Brasil s tem 9% de analfabetos? Tem muito mais que isso

Pedro do Coutto

O Censo do IBGE relativo a 2010 timo texto da reprter Alessandra Duarte, O Globo de quinta-feira 17 apontou a existncia no pas de 9% de analfabetos entre a populao com mais de dez anos de idade. Este ndice est muito baixo. Na realidade, sente-se nas ruas, muito maior. Como dizia Antonio Houaiss, analfabeto no apenas aquele que no consegue assinar o nome. E sim quem no capaz de escrever um simples bilhete, no importando se com erros ou no de portugus.

Analfabeto igualmente quem no consegue ler e compreender direito um outro bilhete, atender um recado. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica est sendo benevolente em seu critrio de classificao. No se trata de aplicar rigor em demasia. Mas sim dimensionar exatamente a extenso do problema com o reflexo que produz no universo humano.

O analfabetismo, destacou Alessandra Duarte, atinge claro, mais fortemente as classes mais pobres, tanto no meio urbano quanto na esfera rural. Vrias investidas foram feitas no pas para diminuir o analfabetismo que, em 1940, primeiro censo brasileiro, era de 56% da populao adulta. Vem caindo. Mas no em funo de programas especiais para combat-lo na fonte, mas sim por intermdio da oferta crescente de vagas nas redes pblicas sustentadas pela merenda escolar.

Isso de um lado. De outro necessrio levar em conta que pelo menos 5% da populao no possui registro civil e assim no existe legalmente. Este nmero era bem maior h 35 anos. Eu me lembro, era diretor da LBA, quando foi presidida por Luis Fernando da Silva Pinto, e coordenei uma pesquisa nesse campo. Surgiu uma taxa de 8%. Vrios casos no Rio de Janeiro. Os que no existem, portanto, no podem aparecer nas estatsticas.

Alm disso, como se pode esperar um grau mais alto de alfabetizao funcional, digamos assim, se 52% da mo de obra ativa brasileira ganha mensalmente de um a dois salrios mnimos? Como se pode querer escolaridade maior, se um tero dos domiclios no conta com rede de esgoto? A permanncia no ensino pequena.

Menor ainda a populao universitria. So 6 milhes de jovens, correspondendo praticamente ado nmero total de habitantes.
O pas tem, em nmeros redondos, 60 milhes de domiclios. E qual a populao favelada e residente em casas rudimentares? Por tudo isso, que se deve analisar melhor a questo da desigualdade. Especialmente a de renda. Comparar o panorama com base na remunerao e no salrio mdio de um grupo e deoutro partir do princpio de que as pessoas so iguais. No so.

muito bonito destacar a desigualdade salarial. Mas os tecnocratas no incluem no raciocnio as diferenas de formao, compreenso, inteligncia e cultura. No me refiro cultura sofisticada, de alto nvel, mas apenas quela que permite que seres humanos sejam capazes de pensar. Ou ento que consigam se comunicar de forma civilizada, dando espao para, pelo menos, que as frases possam ser completadas.

A desigualdade no um fatalismo. uma consequncia do nvel de educao. No pode haver igualdade entre desiguais. O que deve se condenar a falta de oportunidade para o pleno desenvolvimento humano entre ns. Mas como? O Brasil, a ONU revelou recentemente, o 84 pas do mundo em matria de qualidade de vida.

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