é uma experiência única, incroyable!

    • Senhor Sapo, concordo em gênero e grau, realmente é uma experiência única, eu,que tenho alguns amigos e ex-colegas boçalnarianos, sei o que é isso, ter que escutar como o “estadista” está desenvolvendo o país, numa verdadeira avalanche de obras públicas, o salto qualitativo da educação e o gerenciamento científico da crise sanitária, e o melhor, tudo sem corrupção.
      Reconheço que é duro, escutar os disparates sem reagir, para não perder amizades de pessoas boas, mas ingênuas e abduzidas.

      • Caro F.Moreno, é tanta coisa boa que você esqueceu até o belo trabalho na política do meio ambiente.
        Incrível o que está sendo feito na defesa da Amazônia.
        Os gringos é que não entendem nada de sustentabilidade.

      • Seria uma boa ideia guardar esse link, caso a PF investigue autor e replicante desse texto, verdadeira amostra da técnica de propaganda difamatória dos acólitos do Mito. A matéria é tosca na sua elaboração e transparente nos seus objetivos. Mistura ministros do STF, doleiros, putas, diretores da Globo e membros do PT numa muvuca delirante, com a marca do gabinete do ódio. São verdadeiros vermes podres. É revoltante!

  2. O auxílio emergencial é louvável em existir. Porém como que tudo neste governo foi criado sem critério e planejamento. O auxílio jamais poderia ter um valor fixo e nunca superior ao Bolsa Família. Quando ele acabar a falta do planejamento será desastroso tanto para quem dele passou a depender, quanto para as contas e a popularidade do governo. É uma autêntica BombaReligio. Anotem.

  3. Difícil entender o Waac, por acaso não foi o PR que vetou o aumento do funcionalismo? Como é que o Bolsonaro quer a gastança? Ainda bem que a Câmara teve um atitude sensata ao invés do Senado.

    Se tem investimentos abandonados pelo governo faz tantos anos e até décadas nada mais sensato que dar continuidade tais obras e entregar ao serviço do povo que pagou por todo o investimento feito ou é melhor que seja perdida toda a infraestrutura iniciada e não terminada? Porque o Waac, não faz o trabalho de analisar o que realmente está-se fazendo? Tem obra que estava quase terminada, dali que o governo está entregando projetos de dezenas de anos iniciadas. Difícil entender o Waac!!!

  4. O bom Artigo do Sr. WILLIAM WAACK nos diz que “os Almirantes junto a ponte de Comando da Nave Brasil, cujo Capitão são: Pres. BOLSONARO/MOURÃO, mantendo Rumo constante em relação ao Rochedo Fiscal, resultará em colisão”.

    O que o Sr. WAACK não diz, é que se o Governo BOLSONARO/MOURÃO mudar de Rumo, ( manter rígida Austeridade Fiscal em meio a grande Recessão Econômica induzida pela Pandemia Covid-19, resultará em NAUFRÁGIO), perda segura da re-eleição 2022, como aconteceu recentemente na Argentina, com volta ao Poder do PT-Base Aliada, desta vez mais provável, Base Aliada-PT.

    Está certo o Governo por optar por uma Colisão, que pode ser pequena, média ou grande, do que por um NAUFRÁGIO.

    E o Ministro da Fazenda PAULO GUEDES (71) continua numa boa, porque age para o Governo como um “espantalho” contra a indisciplina Fiscal, buscando uma colisão leve no Rochedo Fiscal.
    ( Menor Pressão Inflacionária possível).

    Está certíssimo, dentro das circunstâncias, o Ministro da Casa Civil Gen. BRAGA NETTO em lançar o “Programa Pró Brasil” de iniciais R$ 130 Bi, para reativar Obras Públicas já iniciadas e paradas.

    Não por nada foi aprovado pelo Congresso o “Orçamento de Guerra contra o Covid-19 para 2021”. e que a nosso ver deve ser renovado para 2022.

  5. “Desde o início de 2019, quando Jair Bolsonaro foi empossado, a JBS assinou R$ 47 milhões em contratos com o governo, diz a Crusoé.

    Segundo o Portal da Transparência, o frigorífico dos irmãos Batista fechou 30 negócios com o Ministério da Defesa durante esse período para fornecer congelados para os militares do Exército e da Marinha.

    “No cardápio contratado pelas Forças Armadas estão peças de picanha, maminha e filé mignon.””(O Antagonista)

    Pois é, essa é a vida que os militares sempre sonharam.

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