Candidatura do Lula

Carlos Chagas

A entrevista do ex-presidente Lula  à revista New Yorker foi concedida antes de descoberto o câncer que ele tem na garganta. É fácil concluir que seu estado de espírito era um, depois ficou outro. Mesmo assim, quando indagado se disputaria outra vez a presidência da República, ele ficou em cima do muro, claro que com óbvia tendência de pular para o lado da candidatura: “não tenho coragem de dizer que vou concorrer, como não tenho coragem de dizer que não vou concorrer.” 

Até o diagnóstico incômodo o Lula  colocava nas mãos de Dilma Rousseff a decisão, quer dizer, deixava a presidente de saia justa, sabendo que quando chegasse a hora  ela devolveria o raciocínio:  “Se você quiser voltar em 2014 eu não disputarei a   reeleição”. Seria  a resposta natural  e leal da criatura que chegou ao palácio do Planalto exclusivamente por ato de vontade do criador.

 Agora,  tudo depende do tratamento a que o primeiro-companheiro se vê submetido, bem como de sua recuperação.  Talvez não repita mais o conceito exposto  aos jornalistas americanos, de considerar-se um ser eminentemente político. Pode estar concluindo que antes de político,  é um ser humano. Toda doença faz o doente repensar sua vida, mesmo depois de recuperado.

O Lula já não será tão candidato quanto era. A disposição de voltar ao poder talvez não o sensibilize como antes. Seus  valores serão outros.

Como a vida é sempre mais estranha e fascinante do que a ficção, vale ressaltar que a presidente Dilma passou pela mesma situação do antecessor. O câncer também a acometeu, não constituindo obstáculo para sua eleição. Supõe-se que tenha, da mesma forma, meditado sobre  a própria  existência.  Mais quatro anos seria sacrifício necessário à sua biografia?

Em suma,  acima e além de ambições, de arroubos e de estoicismo, abre-se uma pausa na prospecção do futuro.

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UNIDOS OUTRA VEZ

Rússia e China só estiveram unidos por pouco tempo, depois da vitória da revolução do presidente Mao. Rapidamente desfez-se a aliança socialista, chegando as duas nações a preparar-se para uma guerra que por sorte não se deflagrou. Mas permaneceram,   desde os tempos de Kruchev, numa pax armada plena de diatribes e insultos.

Pois agora a situação é outra, gerada desde o fim da União Soviética e da  transformação da China em potencia  mais ou menos capitalista. As  diferenças são enormes, ainda que lentamente se aproximem no plano político.

China e Rússia acabam de condenar a agressão da Otan ao Paquistão, como antes haviam condenado a interferência na Líbia. Leia-se terem os governos de Moscou e Pequim enviado um alerta a Washington, pois a Otan nada mais é do que uma fachada dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, se não apóiam o regime dos aiatolás, no Irã, também não formam no grupo que prega a invasão daquele país. Muito pelo contrário.

Acrescente-se a concentração de forças russas na Síria, sinal evidente de que o mundo ocidental pensará duas vezes antes de promover o bombardeio de Damasco. 

Arma-se um novo quadro na política mundial. É bom prestar atenção.

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O TERTIUS USA BIGODE

Renan Calheiros não esconde o desejo de voltar à  presidência do Senado e já trabalha para isso, ainda que falte muito para  o biênio 2013-2014. Eis que surge outro candidato, também do PMDB: o senador Garibaldi Alves, hoje ministro da Previdência Social mas preparado para a reforma ministerial de janeiro. Da mesma forma que Renan, ele já presidiu a casa. 

Prenuncia-se uma briga de foice em quarto escuro no âmbito do partido, unido apenas na disposição de não ceder a presidência ao PT,  num suposto rodízio no qual ninguém mais acredita.

Para evitar o racha, procura-se um tertius na bancada. Aliás, ele já existe e usa bigode. José Sarney pode candidatar-se a mais dois anos, conforme o regimento interno. Vai recusar?

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APESAR DAS NEGATIVAS, PODE SER ELE

Nem são necessárias pesquisas. Está no ar que a gente respira a conclusão de que José Aníbal, Andréa Matarazzo, Bruno Covas, Ricardo Trípoli e João Dória Júnior perdem a eleição para prefeito de São Paulo, qualquer deles que venha a ser candidato. Encontra-se o PSDB numa arapuca, da qual apenas se livrará com um nome: ele mesmo, José Serra. Apesar de suas negativas, cresce entre os tucanos a evidência de que só o ex-governador terá chances de bater os concorrentes.

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