Há sempre alguém que espera Godot, como o irmãozinho Foucauld

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O Tempo

Conheci um homem que fez de tudo na vida. Dizem que foi ateu e marxista e que chegou a ser mercenário da Legião Estrangeira francesa, tendo atirado com arma de fogo contra muita gente. De repente, converteu-se. Fez-se monge sem sair do mundo. Foi trabalhar como estivador, mas todo o tempo livre dedicava-o à oração e à meditação. Estranhamente, tinha um jeito próprio de rezar. Pensava: se Deus se fez gente em Jesus, então foi como nós: chorava pedindo o peito, fazia bico com as coisas que o incomodavam.

Ao fazer-se monge, decidiu pelos que fazem do mundo sua cela e que vivem a pobreza com os pobres: os Irmãozinhos de Foucauld. Criou uma pequena comunidade na pior favela da cidade. A vida era muito dura: trabalhar com os pobres e meditar.

SEMPRE AMEAÇADO – Viveu em vários países, mas foi sempre ameaçado de morte pelos regimes militares e tinha que se esconder e fugir, mas se sentia na palma da mão de Deus, por isso vivia despreocupado.

Indispunha-se também com a Igreja institucional, do cristianismo apenas devocional e sem compromisso com a justiça dos pobres. Finalmente, conseguiu agregar-se a uma paróquia que fazia trabalho popular. Trabalhava com os sem-terra, com os sem-teto e com um grupo de mulheres. Acolhia prostitutas que vinham chorar suas mágoas com ele. E saíam consoladas.

Corajoso, organizava manifestações públicas em frente à prefeitura e puxava ocupações de terrenos baldios. E, quando os sem-terra e sem-teto conseguiam se estabelecer, fazia belas celebrações ecumênicas com muitos símbolos, as chamadas “místicas”.

NA IGREJA ESCURA – Mas todos os dias ficava enfurnado, por longo tempo, na igreja escura. Apenas a lamparina lançava lampejos titubeantes de luz, transformando as estátuas mortas em fantasmas vivos e as colunas eretas, em estranhas bruxas. E lá se quedava, impassível, olhos fixos no tabernáculo, até que viesse o sacristão para fechar a igreja.

Um dia, fui procurá-lo na igreja. Perguntei-lhe de chofre: “Meu irmãozinho, você sente Deus quando, depois dos trabalhos, se mete a meditar aqui, na igreja? Ele lhe diz alguma coisa?”

Como quem acorda de um sono profundo, olhou-me e apenas disse: “Eu não sinto nada. Há muito tempo que não escuto a voz do Amigo (assim chamava Deus). Já senti um dia. Era fascinante. Enchia meus dias de música. Hoje não escuto mais nada. Talvez o Amigo não me falará nunca mais”.

ESTAR DISPONÍVEL – Retruquei eu: “Por que continua, todas as noites, aí, na escuridão sagrada da igreja?”. “Eu continuo”, respondeu, “porque quero estar disponível; se o Amigo quiser chegar, sair de seu silêncio e falar, eu estou aqui para escutar. Imagine se Ele quiser falar e eu não estiver aqui? Pois ele, cada vez, vem apenas uma única vez. Que seria de mim, infiel amigo do Amigo?”

Sim, ele continua sempre “esperando Godot”. “E não se move”, como na peça de Samuel Beckett. Deixei-o em sua plena disponibilidade. Saí maravilhado e meditativo. É por causa desses que o mundo é poupado e Deus continua a manter sua misericórdia sobre aqueles que o esquecem ou o consideram morto, conforme disse um filósofo que ficou louco. Mas há os que vigiam e esperam e, contra toda a esperança, esperam Godot. Essa espera fará que, cada dia, tudo seja novo e cheio de jovialidade.

Um dia, o sacristão o encontrou inclinado sobre o banco da Igreja. Pensou que dormia. Percebeu que o corpo estava frio e enrijecido.  Como o Amigo não veio, ele foi ao encontro dele. Agora não precisa mais esperar Godot e seu advento. Estará com o Amigo, celebrando uma amizade, no maior entretenimento, pelos tempos sem fim.

