Carta a um amigo palestino

Jacques Gruman

Hala ya sadiqui,

Não tenho bem certeza, mas acho que foi em Jenin que nos vimos pela primeira vez. Será que estou errado ? Era 2002 e aquele campo de refugiados palestinos tinha sido devastado por uma incursão militar israelense. Constatamos, horrorizados, que lá jaziam os escombros do Teatro da Liberdade, o Freedom Theater. A dor e a indignação uniram nossas almas e, de repente, estávamos tomando um chá de hortelã e lembrando de Arna Mer-Khamis, a visionária que se entregou, completa e siderurgicamente, àquele teatro.

  Arna foi um grande exemplo

Arna era um furacão. Judia, nascida em Israel e casada com um árabe cristão que conhecera na militância política, mergulhou no projeto de dar voz às crianças palestinas. Desterradas, humilhadas, sem direito à infância, filhas assustadas do exílio forçado, sufocadas pela ocupação militar de sua terra ancestral. Caramba, tive o privilégio de vê-la em ação!

Seu Teatro da Liberdade, que construiu com o dinheiro que recebeu de uma espécie de prêmio Nobel alternativo, fervia naquela tarde. As crianças, se não me engano, encenaram uma pequena fábula e, ao final, cantaram uma música com letra forte, engajada, em que perguntavam: “Por que as outras crianças podem ser felizes e nós não ?”. Em seguida, num árabe fluente e veemente, Arna disse: “Queremos liberdade, mas ela não existe sem conhecimento”. Já estava na fase terminal do câncer que a matou e tinha forças para ser muitas. Comentou que uma criança disse para ela: “Você tem cara de velha”. “Sim”, respondeu, “sou mesmo velha”. “É”, cutucou sabiamente o pirralho, “mas tudo o que você faz não tem nada de velho”.

Das ruínas do teatro demolido pelas tropas de ocupação, Juliano, filho de Arna e que se considerava “100% israelense e 100% palestino”, reconstruiu aquele palco libertário e prosseguiu o trabalho lúdico-político, que ele considerava, com razão, uma forma criativa de resistência contra a ocupação. Ano passado, foi assassinado em frente ao seu teatro por palestinos sectários, que não entenderam o caráter revolucionário do trabalho da família Mer-Khamis.

Sei que você nasceu em Jenin, pouco depois da criação do campo, em 1953. Deve ter sido horrível, amigo, passar a infância sob o domínio do medo e da falta de perspectivas. Sua família, como muitas outras, foi expulsa de uma das mais de 400 cidades e aldeias palestinas destruídas em 1948 pelo nascente exército de Israel. Lembro de uma foto que você me mostrou de sua avó, segurando uma chave. Era a chave da casa onde morava toda a família, cercada por oliveiras seculares e impregnada pela memória de gerações. A mesma casa que agora era entulho e dor.

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JUDEUS

Habibi, no século XV os judeus foram expulsos da Península Ibérica pelas monarquias católicas. Saíram às pressas (os que ficaram, foram convertidos à força ou queimados pela Inquisição) e as avós daquele tempo levaram na bagagem as chaves de seus lares. Elas passaram de geração em geração. Muitas ainda existem, evocando nostalgia e histórias da convivência fecunda com os muçulmanos durante a dominação moura na Europa. Nos meus sonhos, avós palestinas e judias abrem as portas do diálogo, armadas apenas com as chaves de sua história.

São tempos duros. O ódio, o fanatismo e o ressentimento são muito populares. Está muito difícil descobrir brechas nos muitos muros que separam israelenses e palestinos. Gosto da parábola que o Isaac Deutscher criou para descrever a origem de toda essa confusão. Reproduzo na íntegra as palavras desse intelectual marxista e judeu: “Uma vez um homem pulou do último andar de uma casa em chamas, onde muitos membros de sua família já haviam morrido. Ele conseguiu salvar a vida; mas, na queda, acertou uma pessoa que estava embaixo e quebrou os braços e as pernas dessa pessoa. O homem que pulava não tinha escolha; mas para o homem com os membros quebrados ele foi a causa do infortúnio.

