Carta-aberta de um compositor e cineasta aos exmos. srs. cidadãos das leis, do governo, dos plenários e que tais.

Sergio Ricardo

Desculpem a fala rude de um modesto compositor popular, mas a mim me parece estar assistindo ao filme de uma grande farsa, onde não só o dinheiro fala alto, mas o caráter do enredo.

Reclamando de uma postura ao grupo de amigos, com profunda vontade de moralizar nossa realidade autoral, me dizia um colega. Tudo Bem, Sergio, mas nós estamos no porão do navio e eles estão na primeira classe. Isto por eu ter argumentado que quando as empresas defendem seus direitos, por mais tempo que levem para atingir um resultado, são muito mais rapidamente atendidas que as reivindicações de uma classe que há anos vem esperando a sua concretização.

O caso do CADE versus ECAD, me parece a gota d’água.  Um órgão do governo multando uma empresa privada desonesta é compreensível. Mas conseguir reverter a situação e fazer o bandido virar vítima, ou é muito descuido ou desatenção.

Aproveitando-se da oportunidade, pequena parte da classe artística, dentre os quais ingênuos ou coniventes, tomaram as dores da vítima, esquecendo-se ou relevando seus crimes, em temor aos seus dividendos que haveriam de se somar para o pagamento da multa milionária. E principalmente pelo novo racha provocado na classe já tão desunida, favorecendo uma entidade sem a menor moral.

Realmente uma aberração, considerando não só o montante da conta, como a clareza de que ela não sairia a não ser do bolso dos artistas. Que paradoxo absurdo! O governo cobrando do artista o dinheiro que o Ecad teria que desembolsar para cumprir a pena sem sequer consultar o artista?

Então como é que fica essa história? Estaria o governo trocando as bolas? Não foi por acaso o próprio governo, através da CPI do direito autoral, quem detectou as irregularidade do Orgão e aconselhou uma fiscalização, além de nominar os malfeitores pedindo sua condenação? Não seria este o primeiro passo, neutralizando as investidas da gang? Porquê essa atitude estapafúrdia de saltar uma etapa, para atender as exigências dos viajantes na primeira classe ? Esta decisão é mais premente que as reivindicações dos que estão no porão do navio? Não lhes passa pela cabeça que são estes que terão que desembolsar a quantia astronômica que estão cobrando?

Não posso acreditar que seja o propósito do governo, qualquer que seja o argumento, aproveitar-se de uma situação como esta para puxar dividendos para seus cofres, do bolso miserável dessa cultura em frangalhos que não tem direito nem de conquistar seus direitos. Isto é uma ofensa contra a cultura desse país que tem na música a construção de nossas almas, de vossas almas, a quem devemos. por obrigação moral,  preservar e coloca-la em seu verdadeiro pedestal e não levá-la à desmoralização à que chegou. Lembrem-se que foram embalados por nossas canções, que grande parte de sua alegria é devida ao nosso canto. Respeitem seu tesouro. Não lhes devemos nada. Vocês é que nos devem.

Não esperem um motim neste navio. Porque se o fizéssemos não seria com armas, nem leis. Seria apenas com o nosso silêncio. Vocês morreriam de tédio, mas o povo não esqueceria nossa voz. (texto enviado por Sergio Caldieri)

 

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One thought on “Carta-aberta de um compositor e cineasta aos exmos. srs. cidadãos das leis, do governo, dos plenários e que tais.

  1. Problema sério desses profissionais de música que, por infelicidade, adquiriram convicções absorvidas de ideologias ao longo de sua trajetória no ofício. Muitos deles, inclusive o em pauta, começaram fazendo música a partir de suas entranhas. Era uma música natural e algumas até muito bonitas. Agradavam. Com elas poderiam ganhar dinheiro, pois a maioria do publico que não é boba só compra aquilo que agrada aos sentidos. Eu faço parte desta maioria.
    Música e artes plásticas têm que agradar pelo som ou pelo visual. E ponto final. O resto é a velha e boa malandragem produzida pela mente para escravizar os incautos. Coisa mental. Papo cabeça. Mentira pura.
    Uma corrente de profissionais nestes ofícios acham que música ou artes plásticas é para a salvação da humanidade. Coisa prá cabeça. Essa mesma que fica em cima do pescoço. Se fosse prá cabeça lá de baixo até que compensava. mas não é. Com isso esquecem a melodia e se dedicam aos discursos de salvação do planeta. A música então não agrada, pois o profissional agora acha que fazer música bonita é alienação. Resultado, ninguém compra e o fim é esse. Ficar chorando miséria.

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