Boff diz que não fez críticas, apenas republicou um artigo que critica Lula e o PT

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Leonardo Boff agora diz que não foi bem assim…

Leonardo Boff 

Correm pelas redes sociais críticas queeu  teria feito a Lula. Elas são falsas. Pessoalmente não fiz nenhuma crítica. O que fiz foi publicar no meu blog (leonardoboff.wordpress.com) um artigo de Carla Jiménez no jornal espanhol El Pais que leva como o título:”Uma elite amoral e mesquinha se revela nas delações da Odebrecht”. Considerei o artigo bem informado sobre a corrupção que tomou conta das empreiteiras. Estas corromperam e beneficiaram a quase todos os grandes partidos com caixa 2 ou com propinas. Um olhar de fora é sempre instrutivo, pois quando alguém escreve algo semelhante, aqui dentro do país, frequentemente é desqualificado como partidista, oportunista e mesmo falso.

No referido artigo Carla Jiménez, no final, faz críticas ao Lula o que considero, dentro da democracia, legítimo, embora não concorde. https://leonardoboff.wordpress.com/2017/04/24/nao-fiz-as-criticas-a-lula-que-falsamente-me-atribuem/

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O que o teólogo escreveu e foi republicado na Tribuna da Internet foi o seguinte texto: “Seguramente a grande maioria concorda com o conteúdo e os termos desta catilinária contra corruptos e corruptores que tem caracterizado nos últimos tempos o Brasil. Formou-se entre nós, praticamente, uma sociedade de ladrões e de bandidos que assaltaram o país, deixando milhões de vítimas, gente humilde de povo, sem saúde, sem escola, sem casa, sem trabalho e sem espaços de encontro e lazer. E o pior, sem esperança de que esse rumo possa facilmente ser mudado. Mas tem que mudar e vai mudar. É crime demasiado. Nenhuma sociedade minimamente humana e honesta pode sobreviver com semelhante câncer que vai corroendo as forças vitais de um nação”. Acrescenta que se enganaram os que partiram da ideia de que ele fosse um defensor do PT. “Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluidos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido. A mim não interessa o partido mas a causa dos empobrecidos que constituem o eixo fundamental da Teologia da Libertação,  a opção pelos pobres contra a pobreza e pela justiça social, causa essa tão decididamente assumida pelo Papa Francisco”. Bem, se o teólogo Boff não estava se referindo a Lula e ao PT neste texto, deveria ter colocado um aviso, em letras garrafais: “ISSO NÃO VALE EM RELAÇÃO A LULA E AO PT”. (C.N.)

Até o teólogo Leonardo Boff anuncia ter desistido de apoiar Lula e o PT

Boff diz que só apoia a Teologia da Libertação

Fabio Sena

Diário Conquistense

As mais recentes delações premiadas – muitas das quais fragilizaram bastante a defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – acendeu a luz vermelha na esquerda brasileira e muitos teóricos como o teólogo Leonardo Boff, antes ferrenho defensor de Lula, parecem ter sido atingidos no coração pelas revelações de empresários como o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, e do todo-poderoso Emilio Odebrecht.

Em artigo publicado em sua página oficial, Boff avaliza uma minudente leitura do cenário político nacional, que avalia a Lava Jato, os delatores e dedica um parágrafo especial ao ex-companheiro, valendo-se de artigo da jornalista Carla Jiménez do jornal espanhol El Pais, que diz: “Lula, por outro lado, mais do que os crimes a que responde, feriu de golpe a esquerda no Brasil. Ajudou a segregá-la, a estigmatizar suas bandeiras sociais e contribuiu diretamente para o crescimento do que há de pior na direita brasileira. Se embebedou com o poder. Arvorou-se da defesa dos pobres como álibi para deixar tudo correr solto e deixou-se cegar. Martelou o discurso de ricos contra pobres, mas tinha seu bilionário de estimação. Nada contra essa amizade. Mas com que moral vai falar com seus eleitores?”

