Casa Civil de Dutra a Lula, centro nervoso dos governos

Pedro do Coutto

De Eurico Dutra, eleito na redemocratizao de 45, a Lula da Silva, eleito em 2002 e reeleito em 2006, passando especialmente por Vargas, Juscelino, Mdici, Ernesto Geisel, Joo Figueiredo, e o atual presidente da Repblica, a Casa Civil constituiu-se e se constitui no mais importante centro nervoso dos governos. Provavelmente pela intimidade com o poder maior, talvez pelo fato de seus ocupantes terem acesso irrestrito s salas do Planalto, e sobretudo porque se transformam em homens e mulheres que sabem demais, como na obra de Alfred Hitchcock.

Agora mesmo, como a Folha de So Paulo publicou na edio de sexta-feira, o triste episdio Erenice Guerra causou perda de pontos de Dilma Rousseff no Paran, em Braslia, e na Bahia. As quedas mais fortes ocorreram em Braslia e no Paran. Ela mantm a frente, porm com diferenas setoriais maiores. No panorama geral, sua vitria permanece assegurada: tem 51 a 27. No h dvida. Entretanto a margem pode cair se a repercusso do desastre chamado Erenice Guerra se prolongar. Vejam s. No Paran, Dilma desceu de 46 para 41 pontos. Em Braslia, de 51 para 43. Na Bahia, de 59 para 57. O fantasma Erenice Guerra causou efeitos concretos. Nome-la foi um erro de Lula e da prpria Dilma Roussef. Afinal de contas, a ministra agora afastada produziu um dos maiores escndalos da histria poltica do pas.

Mas eu falava na importncia e na extrema sensibilidade que envolve o desempenho da chefia da Casa Civil. O avesso do avesso como na cano de Caetano Veloso. O jurista Pereira Lira comandava o posto no governo Dutra. Era homem de total confiana , centralizador. Absolutamente ntegro, um homem rigoroso, a nica crtica que lhe era dirigida repousava exatamente na centralizao excessiva. Mas foi um governo sem crises.

Em 50, Dutra apoiou Cristiano Machado, deputado pelo PSD, contra Getlio que retornava triunfalmente ao palco , e viu seu candidato chegar em terceiro lugar, atrs portanto de Vargas e do brigadeiro Eduardo Gomes. O chefe da Casa Civil de Vargas foi Lourival Fontes, cuja atuao foi considerada pssima pelos dirigentes partidrios e pela prpria famlia Vargas. Eleito em 55, JK, atendendo indicao do jornalista Paulo Bitencourt, diretor proprietrio do Correio da Manh, jornal politicamente mais influente da poca, nomeou o escritor e jornalista lvaro Lins, um dos maiores editorialistas da imprensa brasileira. Mas lvaro Lins (no confundir com o deputado cassado pela Alerj) deslumbrou. Convocava reunies ministeriais para traar normas, teve que deixar o cargo. Terminou rompendo com o Correio da Manh, jornal em que trabalhava. Procurado por Niomar Moniz Sodr, mulher de Paulo Bitencourt, no Palcio do Catete, a deixou esperando por mais de duas horas. Burrice incrvel. Ingratido tambm.

O general Mdici teve o professor Leito de Abreu no posto. Honesto, adotou porm o estilo Pereira Lira. Desgostou a quase todos. No s sabia, mas era o homem que mandava demais. No governo Ernesto Geisel, o poder do chefe da Casa Civil, general Golberi do Couto e Silva, atingiu o mximo. Golberi, como revela a obra monumental de lio Gspari, que foi seu amigo e recebeu a guarda de seus arquivos, transformou-se no Cssio de Jlio Cesar, pea famosa de Shakespeare. Passou a gravar todas conversas do presidente, recorrendo ao SNI, que chefiara no passado, em busca de fazer a histria no futuro. As gravaes no ficaram s no Palcio, mas se estenderam residncia particular de Geisel. Este morreu sem saber o que se passava. Permaneceu no governo Joo Figueiredo, mas foi derrubado na crise da bomba no Riocentro. Queria que o Exrcito punisse os verdadeiros responsveis.

Os mesmos que, tambm em 81, explodiram as rotativas e incendiaram o prdio da Tribuna da Imprensa. No conseguiu. Demitiu-se. Melhor dizendo: foi demitido. Chegamos a Jos Dirceu. Este merece um captulo especial. Foi demitido no desastre do mensalo, teve o mandato parlamentar cassado. Com isso a perspectiva de ser presidente da Repblica, em vez de Dilma Rousseff. Jogou fora o que parecia ser o seu destino. Atravessamos o perodo Dilma Roussef, que o substituiu, e chegamos finalmente a Erenice Guerra. Fim da linha. Ela desembarcou tristemente do que se pode chamar de expresso da vitria. No deixa saudade.

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