Carta a Bento XVI

Santidade,

Na condição de integrante do Povo de Deus, externo minha discordância com a abdicação de Sua Santidade ao Trono Petrino. Tem ele como ordenamento a palavra de Cristo no Evangelho de Mateus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” (16:18). Todas as palavras e ações de Cristo são as de Deus, nosso pai e criador, através de seu Filho unigênito. Tudo é sacro. Tudo é verdade. Tudo é salvífico. E tudo é eterno e misterioso. Foge ao domínio e à compreensão humanas. De Cristo, não há uma palavra solta, sem significado divino e nem um gesto que não seja de igual e poderosa ordem.

Predecessor de Vossa Santidade, o Bem-Aventurado João Paulo II assevera, com veemência, toda essa fragilidade humana diante dos mistério que partem de Deus: “Estamos cientes dos graves limites devidos à debilidade congênita da razão humana…” (Enclíclica “Fides Et Ratio”, Setembro de 1998, nº 75).

O mandato que o Papa dele é investido e para o qual é eleito é mandato transcendental, metafísico, sobrenatural. Não se subordina à vontade, percalços e caprichos do mandatário.Tudo emana do Mandante. É missão divina, pura, sacra e somente extinguível com superveniência da morte. É mandato insusceptível de abdicação, de suspensão temporária, de cassação, de renúncia e de abandono voluntários. Somente o Mandante dele pode dispor. E Mandante é o Divino Espírito Santo. É Deus, conforme pregou seu filho Jesus ao se dirigir a Pedro.

Por maiores que sejam as dificuldades e embaraços para o desempenho deste sacro múnus, Sua Santidade assumiu o dever de enfrentá-los, mesmo sob o peso da idade que o passar do tempo fez somar e que não chega a ser tanta assim. Mesmo nas enfermidades, até mesmo na insanidade. Este foi o compromisso assumido de livre e espontânea vontade, no ano de 2005, do alto dos seus 78 anos de idade, na Capela Sistina, na presença de seus Eleitores, face à Humanidade e diante de Deus.

Quando os cardeais se reuniram em Conclave, eles se despojaram da condição humana para serem veículos da vontade divina, manifestada pelo Divino Espírito Santo que neles encarnaram, em suas mentes e em seus corpos, para que o desígnio de Deus fosse cumprido. Daí a razão da entoação, pelos cardeais, antes de cada reunião, do milenar cântico “Veni, Creator Spiritus, Mentes Tuorum Visita…Accende lumen sensibus, Infunde amorem cordibus, Infirma nostri corporis, Virtute firmans perpeti”.

E o Divino Espírito Santo os ouviu e atendeu. Materializou-se em cada mente e penetrou em cada corpo do colégio de cardeais e seus punhos escreveram na cédula “Eligo Sumu Pontifice meum, Cardinalis Ratzinger”.

Se aquele ou aqueles outros papas renunciaram, ao longo da história, tanto não se constitui precedente para a renúncia de Bento XVI. Descer da cruz, jamais. É verdade que o Código de Direito Canônico de 1983 permite a renúncia do papa (cânone nº 332, parágrafo 2º). Mas esta é a lei dos humanos, que falham em face do sacramento que Cristo instituiu ao eleger Pedro como alicerce da sua igreja. É lei que conflita com os Mandamentos de Cristo: Sacerdos In Aeternum, Pontífice Ad Aeternum. Non, Pontífice Ad Tempore.

Sua renúncia anunciada, Santidade, já abriu e abrigará grande chaga no seio da Igreja de Cristo, justo por não ser este o desígnio de Deus, infundido no Conclave que o chamou a suceder Pedro e sobre quem Jesus criou a sua igreja, com a advertência de que “as porta do inferno não prevalecerão contra ela”, como se lê em Mateus (16:18).

Sua abdicação abre as portas , que Jesus fechou e cujas chaves a Pedro entregou. Com sua renúncia, perde-se o sucessor de Pedro e, com ele, as chaves da igreja. Antevê-se um espinhoso caminho para reencontrá-las e, com elas, fechar as portas que Jesus confiou, fechadas, ao primeiro predecessor de Sua Santidade. Agora, a barca de Pedro está à deriva.

Mas ainda há tempo. Arrependa-se. Diga a Deus e ao Povo de Deus que o Papa continuará à frente do Trono Petrino. Que o Papa é uno, enquanto viver. Que o Papa é responsável pelo divino encargo que aceitou assumir. Que o Papa quase sucumbiu, mas ergueu-se a tempo. Não será gesto de fraqueza, mas de altivez, engrandecimento e sublimação. Gesto a gosto de Deus. Gesto de sumo bem. A humanidade assim quer, assim deseja, assim espera.

De Vossa Santidade, seu humilde fiel em Cristo,

do Rio de Janeiro para a Santa Sé, em 19 de Fevereiro de 2013.

Jorge de Oliveira Béja

(advogado no Rio de Janeiro, Brasil)

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