Bolsonaro ignora 100 mil mortos, critica isolamento e diz que TV Globo espalha ‘pânico’

Charge do Duke (otempo.com.br)

Ricardo Della Coletta
Folha

Um dia depois de o Brasil ter superado 100 mil mortos pelo novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender ações do governo federal tomadas durante a pandemia, criticou o isolamento social radical (‘lockdown’) e acusou falsamente a rede Globo de ter “festejado” no sábado, dia 8, a marca simbólica de vítimas da Covid-19.

O Brasil se consolidou como um dos epicentros da transmissão do vírus no mundo. O país beira os 3 milhões de casos registrados, segundo dados coletados com as secretarias estaduais da saúde pelo consórcio formado por Folha, Uol, O Estado de S. Paulo, Extra, o Globo e G1.

“LOCKDOWN” – Em uma mensagem no Facebook, Bolsonaro republicou uma reportagem do jornal britânico Daily Mail que cita números oficiais para argumentar que o ‘lockdown’ —confinamento radical aplicado naquele país— matou duas pessoas para cada três que morreram de Covid, entre 23 de março e 1º de maio.Segundo a publicação, 16 mil britânicos morreram no período por não terem tido acesso a serviços de saúde, enquanto a Covid-19 matou 25 mil pessoas no mesmo intervalo.

“Conclui-se que o ‘lockdown’ matou duas pessoas para cada três de Covid no Reino Unido. No Brasil, mesmo ainda sem dados oficiais, os números não seriam muito diferentes”, escreveu Bolsonaro, que desde o início da crise se colocou como um crítico de medidas restritivas adotadas por governadores para tentar conter a curva de contaminação.

SEM PRECAUÇÃO – O presidente também se destacou de outros líderes internacionais por ter minimizado os impactos da pandemia e provocado aglomerações —muitas vezes sem máscara de proteção facial— mesmo quando alertado por especialistas que o isolamento era fundamental para reduzir o número de novos casos.

Criticado por não ter manifestado pesar pelos 100 mil mortos no sábado, como fizeram os presidentes da Câmara, do Senado e do STF (Supremo Tribunal Federal), Bolsonaro disse neste domingo que lamenta “cada morte, seja qual for a sua causa, como a dos três bravos policiais militares executados em São Paulo”. Os policiais citados foram mortos após abordagem por um homem que se apresentou falsamente como policial civil.

TV GLOBO – “Quanto à pandemia, não faltaram recursos, equipamentos e medicamentos para estados e municípios. Não se tem notícias, ou seriam raras, de filas em hospitais por falta de leitos UTIs [Unidades de Terapia Intensiva] ou respiradores”, continuou Bolsonaro, na mesma mensagem no Facebook. Bolsonaro concluiu sua publicação investindo contra a TV Globo.

Ele não citou a maior emissora do país nominalmente, mas referiu-se a ela como “aquela grande rede de TV que só espalhou o pânico na população e a discórdia entre os Poderes”. Bolsonaro trata a Globo como adversária do governo e já ameaçou não renovar a concessão da emissora.

“No mais, essa mesma rede de TV desdenhou, debochou e desestimulou o uso da hidroxicloroquina que, mesmo não tendo ainda comprovação científica, salvou a minha vida e, como relatos, a de milhares de brasileiros”, escreveu Bolsonaro, que anunciou no dia 7 de julho ter sido contaminado pelo coronavírus.

SEM COMPROVAÇÃO – O presidente se recuperou sem sentir maiores sintomas e diz ter sido medicado com a hidroxicloroquina, remédio cuja eficácia científica para o coronavírus não é comprovada. Estudos apontaram ainda para o risco de efeitos colaterais relacionados ao uso da droga.

Bolsonaro escreveu ainda que a “desinformação mata mais até que o próprio vírus” e acusou a Globo de fazer uso político da pandemia, sugerindo que a TV seria responsável por mortes que poderiam ter sido evitadas.

DISTANCIAMENTO SOCIAL – A Globo tem dado grande destaque para a crise da Covid-19 em sua cobertura jornalística, ressaltando as recomendações de distanciamento social emitidas por diversos especialistas e pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e dando espaçoem seu noticiário para contar as histórias de vítimas da pandemia.

Por último, também sem citá-la nominalmente, Bolsonaro afirmou que a rede de televisão festejou o marco dos 100 mil mortos na sua edição do Jornal Nacional, o que é falso.

“De forma covarde e desrespeitosa aos 100 mil brasileiros mortos, essa TV festejou essa data no dia de ontem, como uma verdadeira final da Copa do Mundo, culpando o presidente da República por todos os óbitos”, afirmou.

DIREITO À SAÚDE – Na edição de sábado do Jornal Nacional, um editorial lido pelos apresentadores destacou que o direito à saúde é previsto na Constituição, mas que mesmo em meio à pandemia o país permanece sem um ministro da Saúde titular.

