Candidatos em busca de uma definição

Carlos Chagas

Décadas atrás, discuta-se nas sucessões presidenciais se o país necessitava mais de ordem, liberdade ou progresso. Os rótulos mudaram, os debates passaram a girar em torno de segurança, democracia ou desenvolvimento. Mas sempre foi a mesma coisa, ainda que nem por prometer um, dois ou três desses valores, os candidatos apresentassem vontade ou condições para realizá-los.Com as exceções de sempre, é claro, pois tivemos presidentes capazes, entre outro tanto de sofríveis.

Hoje, as cartas estão embaralhadas, assim como os candidatos. Qual a proposta de Dilma? A continuidade de seu governo e do governo do Lula, com a preservação do bolsa-família e demais programas assistencialistas, além de uma pitada de tolerância para com as manifestações de rua verificadas desde junho. No item do progresso ou desenvolvimento, destacam-se os obstáculos à abertura da economia, os impasses ao Plano de Aceleração do  Crescimento  e às dificuldades da iniciativa privada em integrar-se às ditas oportunidades abertas pelo governo.   Se há um objetivo na conquista do  segundo mandato, é o de deixar as coisas como estão, sem qualquer novidade. Ao eleitorado será dado concordar ou descobrir, nos outros candidatos, propostas capazes de empolgar um pouco mais. Só que o vazio permanece entre eles.

Aécio Neves oscila entre as dificuldades de demonstrar que os tucanos, quando no governo, muito realizaram  no plano social,  e a defesa de uma política econômica indefensável praticada por Fernando Henrique, favorável às elites e indiferente às massas.  O ex-governador de Minas não se encontrou, até agora. Falta-lhe uma  característica  maior. O avô já apresentou  o restabelecimento da democracia e da liberdade, não dá para repetir.

Na hipótese hoje improvável de José Serra vir a ser o candidato do PSDB, de que forma empolgará a população? Até agora, ignora-se, como ignoraram os paulistanos que deixaram de votar nele para prefeito. Aparecer como um segundo Fernando Henrique não dá, mais pelo desgaste do ex-presidente, menos pela  deterioração do modelo neoliberal.

Marina Silva dispõe de mensagem própria, muito parecida com o samba de uma nota só, identificada pelo cidadão comum como ambientalista. Muito pouco  se resolverá, no Brasil, pela preservação das florestas, a interrupção de projetos em condições de prejudicar o meio-ambiente e, se quiserem, um combate mais acirrado à corrupção e à impunidade. A pré-candidata tem poucos dias, uma semana no máximo, para conseguir o registro de seu novo partido junto ao Tribunal Superior Eleitoral. Não parece fácil, mas ainda que consiga, suas armas são fracas para um desempenho eficaz. Também ela necessita ampliar sua marca registrada.

Eduardo Campos, até prova em contrário, inscreve-se para atuar no ensaio-geral de 2014, mas de olho  na apresentação da peça  em 2018, quando enfrentaria outros atores sob um novo script. Sua proposta até  agora  não surgiu, exceção de ser um bom governador, em Pernambuco,  e de  andar tentando seduzir as forças conservadoras do Sudeste.  Apesar de presidir o Partido Socialista,  foge da ideologia, ironicamente também ao contrário do avô. Dele não se ouvem sugestões para agilização da combalida reforma agrária. Nem para outras reformas de base.

Em suma, são todos candidatos em busca de uma definição e um programa.

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