Carta pública e aberta de Jorge Béja para Merval Pereira

Ilustração reproduzida do Google

Merval,

Faz anos e anos que nos conhecemos. Não, pessoalmente, mas por correspondência e contatos telefônicos. Teve um dia que você me comoveu e me encantou. Foi no dia 12 de fevereiro de 1996. Naquele dia, segunda-feira, você telefonou para meu escritório. Como responsável pela Editoria Rio do jornal O Globo, você me perguntou se a matéria, de página inteira do dia anterior (domingo, 11.2.1996, página 32), intitulada “O Algoz de Michael Jackson, Madonna, Zefirelli…”, que a repórter Regina Eleutério tinha feito comigo durante a semana, contando minha vida como pianista e advogado de causas rumorosas, se a matéria estava exata, se continha erro e, caso contivesse, seria corrigido. Respondi que não.  Que não tinha a menor inexatidão. A matéria, de 6 colunas, página inteira, com minha foto no centro da página, medindo 19cmX17cm, estava inteira, verdadeira e completa. E muito agradeci seu gesto nobre e incomum.

Desde então e até hoje, com o advento da internet, nos correspondemos por mensagens e-mails. Sabe você que sou um apaixonado pela Ciência do Direito, mesmo sem deixar a música num segundo plano. E os artigos que escrevo e publico há anos na “Tribuna da Internet” e, mais recentemente, também no “Jornal da Cidade Online”, volta e meia mando o artigo para você, depois de publicado. E você sempre me responde, ou agradecendo, ou concordando ou discordando. Mas responde.

FIDALGUIA – Nossas relações, eu de leitor da sua coluna e você das que escrevo, sempre primaram pela fidalguia, pela ética, pela verdade, tal como aconteceu naquele 12 de fevereiro de 1996. Afinal, você é um exemplar e talentoso jornalista. Ao tomar assento na Academia Brasileira de Letras, se imortalizou mesmo, de verdade.

Mas hoje, terça-feira, dia 18 de julho de 2017, você me causa enorme decepção. Ontem, à tarde, enviei para você o artigo de minha autoria que a “Tribuna da Internet” e o “Jornal da Cidade Online” publicaram sexta-feira passada, 14 de julho, intitulado ” Recurso contra condenação de Lula pode ser julgado ainda este ano pelo TRF4 de Porto Alegre”.

No artigo, pioneiramente e sem que ninguém antes tivesse levantado esta questão neste país inteiro, demonstrei que Lula, por ser pessoa idosa (71 anos), tem preferência na tramitação do recurso no TRF de Porto Alegre.

PESSOA IDOSA – E no artigo defendi que Lula nem precisava pedir a prioridade, visto que se tratava de norma de ordem pública, cogente, imperativa e indisponível nos feitos criminais. No artigo cheguei a escrever que o recurso quando chegasse no tribunal receberia um carimbo  “Pessoa idosa”, na capa do processo e/ou nos registros eletrônicos, independentemente da vontade ou de requerimento de Lula. Tudo por causa do Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) que trata de privilégio na tramitação do processo, que defendo ser automático nos feitos criminais, a contrário dos feitos cíveis, quando o idoso precisa pedir a prioridade.

Pois bem. Lendo hoje (terça-feira, 18.7.2017) sua coluna no O Globo, intitulada “O fator Lula”, lá no final você aborda o assunto do artigo que enviei ontem para você. E você escreveu assim: “Há, porém, um detalhe em outra legislação que pode apressar o processo: Lula, sendo réu idoso, com idade acima de 60 anos (tem 71 anos), tem prioridade pelo Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) na tramitação dos processos. Esse “privilégio” é automático, não precisa ser pedido pela defesa… será preciso saber em quanto tempo essa prerrogativa dos idosos vai reduzir o prazo de tramitação do processo de Lula”.

CITAR A FONTE – Ora, meu Deus, não seria ético pelo menos citar a fonte que pioneiramente alertou sobre este despercebido tema referente à idade de Lula e a prioridade na tramitação do recurso? E esta fonte foram duas: a “Tribuna da Internet”, comandada pelo jornalista Carlos Newton, que é seu amigo, o admira e que também republica seus artigos do O Globo (publica, cita o nome Merval Pereira e o jornal O Globo) e o Jornal da Cidade Online, do jornalista José Tolentino, gerado de Passo Fundo, Rio Grande do Sul. Nem precisava citar meu nome, ainda que o tema tenha sido suscitado no meio jornalístico somente por mim e o artigo tenha sido de minha autoria.

A notícia que você publica hoje na sua coluna, caríssimo Merval, é nova para seus leitores. Não, para os leitores dos dois blogs para os quais redijo, assino e envio artigos, quase todos jurídicos e abordando temas atuais. E você não publica notícia já divulgada, também chamada de “velha”, pelos jornalistas.

CONTINUO LEITOR – Mas nem essa sua grave falta me leva a deixar de ler você no O Globo. Já somo 71 de idade, dos quais 45 dedicados à advocacia no Rio de Janeiro, sempre defendendo vítimas de tragédias, de erros médicos, do mau atendimento hospitalar, na defesa dos dinheiros públicos, de famílias de presos assassinados nos presídios, muitas delas levadas até meu escritório pelo inesquecível Tim Lopes. Este sim, mandava as famílias até lá, eu fazia as ações, vencia, nada cobrava e depois Tim me ligava e agradecia. Você, Merval, nem isso fez. Que pena! Que surpresa! Que decepção!

