Bota pra moer

Sebastio Nery

Alto, forte, mulato, valente e brigo, cara e corpo de estivador, “Bota Pra Moer” estava sempre frente nas manifestaes e lutas sociais e polticas de So Lus, no conturbado Maranho da dcada de 50.

Em 3 de outubro de 1950, Eugenio de Barros, apoiado pelo senador Victorino Freire, principal lder poltico do Estado, foi eleito governador pelo PST (Partido Social Trabalhista), com o tenente da Marinha Renato Archer como vice-governador, derrotando o at ento vice-governador Saturnino Belo, candidato das oposies reunidas no PSD, UDN e PSP.

A oposio no aceitou o resultado e levantou a populao. Em 16 de janeiro de 51, Saturnino Belo morreu de repente, a crise se agravou e assumiu o governo o presidente do Tribunal de Justia, desembargador Traia Moreira, que em fevereiro empossou Eugenio de Barros.

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EUGENIO DE BARROS

Mas o Maranho continuou em p de guerra e em maro Eugenio de Barros passou o governo interinamente para o presidente da Assemblia, Csar Aboud. Seis meses de confuso, no se conseguia a pacificao, o governador eleito no assumia, at que em setembro o general Edgardino Pinto, comandante da 8 Regio Militar, deu posse a Eugenio de Barros.

A oposio no se conformou. Fazia grandes e violentas passeatas, tentando tomar de assalto o Palcio dos Lees. Numa delas, a sede do governo j quase cercada, com “Bota Pra Moer” frente da turba enlouquecida, o governo instalou uma fileira de metralhadoras pesadas na entrada do palcio. “Bota Pra Moer” parou, contou, gritou para a multido:

– Daqui pra frente, arranja um mais doido do que eu!

Ningum mais quis tirar Eugenio de Barros.

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SARNEY

O Maranho j no est entendendo mais nada. Conhece bem o senador Sarney, com sua infinita sede de poder, mas sempre mantendo uma aparente elegncia por trs dos bigodes pintados. De repente, desandou. Virou o novo “Bota Pra Moer”.

Ps na cabea que precisava derrubar o governador Jackson Lago para colocar no governo a filha Roseana, derrotada em 2006.

O grupo Sarney entrou no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com um pedido de anulao do mandato do governador, acusando-o de “abuso de poder poltico” na campanha eleitoral. Ora, o ex-prefeito de So Lus j no exercia funo pblica nenhuma, quando se candidatou em 2006.

Segundo Sarney, o “abuso de poder” teria sido praticado pelo ex-governador Jos Reinaldo, atravs de convnios com prefeituras do Estado. Mas o candidato do ex-governador nem era Jackson Lago. Ele apoiou o ex-presidente do STJ (Superior Tribunal de Justia), ministro Edson Vidigal.

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EROS GRAU

A “denncia” foi feita direto ao TSE, porque o Tribunal Eleitoral do Maranho, conhecendo os mtodos de Sarney, no a aceitaria. No TSE jhavia processos contra os governadores Cunha Lima da Paraba, Lus Henrique de Santa Catarina, Ivo Cassol de Rondnia, Marcelo Miranda de Tocantins, Jos de Anchieta de Roraima e Marcelo Deda de Sergipe.

O de Sarney ficou com o ministro-relator Eros Grau. Sarney, em um desrespeito ao ministro, fez espalhar no Estado que j em fevereiro o ministro Eros Grau iria apressar e antecipar o julgamento, e dizem por qu: perto de afastar-se do Supremo por limite de idade (70 anos), o tambm escritor e poeta Eros Grau gostaria de ir para a Academia Brasileira de Letras. – “E na Academia mandou eu”, dizia o “Bota Pra Moer” de bigode.

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ROSEANA

Desde 1966, durante 40 anos, Sarney tinha sido o governador, nomeou ou elegeu o governador do Maranho. No se conformava em Roseana ter perdido em 2006. E sabia que pelo voto no voltariam: a dupla derrota de Roseana para governadora em 2006 e depois, em 2008, o desastre na eleio municipal.

Sarney perdeu em So Lus e Imperatriz. Como no tinha fora para concentrar seu apoio a um candidato na capital, apoiou 4. Todos juntos fizeram 7,82%: Gasto Vieira (PMDB), 1,9%. Raimundo Cotrim (DEM), 4%. Pedro Fernandes (PTB), 0,5%. Valdir Maranho (PRTB), nem 1%.

Em 2004, seu PMDB ganhou em 44 municpios. Em 2008, apenas em 16. Dos 217 municpios, a aliana do governador venceu em 146. Sarney ento se desesperou e endoidou o PMDB do Senado para arrancar vantagens de Lula.

TARSO GENRO

Na “Veja”, em novembro de 2008, o Lauro Jardim (“Radar”) contava:
“Tudo menos Tarso. Aviso aos navegantes: fale de qualquer nome diante de Jos Sarney. Menos um: Tarso Genro. Em particular, Sarney tem soltado os cachorros em cima de Tarso. Culpa-o pelas agruras que o seu filho Fernando vem passando por causa de investigaes da PF”.

No “Holofote” da mesma “Veja”, Felipe Patury tambm contava: “Alm do Ministrio da Justia e da Polcia Federal, os senadores do PMDB querem tambm diretorias nas estatais do setor eltrico, da rea nuclear, nos bancos federais e uma no BNDES. Essa ltima iria para um afilhado do senador Jos Sarney, que j no demonstra resistncia a ser candidato presidncia da Casa. isso mesmo: o que o PMDB quer ficar com os cargos no governo e tambm manter o comando do Senado”.

Tinha razo a lcida Eliane Cantanhede (“Folha”): “Sarney est indo ladeira abaixo no Maranho… A Polcia Federal de Lula tem pilhas de documentos e suspeitas sobre o empresrio Fernando Sarney”. E de l para c no mudou nada.

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