Brasil precisa virar a página, antes que sobrevenha o caos

Brasil se tornou um país pilotado por uma aeromoça…

Vittorio Medioli
O Tempo

Completando a análise que publiquei na semana passada sobre perspectivas socioeconômicas de curto prazo, acrescento: medidas demagogas são uma coisa, outra, mais grave, são medidas destruidoras, como as que foram tomadas nos últimos anos, mergulhando o país no abismo da mais séria recessão de todos os tempos. As consequências estão prestes a explodir, o pior está por vir, e a onda de desemprego em decorrência da queda das atividades produtivas que atingem a arrecadação e os orçamentos de Estados e municípios poderá ser sentida já no mês de março. Desserviços e desemprego colocarão o governo a dura prova.

A presidente deixou passar os meses de recesso do Congresso para tomar medidas. Sobreviveu pela inércia gerada pelas férias, mas, já nas próximas semanas, a conta lhe será apresentada com juros e correções.

No horizonte, os sinais perturbadores de aprofundamento dos indicadores da quebra em larga escala de empresas e de demissões em massa. O fôlego para aguardar uma retomada se esgotou, as empresas estão caindo na realidade e se desfazendo de qualquer coisa que aumente o aprofundamento.

CRISE EM CASCATA

Essa situação, para muitos, foi cavada lá atrás, na década passada, mas em 2015 a inanição serviu para agravar o que já era difícil. Perdeu-se totalmente a capacidade restante de resistência de muitas empresas. Setores inteiros foram levados a cortar pela metade sua produção (como a construção civil, a siderurgia, a área automotiva) e em cascata os serviços e o comércio amplo que dependem dos mesmos.

Deixaram de tomar medidas inadiáveis e corretas ou foram na contramão da lógica, apertando o que precisa de fôlego e oxigênio.

Já com uma recessão acentuada, o governo insistiu em jogar a carga no prato errado da balança. Aquele do Brasil que trabalha e produz, sem aliviar suas despesas supérfluas. Exigindo botar a conta em quem as contas não consegue mais pagar, ao mesmo tempo em que pagou R$ 501 bilhões de serviços da dívida (R$ 180 bilhões a mais do valor pago em 2014).

POTENCIAL DESPERDIÇADO

Embora potencialmente o Brasil tenha condições que o privilegiam e o favorecem, o país consegue desperdiçá-las por via de uma elite que acredita apenas em ganhos fartos e fáceis. Falta em número e grau quem empreenda com seriedade, e sobra quem quer tirar proveito, explorar, escalar o sucesso sem outro mérito que não seja a esperteza.

A cultura imperial portuguesa de explorar até o osso, sem dor e misericórdia, é o legado que acorrenta o sistema brasileiro. Condena a enfrentarmos falências que ciclicamente arregaçam e devastam o Brasil sério.

O fim justifica o meio, os políticos nacionais perdem em credibilidade de qualquer ente institucional. As proposições que passam pelo legislativo são de péssima qualidade. Como bem lembrado num artigo de Modesto Carvalhosa, é necessário reproduzir o que explicam os analistas italianos Barbieri e Giavazzi: “A corrupção mais grave, a que mais causa dano à sociedade, não é aquela que decorre da violação das leis, mas sim a que se encontra na corrupção das próprias leis. Trata-se das leis que são corrompidas, escritas e aprovadas a favor dos corruptos contra o interesse do Estado. Isso desarma a Justiça…”.

DESCRÉDITO INTERNACIONAL

Dessa forma, com os poderes desautorizados, a falta de referências sólidas para a sociedade e de sinais de reação à gravidade se transformam em meios perversos de descrédito internacional. Levam legiões de jovens a olhar para fora, a pensar que aqui não vale a pena arriscar uma existência.

O Brasil não será uma nova Síria arrasada, mas os movimentos migratórios já alarmam. O descontentamento que tirou Cristina Kirchner do poder, e vem se repetindo na Venezuela, já se sente aqui.