CORRUPTOS E CORRUPTORES – Em sua própria avaliação, diz o teólogo: “Seguramente a grande maioria concorda com o conteúdo e os termos desta catilinária contra corruptos e corruptores que tem caracterizado nos últimos tempos o Brasil. Formou-se entre nós, praticamente, uma sociedade de ladrões e de bandidos que assaltaram o país, deixando milhões de vítimas, gente humilde de povo, sem saúde, sem escola, sem casa, sem trabalho e sem espaços de encontro e lazer. E o pior, sem esperança de que esse rumo possa facilmente ser mudado. Mas tem que mudar e vai mudar. É crime demasiado. Nenhuma sociedade minimamente humana e honesta pode sobreviver com semelhante câncer que vai corroendo as forças vitais de um nação”.

Boff acrescenta que está equivocado quem parte da ideia de que ele fosse um defensor do PT.

“Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluídos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido. A mim não interessa o partido, mas a causa dos empobrecidos que constituem o eixo fundamental da Teologia da Libertação,  a opção pelos pobres contra a pobreza e pela justiça social, causa essa tão decididamente assumida pelo Papa Francisco”.

(artigo enviado por Mário Assis Causanilhas e Valmor Stédile)

A idade das nações passou: a hora é de resgatar a Terra como um todo

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Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Leonardo Boff
O Tempo

Hoje, há uma forte confrontação com a globalização, exacerbada por Donald Trump, que reforçou: “A América em primeiro lugar”, melhor dito, “só a América”. O presidente move uma guerra contra as corporações globalizadas em favor daquelas de dentro dos Estados Unidos. Trata-se de uma luta contra os conglomerados financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial, que está na mão de um reduzido número de pessoas. Segundo J. Stiglitz, Nobel de Economia, temos 1% de biliardários, contra 99% das outras pessoas.

Esse tipo de globalização, de natureza econômico-financeira, dinossáurica, no dizer de Edgar Morin, é a fase de ferro do fenômeno. Mas a globalização é mais que a economia. Trata-se de um processo irreversível, uma nova etapa da evolução da Terra, a partir do momento em que a descobrimos, vendo-a de fora, como no-lo testemunharam os astronautas a partir de suas naves espaciais.

AMAR O PLANETA – Impactante é o testemunho do astronauta John W. Young, na quinta viagem à Lua, em 16 de abril de 1972: “Lá embaixo está a Terra, esse planeta azul-branco, belíssimo, resplandecente, nossa pátria humana. Daqui da Lua eu o seguro na palma de minha mão. E dessa perspectiva não há nele brancos ou negros, divisões entre leste e oeste, comunistas e capitalistas, norte e sul. Todos formamos uma única Terra. Temos que aprender a amar esse planeta do qual somos parte”.

A partir dessa experiência ficam proféticas e provocativas as palavras de Pierre Teilhard de Chardin, em 1933: “A idade das nações passou. Se não quisermos morrer, é hora de sacudirmos os velhos preconceitos e construir a Terra. A Terra não se tornará consciente de si mesma por nenhum outro meio senão pela crise de conversão e de transformação”.

Essa crise se instalou em nossas mentes: somos agora responsáveis pela única Casa Comum que temos. E inventamos os meios de nossa própria autodestruição, o que aumenta ainda mais nossa responsabilidade.

GLOBALIZAÇÃO – Se bem repararmos, essa consciência irrompeu em 1521, quando Fernão de Magalhães fez, pela primeira vez, o périplo do globo terrestre, comprovando que a Terra é redonda e podemos alcançá-la a partir de qualquer ponto de onde estivermos.

Inicialmente, a globalização realizou-se na forma de ocidentalização do mundo. A Europa deu início à aventura colonialista e imperialista de dominação das novas terras, que foram postas a serviço dos interesses corporificados na vontade de enriquecimento ilimitado, de imposição da cultura branca, de suas formas políticas e de sua religião cristã. Essa aventura fez-se sob grande violência, com genocídios, etnocídios e ecocídios. Ela significou, para a maior parte dos povos, um trauma e uma tragédia, cujas consequências se fazem sentir até os dias de hoje.