O telejornal também lembrou diversas declarações minimizando a doença feitas por Bolsonaro —como quando ele reagiu com um ‘E daí?’ ao ser questionado sobre a avanço de mortes no país— e concluiu o editorial questionando os telespectadores se o presidente e outras autoridades cumpriram com o dever de garantir acesso à saúde para a população.

11 thoughts on “Bolsonaro ignora 100 mil mortos, critica isolamento e diz que TV Globo espalha ‘pânico’

    • SR Haremhab, vamos ser justos, a Globo é uma grande empresa que gera empregos e fornece diversão para o povo e, de vez em quando, seu âncora, William Bonner solta algumas fake news.
      A Presidência é uma grande empresa que gera empregos e seu âncora, Jair Bolsonaro, fornece diversão para o povo, especialmente o do “cercadinhoi”e sempre solta fake news.

  1. Para os bolsonaristas a informação virou lixo.
    A pandemia nos levou quase 102 mil mortos até agora, mas a culpada é a Globo, que diariamente publica o número de vítimas causado pelo vírus.

    Bolsonaro errou, sim, nesse particular.
    Ao desdenhar da doença desde o seu início, incutiu nos incultos, incautos e robôs, que a doença não teria o poder de contágio que diziam, além de defini-la como gripezinha.

    Sempre defendeu a economia, como se a vida do cidadão, do empregado ou do trabalhador fosse secundária, sua culpa maior e indefensável.
    O seu comportamento foi tá sórdido, de tamanha má fé que, antes do coronavírus, o índice de desemprego no Brasil era de mais de 13 milhões de pessoas, afora mais de 30 milhões terem se transferido para a economia informal!

    Do jeito que discursa, dá a entender que havia o pleno emprego, então a sua defesa na questão de trabalhar e manter a sua ocupação.
    Mentiroso, mal intencionado, pessoa maldosa.
    A sua única preocupação é que não falte dinheiro às castas, elites e poder econômico, onde é apenas um dos agentes a serviço do sistema.

    Se o boçal não se deu conta, 3 milhões de infectados e 102 mil mortos, temos a quantidade de pessoas que residem no Distrito Federal que, em 2019, apontava 3,016 milhões de habitantes!

    Nessas alturas, mil vezes a Globo, que causa “pânico”, que um presidente que não dá valor algum aos brasileiros mortos e às famílias enlutadas pelas mortes de seus entes queridos!

    • Bom dia Chicão.
      Vale a pena ler e interpretar acuradamente o post do Mito, da assessoria de imprensa, melhor dito, para enxergar a manipulação técnica das palavras e dados.
      A propaganda para uso político, com a consequente manipulação da informação, usando a técnica subliminar, e o uso de notícias e dados falsos, é a arma não bélica. preferida dos governos totalitários.

      • Bom dia, Moreno,

        Quando escrevo que somos manipulados, eis a prova!

        Para Bolsonaro, ele deve enganar o cidadão ao pedir que trabalhe, que não perca o seu emprego, como se antes da pandemia não tivéssemos milhões de pessoas desempregadas!

        Che, isso é má intenção, é solerte, é diabólico!

        Abraço.
        Saúde e paz.
        Excelente semana que ora inicia.
        Te cuida, pois ultrapassamos 102 mil mortos!!!

  2. É só acompanhar os noticiários internacionais diretamente em seus veículos para se observar a atual imagem internacional do Brasil diante de importantes temas como enfrentamento da pandemia, ataque a Lava-Jato pelo estado cleptocrata brasileiro, meio ambiente, etc Tudo desenbocando na constatação de um governo que não governa. O Brasil sofre hoje forte descrédito internacional, que o faz ser tratado como pária.

    • Sr Sylvio, tenho contato permanente com familiares e amigos na Espanha, inclusive com um grupo de professores universitários de Córdoba, e posso assegurar-lhe, sem paixão, que a campanha presidencial da cloroquina é a piada do ano no meio acadêmico europeu.

  3. Minha curiosidade maior é saber como o Bosonaro consegue falar. Deve ter tido muito treinamento como criança. Não sei como seu cérebro consegue concaternar sentenças com sujeito predicado e objeto. É um milagre que precisa ser estudado.

  4. O boçal não vai descer do salto tão facilmente, depois dos últimos shows onde foi aclamado pela população e, diante do aumento da popularidade delírios como estes serão mais e mais comuns. Diante da tragédia o boçal poderia ter faturando em cima , diria que também foi vítima da praga, que sofreu com ela e felizmente se salvou. Daria até graças a Deus. E faria até propaganda da panaceia, a maravilhosa Hidroxicloroquina mas preferiu bater na Poderosa, perdeu uma ótima oportunidade de poupar o lombo de pancadas.

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