Botafogo vende Vitinho e nos lembra uma crônica eterna de Nelson Rodrigues

Yuri Sanson
Acabam de noticiar que Vitinho, jovem revelação do campeonato, que mal completou 19 anos, acaba de ser vendido por 10 milhões de euros. Na semana passada empresas especializadas divulgavam que, mantendo a média de suas apresentações, o jovem valeria cerca de 70 milhões de reais em 2014. O Botafogo não conseguiu manter o jogador, provavelmente não receberá o dinheiro devido as penhoras e vê a chance de títulos cada vez mais remota.
Encontro esta crônica dos anos 60 de Nelson Rodrigues e me pergunto: o que mudou na mentalidade cartola, de lá para hoje?
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A CAVEIRA NO ESPELHONelson Rodrigues

Amigos, sou um admirador profundo do cinema italiano. Bem me lembro dos meus tempos de menino. Sempre que havia uma fita de Francesca Bertini, lá estava eu, com meus seis, sete anos salubérrimos. E a Bertini deslumbrava a minha infância. Santa e, como diria Augusto dos Anjos, abominabilíssima senhora! No momento mais dramático dos filmes, ela saía pelas portas, aos urros e às patadas. E se alguém a beijava, eis a vamp antediluviana querendo subir pelas paredes como uma lagartixa profissional.

Assim era no tempo da cena muda. Mas, com a passagem dos anos, o cinema foi mudando. Menos o italiano, que continuou fiel ao próprio povo. A Bertini passou. Mas outras a substituíram, e seguindo uma linha parecida. E o cinema atual da Itália está cada vez mais feroz e cada vez mais esbravejante. Pode-se dizer que ele repôs o urro no centro do drama humano. Suas atrizes, ainda as mais sóbrias, são desgrenhadas viúvas sicilianas. Francesca Bertini está mais viva, mais atual, mais obsessiva do que nunca.

Faço toda esta volta pelo cinema italiano para chegar ao Botafogo. É, com efeito, o clube mais passional, mais siciliano, mais calabrês do futebol brasileiro. Um tricolor pode torcer em surdina, pode cochichar, pode suspirar. O botafoguense, porém, é de uma extroversão ululante como nos velórios da Sicília. Lembro-me de uma vizinha que torcia pelo Botafogo. Por uma funesta coincidência, casara-se com um rubro-negro. E o casal discutia muito sobre futebol. Uma vez, houve um Flamengo x Botafogo. E não sei se ganhou o Flamengo, ou se ganhou o Botafogo.

Só sei que, na volta do jogo, os dois vinham brigando. Foi lindo quando desembarcaram do táxi. A doce vizinha berrava: — “Te bebo o sangue!”. Tiveram de chamar a radiopatrulha ou do contrário ela descascaria a carótida do marido para chupá-la como laranja. Nessa implacabilidade está o charme da torcida botafoguense. Esse tom, essa efusão, essa agressividade, essa ira, ou estertor de ópera, de filme italiano, é que dá o tom justo aos homens de General Severiano.

E, além disso, como o italiano da anedota, o alvinegro autêntico paga para sofrer. O alvinegro autêntico, repito, prefere a catástrofe. E, quando o time perde, ele se realiza. Pode clamar, espernear, arrancar os cabelos, amaldiçoar e soltar os cães de sua ira. É a vocação da calamidade que torna inconfundível o botafoguense irreversível.

Na Sicília, quando um moribundo escapa de morrer, a quase viúva cai em frustração. Ela se sente espoliada do seu defunto e respectivo velório. É a mesma tristeza do alvinegro que não tem nenhum pretexto para soluçar as suas mágoas clubísticas. Felizmente, este ano o Botafogo perdeu o tricampeonato. E seus fanáticos podem descarregar, em todas as direções, o seu potencial de ira.

Cabe então a pergunta: — e por que o Botafogo perdeu o tricampeonato? Ora, eu não sou botafoguense e posso me dar ao luxo de um mínimo de isenção e de objetividade. A meu ver, o Botafogo começou a perder o tricampeonato quando negociou Didi. Há uma verdade eterna, em futebol, que é a seguinte: — todo clube precisa ter uns tantos bens inegociáveis. E não há preço que pague um bicampeão mundial. Didi teria que envelhecer em General Severiano até se converter numa múmia gagá.

O Botafogo continuou a perder o tricampeonato quando pensou, simplesmente pensou, em vender Garrincha. Um clube que admite, mesmo como hipótese, a venda de um Mané tem mesmo a tal vocação da catástrofe. O Botafogo perdeu de vez o tricampeonato quando vendeu Amarildo. Negociando o “Possesso”, que marcou os dois gols contra a Espanha, o alvinegro estava querendo ver, no espelho, a própria caveira. Há também a ausência de Garrincha. Mas o joelho do Mané não é um problema cirúrgico, e repito: — o joelho é apenas um castigo.

