Brasil, a palavra e o gesto

Pedro do Coutto

Reportagem de Luciana Nunes Leal e Joo Domingos, publicada no Estado de So Paulo de 22 de maro, de forma indireta focaliza talvez o maior problema brasileiro: o gesto no acompanha a palavra. Num encontro no Rio do presidente Lula com o governador Srgio Cabral e a ministra Dilma Roussef, foi anunciado um resultado das obras do PAC que no coincide com os nmeros. Os reprteres concluram, com base em ndices oficiais que, de 2007 at agora, apenas 11,3 por cento das obras do Programa foram concludas. Somadas as concluses de 2008 e 2009 podemos no mximo, chegar metade, o que muito pouco para a rapidez com que o PAC foi proposto.

Entre as obras inauguradas figuram at as reinauguradas para efeito junto opinio pblica. No isso que vai enfraquecer a candidatura de Dilma Roussef, a meu ver vitoriosa, sobretudo em face da vacilao e da baixa competitividade do governador Jos Serra. Ora, ele depende de Acio, ora depende de acordos regionais, como os do Rio de Janeiro. Falta afirmao a Serra. Firmeza, capacidade de luta. Sobretudo agora em que conseguiu afastar Ciro Gomes de cena, deixando isolado o ex-governador do Cear, transformando-o num simples joguete nas mos de Lula. Falta mpeto a Serra. O que sobra em Dilma Roussef.

Mas o problema entre o gesto e a palavra permanece. Governantes anunciam resultados falsos com a maior cara de pau. Mas no iludem a opinio pblica. Pode-se dizer a favor de Lula, que em seu favor existe mesmo a distribuio de 12 milhes de cestas bsicas de alimentos. No se pode fazer o mesmo quanto a conservao de rodovias, ferrovias, melhorias dos portos. No se pode dizer o mesmo do governador Srgio Cabral que, num dia cai no pranto pblico, e dois dias depois aparece sambando no meio das ruas do Rio.

Pode-se afirmar em favor de Lula e Dilma que os reajustes salariais tm pelo menos acompanhado a inflao. Quanto a Srgio Cabral, a afirmao falsa. Os 400 mil servidores pblicos do Rio vm perdendo seguidamente para o IBGE. Alis vm perdendo escandalosamente desde Garotinho e Rosinha. No meio, Benedita da Silva, que sequer pagou o dcimo terceiro salrio e foi condenada pelo Tribunal de Contas por crime de responsabilidade. Em seguida, no foi s absolvida pela Alerj quanto nomeada secretria pelo governador Srgio Cabral e se dispe a disputar o Senado.

So fatos assim que desmoralizam completamente a poltica e permitem o aparecimento de mensales, aloprados, ladres vulgares como Roberto Arruda. Antigamente no era assim. Mas, com o passar do tempo, a exceo transformou-se na regra. A regra da mentira, da hipocrisia, do assalto ao dinheiro pblico.

Veja-se, por exemplo, este caso absurdo do pr-sal. Um deputado deseja, sem a menor base, transformar o pr-sal do futuro no presente, sem medir sequer as conseqncias. A Mesa do Senado Federal, presidida pelo ex-presidente Jos Sarney, tendo como vice Garibaldi Alves, aceita uma subemenda constitucional como se fosse um projeto de lei. E no do a menor satisfao verdadeira opinio pblica. Esto pouco ligando, pois sabem que no Brasil, o gesto no acompanha a palavra.

Amanh, diro simplesmente que a emenda Ibsen Pinheiro fica para depois. No do a menor importncia ao ridculo. Ridculo o que se estende do governo federal ao governo estadual, incapaz tambm de colocar o debate no seu verdadeiro nvel. demais, a incompetncia e a desonestidade de idias aliou-se e produziu a maior contradio brasileira: o gesto e a palavra. Um desastre. Uma vergonha, como costuma dizer Bris Casoy.

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