Campeão de voto e amigo do Papa

Sebastião Nery

Foi senador pela primeira vez em 50, pelo PSD-PSB. A UDN dizia que, apesar de advogado, não tinha cultura para representar no Senado a Paraíba, um Estado de forte história cultural, como o telúrico José Américo, criador do romance regionalista, em 28, com “A Bagaceira”.

Enquanto os adversários falavam em “problemáticas”, toda sexta-feira ele pegava um vôo internacional no Rio, descia em Recife, ia de carro para João Pessoa, chegava direto aos comícios:

– Paraibanos, estou vindo do Rio pelo Constellation da Panair do Brasil!

Era o grande avião da época, sonho de viagem de cada paraibano.

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COMÍCIO DE CAMPANHA

A UDN, com quem ele disputava, tinha o apoio dos comunistas. Rui esteve na Europa, voltou, foi fazer o primeiro comício da campanha:

– Paraibanos, estive em Roma com o papa. Ele me disse: “Rui, meu amigo, se destruírem meu trono aqui no Vaticano, como já aconteceu outras vezes, sei que tenho um amigo lá na Paraíba. Vá, dê lembranças a dona Alice e diga ao povo que estou com você.

Ganhou. E se reelegeu senador em 58, ainda pelo PSD, e em 66 e 74, pelo MDB. Já tinha sido deputado de 35 a 37 e interventor da Paraíba de 40 a 45. Em 65, depois do golpe, foi candidato a governador pelo PSD-PTB-PSB, contra João Agripino, da UDN, que ganhou, embalado pelo poder militar.

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QUATRO VEZES SEGUIDAS

Há campeão de tudo, futebol, Fórmula 1, tênis, natação, até cuspe a distância. O campeão de mandatos do País na história do Senado, desde o Império e o começo da República, em 1889, foi ele, Rui Carneiro, com quatro mandatos seguidos de oito anos, sempre no voto.

Nem Rui Barbosa, que foi senador de 91 a 23, quando morreu. Nem Pinheiro Machado, de 1894 até ser assassinado em 1915. Ou Vitorino Freire, também senador, direto, no voto, de 47 a 70, três mandatos. Só agora Pedro Simon está se igualando a ele.

Deputados, há Manoel Novais, da Bahia, que foi deputado de 46 a 86, dez mandatos diretos. Vivos, Rubem Medina, do Rio, deputado de 66 a 2002, nove mandatos. E Paes de Andrade, do Ceará, de 62 a 98, também nove mandatos (fora três estaduais, de 50 a 62).

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FAMÍLIA, DIVINA

Em 60, Juscelino presidente, Janduí Carneiro, o irmão deputado, queria disputar o governo. Rui, presidente e chefe do PSD, sabia que ele perdia:

– Você não tem condições políticas nem dinheiro para a campanha. Nosso candidato deve ser o José Joffily, que traz o apoio do PTB, do PSB, das esquerdas e vence tranqüilo, com o apoio do Juscelino e do Jango.

Janduí insistiu, disse que o dinheiro arranjava, saiu candidato contra Pedro Gondim, que uniu UDN, PTB, PSB e partidos nanicos e ganhou.

As contas da campanha ficaram para Rui pagar. Já bem depois do golpe de 64, um dia o ex-ministro Abelardo Jurema, chegado do exílio no Peru, o ex-deputado Bernardo Cabral, o ex-prefeito de Campina Grande, Ronaldo Cunha Lima e eu, todos cassados, almoçávamos no restaurante Yanque, no centro do Rio, que queimava de calor, quando entra o senador Rui Carneiro.

– O que é isso, compadre, vem de onde, cansado e suando assim?, perguntou Abelardo, que já tinha sido suplente de Rui do Senado.

O senador cumprimentou um a um, sorrindo, puxou uma cadeira, pôs a mão suada no ombro de Abelardo e disse baixinho, mas dava para ouvir:

– Compadre, continuo, ainda hoje, vários anos depois, renovando e pagando os títulos da campanha do Janduí. Compadre, família é uma instituição divina. Se não fosse, ninguém aguentava.

E almoçou conosco. Em um minuto, já tinha esquecido os bancos.

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