Casamento na roça

Sebastião Nery

Campanha eleitoral no Nordeste é como casamento na roça antigamente: quem não montava a cavalo não ia à festa. João Cleofas, 76 anos, duas vezes derrotado para o governo de Pernambuco, tirou uma foto bonita montado a cavalo, todo esbelto e saiu para senador contra Marcos Freire em 74.

Dormia cinco horas por noite, levantava-se às 6h30, atendia filas de gente no escritório da Arena em Recife, distribuía bolsas de estudo, telhas para cobrir casas, cartões para receitas médicas e saía para o interior fazendo comícios. Dois meses de guerra. A Arena entrou em pânico, sentindo a derrota a cada passo. Argemiro Pereira, deputado da Arena, lamentava: “Minha mão murcha se eu pedir voto para o dr. Cleofas”.

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CLEOFAS

O governador nomeado, Moura Cavalcanti, ia de dedo no nariz:

– Quem não votar no Cleofas não toma cafezinho no palácio.

Cleofas esperneava, montado nas fotos e ameaçando de dedo duro:

– Marcos Freire é um agente da contestação. D. Helder é comunista!

E o povo, nas esquinas, dava gargalhadas inventando histórias:

Cleofas foi fazer comício em frente à estatua de Maurício de Nassau: – Povo do meu tempo! Nassau respondeu: – Fala, Cleofas!

Abriram o túmulo de Duarte Coelho, estava lá o apelo: – Votem em Cleofas! Esse menino vai longe!

Lívio Valença, deputado do MDB, definiu o estrago que Marcos Freire estava fazendo nos redutos oficiais:

– Soltaram a onça no chiqueiro dos bodes.

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PESQUISAS

Eleição é sempre assim. Cada um soltando sua onça no chiqueiro dos bodes. Não adianta dizer que ainda é cedo, que faltam quase seis meses  para as eleições e que pesquisa que vale é a da véspera. É verdade, mas não é toda a verdade.

Os políticos ficam agitados com a publicação das primeiras pesquisas sobre as eleições de outubro para prefeito e vereador, porque sabem que a primeira pesquisa, antes da campanha, do horário gratuito do rádio e da TV, dos marqueteiros, reflete o que o povo já pensa dos candidatos.

Quando a campanha começa, o povo também começa a mudar. Mas sempre a partir dessa base inicial, que é o pensamento popular sedimentado, sem campanha. A pesquisa repercute tanto porque é a onça no chiqueiro dos bodes.

A partir da pesquisa, nada será como antes. Cada um vai se mexer, fingindo não dar importância, mas armando esquemas, abrindo o chiqueiro.

Outra lição da sabedoria popular sobre pesquisas: é como lobisomem de novela. Ninguém acredita mas todo mundo abre a janela para ver se há alguma coisa suspeita rondando pela madrugada.

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