Carpeaux, um gênio, humilhado e ofendido no Correio da Manhã

Pedro do Coutto

O título deste artigo, que escrevo com admiração e emoção, claro, aproveita o do romance de Dostoievsky. E o tema parte de texto primoroso de Jerônimo Teixeira, publicado na Veja que circulou sábado e se encontra nas bancas, sobre o relançamento da admirável história da Literatura Ocidental, um verdadeiro monumento legado à cultura por Otto Maria Carpeaux.

Foi o maior editorialista da imprensa brasileira, austríaco de origem, antinazista, que escapou por pouco de ser morto pelas forças de ocupação de Hitler. Não o encontrando em Viena, a SS matou seu pai e sua mãe, arrastados pelas ruas. Carpeaux jamais desejou tocar neste trágico desfecho. Nosso relacionamento era extremamente cordial e eu o vi escrevendo a obra, depois revisando-a, na redação do Jornal, sem recorrer a uma anotação sequer, sem visitar qualquer arquivo.

Perguntei a ele que me respondeu tocando a mão na testa: “Tudo que sei está na memória”. A emoção de lembrar faz o resto. Era um homem enciclopédico, mas cuja produção era claríssima. Era não, é. Pois o que construiu está aí para o presente e o futuro. Suas obras são eternas como a arte. Entre elas a “História da Música”, de 62 a 63, iniciaria um ciclo de humilhações que sofreu no jornal que amava. E dignificou de forma intensa e apaixonada.

Entre seus artigos inesquecíveis, destaco “Rei Sem Lei”, contra Carlos Lacerda, quando em 61 cercou e, apoiado por militares, buscou censurar o Correio da Manhã. No mesmo ano, “Informação aos Chefes Militares”, que tentavam impedir a posse de João Goulart, fechando a trilogia “Coragem, Senhores”, cobrando a investidura do presidente constitucional do Brasil pelo Congresso.

Existe ainda outro, definitivo em termos históricos. No episódio da queda de Jango, em 64, ele Carpeaux, completaria magistralmente a série “Basta e Fora”, com um pequeno artigo que continha uma previsão fatal: “Basta: Fora a Ditadura”. Um gênio absoluto. Quem começasse a ler um texto seu não conseguia parar e, ao se aproximar do final, lamentava que fosse acabar.
Imortal a página que escreveu para a Folha de São Paulo sobre Kafka, de quem foi amigo.

Mas no título deste artigo disse que ele foi humilhado e ofendido no Correio da Manhã. Começou em 62. Antonio Moniz Viana, lacerdista exacerbado, havia assumido o cargo de redator chefe no lugar de Luiz Alberto Bahia, que resistira à investida editorial de Lacerda. Carpeaux escreve um artigo sobre Wagner. Moniz Viana obstruiu a publicação do autor da “História da Música”. Niomar Moniz Sodré, que havia demitido Bahia, demite também Moniz Viana.

Numa articulação feita por Jorge Serpa Filho, muito forte em sombras financeiras, com a participação de José Luís Magalhães Lins, é nomeado para dirigir o jornal Jânio de Freitas. O artigo sem conseguir sair. Carpeaux estava na redação discutindo sobre música com José Gomes Tinhorão. Jânio passa no Petit Trianon e diz: “Carpeaux não perca tempo discutindo com Tinhorão, você é um historiador de música universal”. Carpeaux diz: “Nem tanto no Correio da Manhã”.

Jânio de Freitas, que caminhava para sua sala, retorna, e, com uma régua na mão, bate na mesa e descompõe Carpeaux. Mas as humilhações maiores estão reservadas por Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues. Niomar demite Jânio de Freitas. Assume Peralva a direção e Newton Rodrigues a redação. Partem obstinadamente para humilhar e escorraçar Carpeaux. Terminam conseguindo. Afastam-no dos editoriais.

Carpeaux se demite. E Niomar, que não conseguia deixar de demitir algguém, demite Newton Rodrigues. Depois em 65, demitiria Antonio Calado e Carlos Heitor Cony. Deixo esses episódios registrados. Talvez sejam úteis para a história. Faltava um, de que agora lembro. Nomeio de sua hostilidade a Carpeaux, algo sórdido, de parte de Moniz Viana. Em sua coluna de cinema, inventa um filme: “Otto, o Louco”. E, no início do regime militar, diz que se tratava de um espião nazista que se tornou comunista. Moniz Viana sequer levou em conta a morte, por massacre, dos pais de Carpeaux, pelos nazistas, nas ruas de Viena. Esta nota infame acrescenta-se à humilhação e à ofensa.

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