Em 1969 ou 1970, não me recordo bem, eu era repórter e redator da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. E o diretor do rádiojornalismo, José de Anchieta Távora, me mandou até o Hotel Glória entrevistar o maior filósofo-pensador que o mundo conheceu: Jidu Krishnamurti. Fui. Levei o gravador. E na suíte dele, sentado ao seu lado, perguntei: mestre, responda-me numa só palavra o que é ética? Ele ouviu, fixou o olhar no chão do quarto por uns 2 minutos, voltou a olhar para mim e respondeu: “Honnêteté”. Após, perguntei: e em duas palavras?: “Honnêteté, honnêteté”, respondeu. Tenho até hoje esta fita. É uma relíquia, tal e qual aquela página do O Globo, de 11.2.1996.

Sim, a honestidade, que engloba um mundo de gestos nobres dentre eles a fidalguia e a gratidão, é mesmo questão de Ética.

15 thoughts on “Carta pública e aberta de Jorge Béja para Merval Pereira

  1. Merval Pereira deverá pensar e muito, na forma como se desculpará ao dr.Béja depois desta reprimenda em público!!

    Eu não queria estar no lugar do jornalista da Globo, pois imagino que não basta apenas pedir perdão, que deverá vir acompanhado de outros detalhes.

    Enfim, esse é o risco que se corre quando a vaidade profissional extrapola a ética, exatamente conforme mencionado pelo célebre advogado ao final deste seu artigo, a honestidade profissional, que não será humilhada ou perderá seu valor, se as fontes forem devidamente citadas, pois, pelo menos, o autor se mostrou cuidadoso e pesquisador com a referência original!

    Meu apoio e solidariedade ao nosso caro e eminente dr.Béja, tanto pela injustiça sofrida quanto pelo descaso de o seu nome ter sido omitido pelo jornalista em questão.

  2. Admiro sobremaneira os artigos do advogado Béja. Não obstante o deslize cometido pelo jornalista Merval, entendo que a reprimenda, após os preâmbulos do artigo do adv. Béja, foram um tanto grosseiros, considerando seu estilo. Para mim, leitor de ambos, ficou a nódoa.

  3. Prezado amigo Dr. Béja, tenho admiração e amizade pelo senhor. Ética, como o senhor sabe, vem do grego ethos, que significa caráter, atributo ausente nos serviçais do clã mafioso. Confira o senhor mesmo nesse link que trata de erro grosseiro do indigitado jornalista relativo à notícia falsa veiculada no Globo sobre o ex governador Brizola.

    http://www.tijolaco.com.br/blog/merval-quem-e-servil-nao-pode-entender-soberania/

    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/caiotuliocosta/1989/11/1520851-por-que-silvio-reboca-unanimidade-nas-criticas.shtml

    A propósito, em decorrência disso, Brizola deu o depoimento cujo link segue abaixo.

    https://www.youtube.com/watch?v=mjthRokW-3o

  4. Os dois personagens, reclamante e reclamado são profissionais exemplares e modelos cívicos, não deixem que nódoa alguma, mesmo legitimamente humana, empane vosso brilho.

  5. Boa noite,
    Se é lei, não cabe nem alegação de desconhecimento.
    Como o próprio dr. disse, se ninguém lembrar, o sistema eletrônico lembra.
    Por que tanta vênia … Não entendo…
    Se o que vale mesmo é a aplicação efetiva do dispositivo. E em ultima analise… CANA mesmo.
    Vlw

  6. Dr. Béja,
    Dê um desconto pros desatinados da Globo… estão totalmente perdidos.
    O Merval só opina (concordando) com os outros paus mandados da Globo News.
    Todos querendo segurar o emprego…
    O Brasil? Bem, o Brasil que se dane!!
    As opiniões dos jornalistas são tão mornas que é entediante ver o patético programa.
    Os caras não mostram nenhuma indignação do que está ocorrendo.
    Só se indignam contra o enlameado Temer.
    Tudo muito low profile!
    Tudo muito ensaiado.
    Parece novela das oito…
    Atenciosamente

  7. Jiddu nunca apagaria os comentários de ninguém, por serem contrários a suas convicções. Não é mesmo senhor Bèja?

    Não quis ser líder espiritual pois acreditava que o que servia como caminho correto para ele, não obrigatoriamente serviria a outras pessoas.
    Cada indivíduo deve encontrar a sabedoria que o conduzirá, com harmonia, por sua trajetória de vida…
    Exemplo de desapego material que resulta em sabedoria universal, Krishnamurti.

    sanconiaton

  8. Apagaram meu comentário. Ele não foi acintoso a ninguém. Simplesmente discordei da posição do senhor Beja, embora o admire muito, por achar que sua coluna não constituía furo de reportagem, mas simplesmente uma constatação do efeito de uma lei. Ao final critiquei a Academia Brasileira de Letras por achar que essa instituição não tem significado algum nos dias de hoje.
    Se ofendi, desculpem-me. Vou continuar a ler a TI, mas nunca mais comentarei o que quer que seja aqui.
    “Do good, be well and keep up with the good work”. Bye bye.

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