Carandiru, depois de 20 anos, me lembra Attica (Nova Iorque) há 42, em 1971. O governador de São Paulo, Luiz Fleury, disse que não deu ordem, não sabia de nada, no cargo teria dado. Nelson Rockefeller, governador de Nova Iorque, com o massacre, perdeu a chance de ser candidato a presidente em 1972.

Helio Fernandes

Tudo em Carandiru é estranho, incompreensível, principalmente pelo fato de terem deixado passar 20 anos. O massacre é inominável, condenação total e irreversível do sistema penitenciário do Brasil.

Mônica Zarattini/19.02.2001/AE

Há pouco tempo, o ministro da Justiça (do PT, “fazendo hora” para assumir uma vaga no Supremo) afirmou com toda razão: “Se eu fosse condenado a prisão, com o sistema penitenciário que existe no Brasil, preferia morrer”. Nenhuma restrição.

111 mortos é assustador por si mesmo. E ainda mais pelo fato de estarem sob a guarda do estado. Foi um assassinato oficial, os responsáveis poderia até ser presos em flagrante, mesmo que estivessem distantes do local desse crime brutal. 20 anos decorridos, Carandiru ainda é notícia, embora os mandantes estejam mortos, ou em liberdade ampla, geral e irrestrita.

O PRIMEIRO JULGAMENTO

Pouco tempo depois do massacre, parecia que não haveria impunidade. O coronel Ubiratan Guimarães, comandante da tropa da PM que entrou na penitenciária, foi a júri, condenado a 600 anos (isso mesmo, 600 anos, embora o máximo no Brasil seja de 30), recorreu, o Tribunal de Justiça absolveu-o.

Passado algum tempo, o coronel foi assassinado, o que fazer? O que acontece muito no Brasil: tudo arquivado.

Surpreendentemente, embora os envolvidos e o próprio cidadão-contribuinte-eleitor acreditassem que “processo arquivado” é processo morto, Carandiru ressuscitou. E com investigações que não foram feitas no momento adequado.

O DEPOIMENTO DE FLEURY

Depois de deixar o governo, se elegeu várias vezes deputado, nunca mais falou ou lhe perguntaram qualquer coisa sobre o massacre. Convocado agora para depor, foi muito confuso, embora não tivesse mentido. Como revelou (?) que não teve nada com o massacre, provada e comprovada sua inocência, poderia ter ficado em silêncio.

Continuou falando, citou o secretário de Segurança Pública, Pedro Franco de Campos, como o “homem que autorizou a operação policial”. Não explicou, no entanto, como um secretário, mesmo de Segurança, tinha autoridade, autonomia e independência para deflagrar uma operação como essa. Sem a autorização, não teriam acontecido os 111 assassinatos.

Fleury ainda reforçou a sua “ausência” do episódio, garantindo: “A responsabilidade política da operação é minha, a responsabilidade criminal cabe aos jurados determinar”. Muito confortável. Qual a diferença entre responsabilidade POLÍTICA e CRIMINAL?

AFIRMAÇÕES DO PASSADO

Ha 20 anos, ainda no cargo, foi publicado com declaração do governador: “”A operação foi criminosa”. 20 anos depois, quem se lembra de quem afirmou o quê? Depondo, o ex-governador negou que tivesse dito isso. E concluiu: “A minha Polícia nunca se omitiu”. Que peso tem isso num julgamento 20 anos depois?

De qualquer maneira, 26 policiais estão sendo julgados pelo HOMICÍDIO de 15 presos. Como morreram 111 presos, quais são os responsáveis pelos outros 96 HOMICÍDIOS? Podem ter morrido de ENFARTO, assistindo todo esse crime revoltante, mas sem autores, mandantes ou responsáveis.

PS – O julgamento está se realizando no Fórum de Barrafunda. Em 1923, o jovem Alcantara Machado (que morreria logo depois, com 28 anos) escreveu um livro, com o título “Braz, Bexiga e Barrafunda”. Eram três bairros inexpressivos, vazios, desabitados, hoje, depois de 90 anos, altamente povoados.

PS2 – Seu pai, Alcantara Machado, aristocrata por formação, vocação e convicção, eleito deputado federal, disse em discurso, abertamente, o que se dizia veladamente: “Orgulhoso, declaro, paulista sou, de 400 anos”. Panfletaram, promoveram, transformaram em realidade.

