Buracos criminosos

Carlos Chagas

Não dá para a Humanidade declarar guerra à Natureza, pois esta ganhará sempre. Certas de suas manifestações tornam-se impossíveis de evitar, como terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, tempestades e tufões. No Brasil, vivemos um período de derrota diante das chuvas de verão, tornando-se impossível pretender que os aguaceiros não caiam, que barreiras não desabem, barragens não se rompam e rios não inundem terra firme. Remediar seus efeitos será sempre possível, assim como prevenir danos, impedindo por exemplo a instalação de casas e casebres no alto e nas encostas de morros prontos para desfazer-se, ou dragando e evitando a poluição de rios, entre outras iniciativas.

Frente às maldades da Natureza não devem prevalecer o conformismo e a rendição. Importa resistir e recomeçar. Mas quando os males devem-se a nós mesmos, quer dizer, à Humanidade, só haverá uma reação: pau nela, ou melhor, naqueles que pela ação ou omissão contribuem para maximizar as consequências das tragédias.

Exemplo melhor não haverá do que contemplar os buracos e crateras abertas em progressão geométrica nas nossas rodovias, avenidas e ruas, em todas as regiões onde caem as chuvas. Não há uma cidade onde não se note, aos milhares, a precariedade das entranhas do asfalto. Nesse particular, não há que nos acomodarmos à fúria do céu. Os buracos se multiplicam porque a pavimentação foi criminosamente mal executada. Quando a torrente leva um trecho qualquer de estrada surge a prova material da desídia das empresas encarregadas do asfaltamento. Apenas centímetros de camadas que, pelos contratos, deveriam ter sido solidamente implantadas em decímetros e até metros. Claro que tudo aconteceu com a conivência das autoridades encarregadas de autorizar e fiscalizar as obras.

Deveria o poder público cobrar esse crime, responsabilizando empreiteiras grandes e pequenas que faturaram milhões na execução de lambanças como as que as chuvas vem revelando aos montes. Não parece difícil identificar os culpados. Basta abrir os arquivos, sejam, do ministério dos Transportes, do Dnit, de secretarias estaduais e municipais. Lá estarão os responsáveis, os que falsamente executaram e os que matreiramente contrataram. Pelo menos isso os governos estão devendo, quando nada para que nos trabalhos de reconstrução se busquem empresas sérias, comprometidas em evitar a vergonha dos buracos abertos às primeiras chuvas.

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SISTEMA FINANCEIRO ESMAGA O SOCIAL

Vamos olhar para fora. Hoje na Grécia, mas durante o ano passado em boa parte da Europa, a ameaça é de suspensão de créditos para o enfrentamento da crise econômica. Não apenas os governos da Alemanha, da França e da Inglaterra, mas o Banco Central Europeu e a União Européia anunciam o estrangulamento do fluxo de euros caso o governo de Atenas não avance ainda mais no aumento de impostos, redução de salários, cortes de investimentos sociais e, acima de tudo, na promoção do desemprego. Começa que os recursos advindos desse massacre nem sairão dos porões dos bancos estatais e privados em Berlim, Paris e Londres. Ficarão onde estão, como garantia do pagamento das dívidas gregas, claro que acrescidos dos juros respectivos.

Em suma, a “ajuda” servirá para ajudar o sistema financeiro do Velho Continente, incapaz de arcar com um mínimo que seja dos efeitos da crise. Com o agravante de terem sido, eles mesmo, em grande parte responsáveis pela própria crise. O que pretendem, com mais essa rodada de ameaças, é garantir-se e capitalizar-se, ainda que às custas das populações sem a menor responsabilidade nas dificuldades econômicas, mas obrigadas a pagar por elas.

Onde se lê Grécia, leia-se Irlanda, Portugal, Espanha, Romênia, Bulgária, Sérvia e quantas outras nações dependentes desse pérfido sistema financeiro.

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OS DOIS FERNANDOS

A presidente Dilma estancou as ilações e as especulações referentes à degola de dois Fernandos de seu ministério, o Pimentel, do Desenvolvimento Industrial e o Bezerra, da Integração Nacional. Deixou claro não pautar-se pelas denúncias da imprensa, ainda que nos casos anteriores, mesmo prestigiando os acusados, não quis ou não conseguiu salvar o pescoço de Antônio Palocci, Wagner Rossi, Pedro Novais, Alfredo Nascimento, Orlando Silva e Carlos Lupi.
Entre outros fatores, Pimentel, por ser amigo fraterno, e Bezerra, em nome da aliança com o Partido Socialista, não caíram e provavelmente não cairão.

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DEMOCRACIA À BRASILEIRA

Sobral Pinto, saudoso e eterno professor de democracia, havia sido preso em Goiânia, acusado de subversivo e conduzido à força para um quartel em Brasília. Lá estavam presos Carlos Castello Branco, Octacílio Lopes e Martins Rodrigues. O coronel Epitácio, comandante da guarnição, num ato de gentileza, convidava seus hóspedes para todas as noites jantarem em sua companhia, no restaurante dos oficiais.

Lá, pontificava, sob o silencio dos demais. Falava muito sobre o Brasil, o regime militar e as novas concepções institucionais dos detentores do poder. Certa vez falava da “democracia à brasileira”, modelo que previa a suspensão dos direitos humanos, a limitação do Congresso e o estrangulamento do Judiciário.

O velho Sobral não se conteve e explodiu: “Olha aqui, coronel, o que existe é o peru à brasileira, que estamos comendo agora, com farofa. A democracia prescinde de adjetivos, é uma só e universal. Não tem nada a ver com essa que o senhor sustenta.”

Essa historia se conta a propósito da nova democracia do PT, que nas preliminares das eleições para as prefeituras de todo o país, quer aliança com o PMDB, mas oferecendo para os aliados as vice-prefeituras. Os companheiros parecem seguir as lições do coronel Epitácio…

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