PLANETIZAÇÃO – Temos que resgatar hoje o sentido positivo da “planetização”, palavra melhor que “globalização” com sua conotação econômica. A ONU, em 22 de abril de 2009, oficializou o nome “Mãe Terra” para dar-lhe o sentido de algo vivo que deve ser respeitado, como o fazemos com nossas mães. O papa Francisco divulgou a expressão Casa Comum para mostrar a profunda unidade da espécie humana habitando num mesmo espaço.

Não podemos retroceder e fechar-nos, como pretende Trump. Temos que adequar-nos a esse novo passo que a Terra deu, este superorganismo vivo, segundo a tese de Gaia. Nós somos o momento de consciência e de inteligência da Terra. Por isso, somos a Terra que sente, ama, cuida e venera. Somos os seres da natureza cuja missão ética é cuidar dessa herança sagrada. Não estamos correspondendo a esse chamado da própria Terra. Por isso, temos que despertar e assumir essa nobre missão de construir a planetização.

O princípio da evolução tem mais e mais vida, inclusive fora da Terra

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Cientistas da Nasa descobriram uma estrela, Trappist-1, distante 39 anos-luz da Terra, com sete planetas rochosos, três dos quais com possibilidade de ter água e, assim, de vida. Essa descoberta recolocou a questão de eventual vida extraterrestre. Façamos alguns reflexões sobre o tema, fundadas em nomes notáveis na área.

As ciências da Terra e os conhecimentos advindos da nova cosmologia nos habituaram a situar todas as questões no quadro da grande evolução cósmica. Tudo está em processo de gênese, condição para surgir a vida.

Esta é tida como a realidade mais complexa e misteriosa do universo. Há cerca de 3,8 bilhões de anos, num oceano ou num brejo primordial, sob a ação de tempestades de raios e de elementos cósmicos do próprio Sol em interação com a Terra, esta levou até a exaustão a complexidade das formas inanimadas. De repente, ultrapassou-se a barreira: estruturaram-se cerca de 20 aminoácidos e quatro bases fosfatadas. Como num imenso relâmpago que cai sobre o mar ou brejo, irrompeu a primeiro ser vivo.

MILAGRE DA VIDA – Como um salto qualitativo em nosso espaço-tempo curvo, num canto de nossa galáxia média, num sol secundário, num planeta de “quantité négligeable”, na Terra, emergiu a grande novidade: a vida. A Terra passou por 15 grandes dizimações em massa, mas, como se fora uma praga, a vida jamais foi extinta.

Vejamos a lógica interna que permitiu a eclosão da vida. À medida que avançam em seu processo de expansão, a matéria e a energia do universo tendem a tornar-se cada vez mais complexas. Cada sistema se encontra num diálogo permanente com seu meio, retendo informações.

Biólogos e bioquímicos, como Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química (1977), afirmam que vigora uma continuidade entre os seres vivos e inertes. Não precisamos recorrer a um princípio transcendente e externo para explicar o surgimento da vida, como o fazem, comumente, as religiões e a cosmologia clássica. Basta que o princípio de complexificação, auto-organização e autocriação de tudo, também da vida, o princípio cosmogênico, esteja embrionariamente naquele ponto ínfimo, emerso na Energia de Fundo, que depois explodiu.

PRESENÇA DE DEUS – Um dos mais importantes físicos da atualidade, Amit Goswami, sustenta a tese de que o universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um princípio ordenador supremo: Deus. Por isso, para ele, o universo é autoconsciente (“O Universo Autoconsciente”, Rio, 1998).

A Terra não detém o privilégio da vida. Segundo Christiann de Duve, Prêmio Nobel de Biologia (1974): “Há tantos planetas vivos no universo quanto há planetas capazes de gerar e sustentar a vida”.

