Casas são assaltadas na Rocinha, apesar da ocupação policial

Paulo Peres

Não foi apenas a loja da Ricardo Eletro a ser assaltada na Rocinha na madrugada dessa terça-fera. Casas também foram. Aliás, casas e moradores vêm sendo assaltados sistematicamente desde que o traficante Nem e seus comparsas foram expulsos da favela no mês passado. O clima é de muito medo, segundo o relato de uma moradora, empregada doméstica na zona sul do Rio de Janeiro. Moradores fechados a sete chaves e apavorados dentro de suas casas.

Ocupações de favelas têm limitações e consequencias nocivas. A ideia de que, as ocupações policiais nas favelas do Rio de Janeiro dominadas pelo tráfico acabariam com a violência, é totalmente fantasiosa, capaz de produzir consequencias nocivas de mascarar a realidade da cidade, segundo Marcelo Burgos, professor e coordenador da área de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.

“Um diagnóstico mais realista não significa desaprovação à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), mas, sim, colocar essa política no plano em que ela realmente precisa estar. Tem que se deixar claro que a UPP é um avanço no domínio territorial, mas tem suas limitações”, explica.

De acordo com o professor, “as ocupações de favelas por forças de segurança pública, como a que ocorreu na Rocinha e nas 13 favelas que formam o Complexo do Alemão, na zona norte da cidade, no início do ano, fazem parte da estratégia do governo de dominar os territórios do tráfico. No entanto, esbarram na impossibilidade de se ter uma política universalizada de segurança e que produza efeitos a longo prazo”.

Na opinião de Marcelo Burgos, esse diagnóstico sobre a função das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) é importante para que não se ignore os demais fatores geradores de violência. “Por ter um caráter focado no território, elas desconsideram o aumento do conflito e da brutalidade em outros pontos da cidade, como a Zona Oeste, e da região metropolitana, como Baixada Fluminense. Além disso, a migração de traficantes é desconsiderada. O que vemos são ocupações em determinadas áreas e pessoas sendo atingidas por balas perdidas e morrendo, no mesmo dia, em outras comunidades”.

Burgos compara a UPP a uma imobilização para curar uma fratura, um “gesso” que terá que produzir transformações nas comunidades ocupadas em determinado tempo . “A UPP é como gesso. Durante um determinado tempo, esse policiamento ostensivo assegura um ambiente mais pacífico. Mas se esse processo de ocupação não ocorrer, significará a desmoralização das UPPs. É preciso ter consciência de seu caráter emergencial.”

Para Michel Misse, professor de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu) da UFRJ, ” essas modificações precisam significar ganhos sociais para a população. Caso contrário, enfatiza, não haverá mudança no quadro de violência do Rio de Janeiro. Essas áreas precisam ser integradas à cidade como bairros. Para isso, é necessário abrir avenidas. Isso leva à necessidade de se fazer desapropriações e de se pagar indenizações corretas para os moradores que serão obrigados a sair de suas casas.”

Misse se mostrou cético em relação à disposição do governo em ampliar esses ganhos. “Pelo que o governo tem feito em relação às famílias desapropriadas nas aberturas de avenidas para obras de mobilidade urbana, com vistas à Copa do Mundo e às Olimpíadas, não tenho visto disposição em fazer isso. São desapropriações malfeitas que têm gerado conflitos. O governo não paga um valor justo para realocar essas famílias. Em algumas áreas isso tem gerado conflito.”

O professor da UFRJ também destaca a necessidade de políticas de formação para jovens moradores das favelas. “Além de entrar com policiais, é preciso ter políticas profissionalizantes para jovens, como as que já existem em determinadas comunidades, tocadas pelo governo ou mesmo por organizações não governamentais (ONGs)”.

Todavia, alguns especialistas advertem que algumas ONGs não merecem credibilidade, porque há denúncias que elas pactuam, inclusive, dos famosos acordos divulgados pelo Hélio Fernandes, entre o corrupto governador Sérgio cabral e os traficantes, razão pela qual, as ONGs deveriam ser melhor fiscalizadas por autoridades que não fossem subordinadas ao governador.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *