Brasil, décima economia do mundo, é o 84º em qualidade de vida.

Pedro do Coutto

A contradição é, ao mesmo tempo, flagrante e revoltante. O Brasil, com um PIB da ordem de 2 trilhões de dólares, um sétimo do Produto americano, figura entre as dez maiores economias do mundo. Entretanto, de 187 nações, ocupa a 84ª posição em matéria de qualidade de vida. Os Estados Unidos ocupam a quarta posição.

Excelente reportagem de Fabiana Ribeiro, Henrique Gomes Batista, Marta Beck e Paulo Justus, O Globo de quinta-feira 3, focalizou nitidamente o levantamento divulgado pela ONU sobre o panorama humano internacional neste ano.
Nosso país avançou pouco de 2010 a 2011. A economia, como um todo, cresceu firme, 7,5%. Mas o avanço não se refletiu no campo social. Estamos bem atrás da Argentina, que está no 45º andar do edifício, apesar da crise que está enfrentando. Eu e Elena passamos uma semana em Buenos Aires e percebemos bem o problema.

Tanto que, depois de totalizados os votos que reelegeram maciçamente Cristina Kirchner, a Casa Rosada decretou o fim dos subsídios ao transporte e abastecimento de água, ato que vai resultar em aumento de tarifas. O corte é para reduzir as despesas em cerca de 760 milhões de pesos por ano. Ou seja: 380 milhões de reais. O governo passou a restringir a compra de moeda estrangeira. Portanto, há escassez de moeda divisionária. A cidade, contudo, permanece encantadora.

Nada encantador o panorama social brasileiro. A Educação e a Saúde são dois desastres. Acrescente-se a eles a habitação e o saneamento. Que dizer da segurança pública? A própria presidente Dilma Roussef – está em reportagem de O Globo – afirma que 16,2 milhões de brasileiros vivem em situação de extrema pobreza. Cinquenta e dois por cento, digo eu com base no IBGE, ganham até dois salários mínimos por mês. Apesar disso, na opinião do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, quem ganha até três salários mínimos pertence à classe média. Será?

Voltando ao Índice de Desenvolvimento Humano, a equação é simples e cristalina: se o Brasil é, hoje, a décima economia mundial, e se encontra na 84ª posição em matéria de qualidade de vida, é porque predomina uma brutal concentração de renda. Os resultados da evolução não chegam ao povo. Está claro. Pois caso contrário, outro seria o panorama nacional visto pela lente internacional.

Um dos fatores que mais contribuem para concentrar a renda encontra-se na corrupção, dividida, isso sim, pelas propriedades dos corruptos  incombatíveis com os números que declaram ao Imposto de Renda.

Outro fator foi o golpe contra a poupança praticado pelo governo FHC. O rendimento das cadernetas era de 6% reais ao ano. Ou seja 6 pontos além da inflação. Agora, por exemplo, as aplicações giram com 7,2% em doze meses, mas deveriam girar com 13,2 pontos.

Como recuperar o tempo perdido, para citar Marcel Proust? Impossível.

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O CÂNCER DE LULA

A doença do ex-presidente Lula, todos nós estamos desejando seu pleno restabelecimento, como aconteceu com Dilma Rousseff, de alguma forma alterou o equilíbrio do poder. Ocupantes de cargos de confiança, sentindo-se sob desconfiança, procuravam o eleitor para que intercedesse junte à eleita no sentido no sentido de que a presidente os mantivessem. Não vão mais poder fazer isso. Seria constranger ir à maior figura política do país e não obter efeito algum. Dilma teve ampliado seu raio de ações e de poder. Inclusive junto ao próprio PMDB, além, é óbvio, do PT.

A aliança que forma a base governista, como os episódios revelaram, recorria com frequência ao ex-presidente. Vai ter que esperar até sua plena recuperação, a qual vai demandar alguns meses. As previsões não dão certo na prática porque os imprevistos são essenciais à vida humana. Os fatos surgem de repente e não se pode lutar contra eles. Fazem parte da realidade.

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