A palavra impeachment se faz cada vez mais presente nas mesas que comentam a situação brasileira. A incapacidade e a falta de formulações que permitam animar alguém a acreditar no Brasil aumentam a cada dia o desânimo, a descrença.

O país caminha a largos passos para o caos, desgovernado, sem projetos, sem capacidade de gerar soluções ou de entendê-las; o poder legislativo só se interessa com o que pode ficar de vantagem para ele. Acostumado a mensalões, dá sinais de perdição definitiva. A economia nacional está se transformando em escombros, como um Muro de Berlim, destruída pela indigência moral.

SEM PREPARO ALGUM

Lamentava o imperador Marco Aurélio “a audácia de pessoas que, sem preparo algum, sem educação e sem ciência, estranhas às letras, pretendem decidir questões diante das quais, só depois de séculos, a filosofia deliberou”.

A qualidade ínfima dos ocupantes do poder calha ao Brasil atual, sentado sobre um barril de pólvora. Para pilotar o Boeing, temos uma aeromoça; na torre de controle, o desentupidor de canos. É claro que o tráfego no espaço aéreo da política brasileira não inspira confiança. Deverá, como aconselhou o profeta, “passar a vida resignado no meio de homens mentirosos e injustos, eis o programa dos sábios”, ou deixar de serem sábios e exigirem mudanças.

A praça dos Três Poderes tem tudo para virar um campo de guerra. O protesto, assim como os desempregados, deverá encher as ruas em 2016, exigindo mudanças radicais como as que ocorreram em 1985 nas Diretas Já.

O Brasil precisa virar a página, encontrar uma nova, não tem mais o que emendar na atual.

14 thoughts on “Brasil precisa virar a página, antes que sobrevenha o caos

  1. Essa foto do artigo é sensacional. Nela vemos Dilma no comando de um jato da Embraer. Mas simboliza que nós verdadeiramente a possuímos no comando deste Brasil, que é um país que vai pra frente. Nas mãos de tão hábil governanta, é claro!

    – Força na peruca, Dilma! Para o alto e avante!

  2. Meu DEUS!
    Quanta DESFAÇATEZ!
    Será que este país vai se transformar numa Venezuela de dimensões continentais?
    Não vislumbramos qualquer evidência de luz no fim do túnel.
    Essa corja de malfeitores se apossou do país.
    A mídia já informa que mais de 100.000 lojas comerciais fecharam as portas no ano passado, mais de 1.000 concessionárias e revendas de veículos fecharam as portas em 2015.
    Gigantes como Usiminas quebrada, CSN quebrada, Petrobrás quebrada e tantas outras quebradas.
    E a (des)governanta embalando os seus asseclas com cargos e pedindo para que a nação contribua com a famigerada CPFM para cobrir o rombo, ou melhor o saque perpetrado ao Estado.
    Já estamos no fundo do poço e não temos a quem nos socorrer, haja vista a podridão em que se encontra a nação.

  3. O Portão
    Roberto Carlos

    Eu cheguei em frente ao portão
    Meu cachorro me sorriu latindo
    Minhas malas coloquei no chão
    Eu voltei

    Tudo estava igual como era antes
    Quase nada se modificou
    Acho que só eu mesmo mudei
    E voltei

    Eu voltei agora pra ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei

    Fui abrindo a porta devagar
    Mas deixei a luz entrar primeiro
    Todo o meu passado iluminei
    E entrei

    Meu retrato ainda na parede
    Meio amarelado pelo tempo
    Como a perguntar por onde andei
    E eu falei

    Onde andei não deu para ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei

    Sem saber depois de tanto tempo
    Se havia alguém à minha espera
    Passos indecisos caminhei
    E parei

    Quando vi que dois braços abertos
    Me abraçaram como antigamente
    Tanto quis dizer e não falei
    E chorei

    Eu voltei agora pra ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei
    Eu voltei agora pra ficar
    Porque aqui, aqui é meu lugar
    Eu voltei pras coisas que eu deixei
    Eu voltei
    Eu parei em frente ao portão
    Meu cachorro me sorriu latindo

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