Caso da juíza assassinada em Niterói tem todos os ingredientes de um romance policial.

Carlos Newton

Quase sempre, quando algum juiz é vítima de atentado, as suspeitas recaem sobre os réus condenados por ele, especialmente no caso de quadrilhas do crime organizado. Mas no atentado à juíza Patrícia Acioli, assassinada na madrugada de sexta-feira em Niterói, há todos os ingredientes de um romance policial, incluindo cenas de sexo, amor e ciúme.

Os jornais divulgam que, ao depor no dia 25 de março de 2011, a juíza contou à Corregedoria Interna da Polícia Militar que o principal motivo do fim do relacionamento com o cabo da PM Marcelo Poubel Araújo, com quem viveu maritalmente por cinco anos, foi a ingerência do militar nos processos que ela julgava sobre “autos de resistência” – execuções sumárias camufladas pelos policiais após troca de tiros. Ela declarou que Poubel “defendia os colegas de farda”.

A juíza disse que Poubel era submetido, desde 2006, a tratamento psiquiátrico e psicológico, pois desenvolvera trauma após sofrer “profunda antipatia dos colegas de farda” no 7º BPM (São Gonçalo), onde era lotado. A origem desta hostilidade seria a atitude da juíza, como ela própria descreveu, ao condenar policias militares envolvidos com grupos de extermínio. Porém, no mesmo depoimento, ela admitiu que Poubel passou a discordar das sentenças contra PMs.

Este depoimento faz parte de uma sindicância aberta na 2ª Delegacia de Polícia Judiciária, subordinada à Corregedoria, para apurar as suspeitas de agressão corporal, invasão de domicílio e ameaça de morte praticadas pelo cabo Poubel, no dia 2 de fevereiro, contra a juíza e o então namorado, o inspetor penitenciário Dayvid Eduardo Nunes Martins. Poupel teria entrado na casa da juíza, em Piratininga, e surpreendido os dois no quarto.

Dayvid começou a namorar a Patrícia em janeiro e, nessas condições, compareceu ao gabinete da magistrada, no dia 2 de fevereiro, atendendo a uma intimação assinada por ela à chefia do inspetor, para que testemunhasse no processo que investiga a morte de Alexandre Thome Ivo Rajão, jovem de 14 anos massacrado por um grupo supostamente rival em São Gonçalo.

Depois do depoimento, o inspetor foi para a casa da juíza, onde foram surpreendidos e atacados pelo cabo Poubel. Esta agressão só chegou ao conhecimento da polícia por iniciativa do inspetor penitenciário. No boletim de ocorrência, Dayvid relata que Poubel, após invadir o quarto, tomar-lhe a arma durante briga corporal e obrigar o casal a ficar de joelhos, passou a agredi-los com socos e chutes, além de “puxões de cabelo” na juíza.

Em depoimento no dia 5 de fevereiro, o inspetor contou que o militar ameaçara “sufocar Patrícia com um saco plástico, pois sabia que ela tinha pavor desta prática”. Poubel, segundo o relato do inspetor, também teria se deitado na cama e apontado a arma para a porta, supostamente para forjar uma troca de tiros antes de matar o casal.

O inspetor fez exame de corpo de delito. Ele foi atingido no maxilar, nas costelas e teve o nariz quebrado. Conta que, desde então, tem medo de continuar morando em São Gonçalo. Mesmo depois desse grave incidente, Patrícia voltou a viver com o cabo Poubel, que desde 2007  foi colocado à disposição dela pela PM, para fazer segurança, e tinha uma mesa no gabinete da juíza, onde comparecia fardado. Não saía dali nem nas conversas mais reservadas.

Conhecida por ser linha-dura, Patrícia, de 47 anos, condenou mais de 60 policiais nos últimos dez anos de atuação. Ela ingressou na magistratura em 14 de dezembro de 1992. Antes de ir para a área criminal, trabalhou no Juizado da Infância e da Juventude. Desde 1999, estava à frente de centenas de processos na 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, agindo principalmente no combate a milícias, grupos de extermínio e máfias do transporte alternativo e do óleo (o grupo roubava combustível de navios). No início da carreira, quando foi defensora pública, ela já teria sofrido um atentado.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *