Brasileiros ganham 1,5 trilhão de reais por ano e devem 2 trilhões de reais

Pedro do Coutto

Reportagem de Gabriela Valente com base nos dados do próprio Banco Central – O Globo de sábado 28 – revela que o volume de crédito no país fechou 2011 com um montante de nada menos que 2 trilhões de reais, superando em 19% o total registrado no final de 2010. Dois trilhões representam a metade do Produto Interno Bruto e, aí é que está o ponto mais sensível, supera toda a massa salarial que oscila em torno de 1 trilhão e 500 bilhões. No máximo.

A rigor, os rendimentos do trabalho humano representam 35% do PIB. O endividamento, assim, é maior do que os recursos advindos dos salários dos empregados regidos pela CLT e dos servidores públicos juntos. Na soma de 1 trilhão e 500 bilhões estão embutidos os recebimentos dos avulsos sem vínculo empregatício. É fácil conferir esses números.

Estão na reportagem de Gabriela Valente, encontram-se na memória do IBGE, situam-se nas estatísticas do BC. Sem dúvida, surpreendem e assinalam uma nítida contradição. Porém, esta contradição assume ainda maiores proporções quando nos lembramos das taxas de juros cobradas pelo sistema bancário e pelo comércio. Os menores do mercado, para pessoas físicas, pertencem à escala de 4%. Ao mês. Para uma inflação anual que, segundo o IBGE, alcançou 6,5 pontos no ano passado. Juros de 4% ao mês, atingem muito mais do que 70% ao ano.

Porém o termômetro aparente constitui uma outra questão. Não creio que o IBGE mande seus pesquisadores passarem nas farmácias e drogarias. O enigma que logicamente se coloca do quadro apresentado pelo Globo está em como a classe trabalhadora, que não está no paraíso como no filme de Lina Wertmuller, consegue girar suas dívidas dentro de uma equação tão problemática. De um lado o volume de compromissos supera o que ela recebe anualmente. De outro, estão os juros várias vezes superiores às correções salariais. Um mistério.

A rotatividade é capaz de explicar em parte. Mas não totalmente. Isso porque o movimento giratório só pode se exercer a médio prazo dentro das relações entre capital e trabalho. Não a longo prazo. Pois quanto maior for este, mais elevado torna-se o risco de inadimplência. Que, aliás, como Wagner Gomes e Paulo Justus assinalam num dos blocos da reportagem, cresceu 21% em 2011 em relação a 2010.

E olha que estou citando como exemplo os juros bancários e do comércio. Se colocarmos em questão os dos cheques especiais e dos cartões de crédito vamos parar na estratosfera: 400% ao ano.

Um aspecto contribui para a sustentação da pluma que, na música de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, precisa de vento sem parar. A queda do desemprego. O governo FHC entregou a Lula na altura de 12,3%. Veio descendo e, agora, com Dilma Roussef, chegou a 6%. Mas o contingente de empregos não se afirma por si. Para que tenha ocorrido avanço, de fato, é necessário que a média salarial tenha pelo menos se mantido.

Parece que sim. Está em 1 mil e 300 reais por mês, incluindo celetistas e funcionários públicos federais, estaduais e municipais.É verdade que o conceito de dinheiro como mercadoria não perecível mudou. Se alguém hoje pode pagar os juros, tanto faz, para o banco, seja ele devedor antigo ou qualquer outro que ainda não iniciou seu crédito.

Trata-se, portanto, de um processo elástico. Mas tudo tem um limite. Vejam os leitores o exemplo do subprime nos EUA. E o caso do endividamento da Grécia.

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