O MASSACRE DA PRISÃO DE ATTICA, NOVA IORQUE:
EM 1971: HÁ 42 ANOS, O GOVERNADOR ROCKEFELLER
ORDENOU “ATIRAR PARA MATAR”

As características, inteiramente diferentes, mas criminosas e revoltantes, com a participação incontestável do governador, três vezes eleito. Como o sistema penitenciário dos EUA é igualmente cruel e desumano (todos são), houve revolta dos presos. Fizeram 10 reféns, entre altos funcionários carcerários.

Pânico geral. os presos achavam que obteriam melhores condições no dia a dia. os que dirigiam Attica (das maiores prisões dos EUA), consideravam que os presos recuariam, endureceram e não negociaram.

Foram vários dias de tensão e incerteza, o governador, do palácio da capital, Albany (quase ao lado do seu palacete, um verdadeiro museu histórico, não conheço nenhuma “residência” tão extraordinária), passou a comandar tudo, de forma dura e sem concessão.

“ATIREM PARA MATAR”

Revoltado (por quê?) depois dias de espera e irritação, chamou o comandante da guarda do presídio e o diretor, foi taxativo: “Acabem com isso, atirem sem contemplação, para matar”. As ordens foram cumpridas, vinha de autoridade maior e de viva voz.

Usando metralhadoras, foram atirando diretamente para onde estavam os líderes da revolta e os reféns. Mataram 39 pessoas, incluindo os 10 reféns, que como eu disse aqui eram altos funcionários da prisão. Menos mortos do que em Carandiru, mas repercussão fantástica, no mundo todo.

CONSEQUÊNCIAS IMEDIATAS

Rockefeller continuou no cargo, pretendia disputar a indicação presidencial para 1972, um ano depois. Mas como pertencia ao Partido Republicano (do presidente Nixon), iria perder, mesmo sem o clima desfavorável por causa do desastre de Attica. desistiu.

Nixon ganhou fácil em 1972, tomou posse em 20 de novembro do mesmo ano, só que já muito desgastado pelas denúncias iniciais do assalto ao Edifício Watergate. Para não sofrer impeachment, renunciou a mais 2o meses de mandato, em troca do perdão para o resto da vida.

ROCKEFELLER RESSUSCITA

Sem presidente e sem vice (Spiro Agnew renunciara também para ganhar a impunidade total), os EUa pela primeira tiveram um presidente e um vice não eleitos. (Mesmo no caso dos presidentes assassinados, assumia o vice).

O presidente então foi Gerald Ford, presidente da Câmara. Assumiu e de acordo com a Constituição, convidou para vice o próprio Nelson Rockefeller, que não era mais governador, mas continuava bilionário.

Ficariam até 1976, Ford sabia que não ganharia nenhuma eleição. Rumores fortíssimos diziam que havia “acordo financeiro volumoso”, pelo qual na sucessão de 1976 apoiaria Rockefeller para presidente.

Mas quando o Partido Democrata lançou Jimmy Carter, de um estado pequeno (Georgia), que vivia praticamente da produção de amendoim, Ford chegou para Rockefeller e disse: “Acabou o acordo, desse eu ganho”. Não ganhou. Carter ficou só quatro anos, em 1980 perdeu para Reagan.

Ator canastrão, delatou atores, roteiristas e diretores para o Comitê de Investigação Anticomunista do Senado, conhecido como “comissão McCarthy”. Até Chaplin teve que voltar à Inglaterra, Como presidente, Reagan ficou 8 anos, saiu com 81 por cento de popularidade e aprovação (apesar do atentado que quase o matou).

PS – Attica foi fechada, Rockefeller desapareceu, as famílias dos 10 altos-funcionários-reféns entraram na Justiça, o processo foi rapidíssimo. O juiz chamou o caso de “assassinato covarde e premeditado”. Determinou as indenizações justíssimas, fez duas afirmações:

PS2 – “Se não houvesse indenização, os diretores das prisões poderiam repetir os crimes”.

PS3 – Acrescentou: “Lamento que a lei não me permita condenar pessoas a pagarem a indenização. mas o estado também é responsável”.

PS4 – Os advogados procuraram as famílias dos 29 presos também assassinador, entraram na Justiça. Outro juiz, mas com o mesmo espírito e convicção, mandou pagar indenizações às 29 famílias. indenizações razoáveis, embora menores (ligeiramente) do que receberam as famílias dos altos funcionários .

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