Agora a conclusão: — se o Botafogo quis vender o Mané, e se negociou Amarildo, e se entregou Didi — é porque queria se dilacerar no arrependimento e na expiação.

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5 thoughts on “Botafogo vende Vitinho e nos lembra uma crônica eterna de Nelson Rodrigues

  1. Respeito e gosto de algumas obras do Nelson Rodrigues, mas “E não há preço que pague um bicampeão mundial. Didi teria que envelhecer em General Severiano até se converter numa múmia gagá”?

    Foi justamente essa mentalidade, de que um clube de futebol está acima da economia que levou ao escambo e o escárnio com a população que se tornou a situação fiscal dos clubes brasileiros. Mais patética ainda é a medida especulada pelo governo de perdoar a dívida dos clubes, passar a mão na cabeça. Talvez o Brasil só mudasse de fato no dia que fechassem as portas estas instituições caloteiras e soberbas. Enquanto isso, o micro e pequeno empresário que tentam construir um país melhor são asfixiados por impostos dia após dia. O pão e circo nunca deixou de existir aqui e provavelmente nunca deixará.

    E quanto ao Vitinho, fez certo ao se transferir para onde lhe pagam em dia. CSKA é só trampolim, até o fim do ano um clube de algum futebol mais expressivo o tira de lá.

  2. Creio não haver conhecido quem dominasse a linguagem escrita com tanto brilho quanto Nelson Rodrigues. Escrevia com surpreendente criatividade. Conferia relevo aos fatos mais comuns.
    Pena tenha sido um homem de pensamento político tido como direitista. Mas, a direita nele não confiava. Por ser, no fundo, um revolucionário! São as contradições do mundo.

  3. Prezado Yuri Sanson:

    Creio que o Botafogo agiu corretamente vendendo o atleta Vitinho. Todos os clubes vendem seus atletas, o Atlético Mineiro acabou de vender Bernard e o Santos vendeu Neymar. Por que vendeu corretamente? Porque os clubes não vivem mais da renda dos jogos e estão endividados por falta de uma administração profissional. Fazem contratos mal feitos, pagam salários fora da realidade, demitem técnicos no meio da temporada e são obrigados a honrar com as multas pesadas. Ficam sem condições de pagar e o passivo aumenta astronomicamente.

    Ás vezes, o próprio atleta pressiona para sair e é pressionado pelos empresários ávidos pela gorda porcentagem que auferem nas vendas dos craques. Veja o caso emblemático de Neymar: O menino queria ficar, mas o pai pressionou, Pelé e Ronaldo cansaram de dar entrevistas afirmando que seria melhor para ele Neymar ir para a Europa, como foram Ronaldinho, Kaká, e Ronaldo.

    A venda de um jogador se insere na necessidade de com os recursos advindos da transação manter os salários em dia como todo trabalhador almeja. E o Botafogo está com os salários atrasados há um bom tempo, mesmo após a venda de Andrezinho e Felipe e o lateral esquerdo, nesse ano de 2013.

    A sorte está lançada.

    • Olá Roberto!

      Vitinho não fez uma boa escolha profissional, indo para o futebol russo. E nem financeira pois com mais calma, poderia jogar na Europa com salário tão alto quanto os russos oferecem porém em uma vitrine melhor. Ficará sem nenhuma projeção para a Seleção Brasileira, que deveria ser o ápice para qualquer esportista. No final do ano estaria muito mais valorizado. Se ficasse e acreditasse na equipe, se classificando para Libertadores ou com um título de expressão, estaria eternizado no Glorioso.

      Neymar no Santos: uma Libertadores, uma Recopa, uma Copa do Brasil e 3 Paulistas. 21 anos e vendido por R$ 77 milhões.

      Bernard no Atlético: uma Libertadores e 2 Mineiros. 20 anos e vendido por R$ 80 milhões.

      Já Vitinho foi campeão carioca como reserva. No Botafogo se tornou titular apenas nos últimos dois meses. 19 anos e vendido por R$ 31 milhões.

      Os salários atrasados continuarão devido as penhoras. Não teve retorno em campo (com títulos) e financeiramente no momento, também não.

      Faltou visão da diretoria para segurá-lo e pelo visto é um problema de longa data…

      E claro, falta a torcida do Botafogo acabar com este fatalismo de fim do mundo com qualquer problema que surge.

      Um abraço!

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