Se os dois se comportassem de modo racional, não iriam se tornar inimigos. O homem que escapou da casa em chamas, tendo se recuperado, teria tentado ajudar e consolar o outro sofredor; e este último poderia ter percebido que foi vítima das circunstâncias sobre as quais nenhum dos dois tinha controle. Mas veja o que acontece quando essas pessoas se comportam irracionalmente. O homem ferido culpa o outro por seu sofrimento e jura que vai fazê-lo pagar. O outro, com medo da vingança, o insulta, chuta e espanca sempre que se encontram. O homem chutado jura vingança de novo e é de novo socado e punido. A inimizade amarga, tão ridícula a princípio, endurece e chega a obscurecer toda a existência dos dois e a envenenar suas mentes”.

Nem todos, e você sabe muito bem disso, saem por aí dando chutes e alimentando ciclos de violência, usando tacapes vendidos por terceiros, eminências pardas com interesses de rapina. E aqui é hora de lembrar de alguns pioneiros, que enxergaram as fronteiras ilimitadas da loucura militarista e da negação do Outro.

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OS PIONEIROS

Marek Halter, artista plástico nascido em Varsóvia pouco antes da Segunda Guerra Mundial, conseguiu escapar do Holocausto. Radicou-se em Paris e, depois de 1967, quando o movimento nacional palestino ganhou força e musculatura política para reivindicar a construção de um Estado soberano, foi o responsável pelas primeiras conversações entre israelenses e palestinos.

Encontrou-se com lideranças da resistência palestina e chocou-se quando viu que a raiva e o ressentimento as faziam dizer que o genocídio de judeus pelos nazistas era um mito. A mesma sandice que hoje é repetida pelo presidente do Irã. Procurou, com paciência, mostrar que a legitimidade da causa palestina não os eximia de reconhecer uma verdade traumática de outro povo.

A Halter se seguiram tantos outros. Uri Avnery, os movimentos e organizações que tratam de criar pontes entre os dois povos e lutam pelo fim da ocupação de terras palestinas. Na aldeia de Budrus, a resistência civil pacífica, que colocou na mesma barricada palestinos e israelenses, derrotou o projeto do governo israelense de passar parte do muro que separa a Linha Verde da Cisjordânia por dentro da aldeia. Isso destruiria oliveiras e dividiria o cemitério local em dois.

Uma ONG israelense, Zochrot (que quer dizer Memória em hebraico), faz tours por lugares onde, antes de 1948, existiam aldeias e cidades árabes. Dão nomes aos bois, ou melhor, revelam os nomes originais daqueles lugares. Há um caminho. Melhor: muitos caminhos.

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SEM LUTA ARMADA

No início deste ano, Marwan Barghouti, um dos mais destacados líderes do Fatah preso em Israel, divulgou um chamado que considero da maior importância. Apelando para a unidade dos palestinos, falou que não há mais espaço para a luta armada, nem para a cooperação do presidente Abbas com Israel e seus serviços de segurança, uma vez que esta não tem sido capaz de suspender a expansão das colônias ilegais. Barghouti convoca uma resistência civil popular em larga escala, usando todas as formas pacíficas e políticas, internas e externas, de luta contra a ocupação. O jornal israelense Haaretz publicou, em cima do laço, um editorial sintomático: “Ouçam Marwan Barghouti”.

Houve época em que sequer se reconhecia a existência de um povo palestino. Não foi o que disse a senhora Golda Meir, nos anos 70 ? Para ela, amigo, você era um espectro, um nada. Semana passada, escrevi para nosso amigo israelense que não tenho fórmulas – quem sou eu, primo ? – para resolver esse conflito que já derramou oceanos de sangue e atrasou por décadas o inevitável encontro entre os povos palestino e israelense, condenados a viver no mesmo território.

No início da Beatlemania, em 1964, quando o Fab Four excursionou pela primeira vez nos Estados Unidos, um jornalista perguntou ao Lennon: “Como você explica tudo isso ?”. John não titubeou: “Nós não temos a menor ideia. Se tivéssemos, juntaríamos quatro rapazes cabeludos e nos tornaríamos seus empresários”. Nesta altura do campeonato, acho que a solução de dois povos, dois Estados, que emanou dos Acordos de Oslo, está moribunda, cada vez mais parecida com uma pavana para um projeto morto. Espero que se evolua para um Estado único, binacional e laico, com direitos e deveres iguais para todos. Não sei se isso é possível, mas é um espelho do meu desejo.

Se você tiver paciência e conseguir passar pela malha de barreiras militares que te irritam diariamente, eu e nosso amigo israelense estamos te esperando para jogar conversa fora. Abatendo um bom falafel e tomando um chá de hortelã. Discutindo, claro, mas se respeitando.

Um abraço e as-salaam aleikum.

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