Presume-se que as mais diversas formas de vida originaram-se todas de uma única bactéria (Wilson, O . E., “A Diversidade da Vida”, São Paulo, 1994). Com os mamíferos, surgiu uma nova qualidade da vida, a sensibilidade emocional e o cuidado. Há cerca de 8 milhões ou 10 milhões de anos, emergiu na África o ser humano, o australopiteco. Por fim apareceu, há 100 mil anos, o Homo sapiens sapiens/demens demens, do qual somos herdeiros imediatos (Reeves, H. e outros, “A Mais Bela História do Mundo”, Petrópolis, 1998).

ACASO E IGNORÂNCIA – A vida não é fruto do acaso (conta Jacques Monod, “O Acaso e a Necessidade”, Petrópolis, 1979). Bioquímicos e biólogos moleculares mostraram a impossibilidade matemática do acaso puro e simples. Para que os aminoácidos e as 2.000 enzimas subjacentes pudessem se aproximar e formar uma célula viva, seriam necessários trilhões e trilhões de anos, mais do que os 13,7 bilhões de anos, a idade do universo.

O assim chamado acaso é expressão de nossa ignorância. Estimamos que a evolução ascendente é produzir mais e mais vida, também extraterrestre.

A morte de Dona Marisa tirou a máscara dos que odeiam Lula e o PT

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O Tempo

Dona Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula, morreu num contexto político conturbado. Nas palavras do próprio Lula, “morreu triste” e também traumatizada.

Diz-se que todas as instituições funcionam. Mas funcionam mal. Em outras palavras, não funcionam. Se tomarmos como referência a mais alta Corte da nação, o Supremo Tribunal Federal, fica claro que as instituições estão corrompidas, incluindo a Polícia Federal e o Ministério Público. Especialmente o STF é atravessado por interesses políticos. Essa situação é um sinal inequívoco de que estamos numa derrocada política, ética e institucional. O Brasil vai de mal a pior, pois todos os itens sociais e políticos se deterioram. E havia senadores e deputados que propalavam que, com a derrubada do PT, o Brasil entraria em uma nova primavera de progresso.

O que nos parece mais grave é o fato de que se instaurou um real Estado de sítio judicial. A Lava Jato mostrou juízes justiceiros, que usam o direito como instrumento de perseguição. A Polícia Federal entrou casa adentro da família Lula da Silva, carregou o que pôde e levou sob vara, quer dizer, coercitivamente, o ex-presidente Lula para interrogatório numa delegacia do aeroporto.

TRAUMA FAMILIAR – Tal ato de violência física e simbólica traumatizou a ex-primeira-dama. Maior foi o trauma quando foi indiciada como criminosa na operação Lava Jato, junto com o marido. Isso a encheu de medo e alterou seu estado de saúde.

Faço minhas as palavra de Hildegard Angel, pois representam o que posso testemunhar em mais de 30 anos de amizade entranhável com Dona Marisa e Lula: “Foi companheira, foi amiga e leal ao marido o tempo todo. Foi amável e cordial com todos que dela se aproximaram”.

SENTIDO ESTÉTICO – Criticam-na porque, como primeira- dama, não assumiu funções públicas. Mas poucos sabem que restituiu a forma original do palácio do Planalto, resgatando móveis e tapetes que haviam sido doados a ministros e a outros departamentos. Ela possuía elevado sentido estético.

Finalmente, foi ela que introduziu no Torto as festas da cultura popular e a celebração de seus santos de devoção, que são da maioria do povo brasileiro, santo Antônio e são João, para escândalo da burguesia descolada de nossas raízes e envergonhada de nossas tradições.

Ela sofreu um AVC fatal. Visitei-a na UTI, falei-lhe ao ouvido palavras de confiança e de entrega a Deus. Ele a estava esperando para que caísse em seu seio para ser feliz eternamente.

PALAVRAS DE ÓDIO – Ao lado de tanta dor, na internet, houve palavras de ódio e maledicência. Felizes porque ela morria daquele jeito. Aí me dei conta de que não temos apenas pedófilos, mas também necrófilos, aqueles que amam e celebram a morte dos outros. Pertinente é a frase atribuída ao papa Francisco: “Quando você comemora a morte de alguém, o primeiro que morreu foi você mesmo”.

Diante da morte, o momento derradeiro para cada ser humano, devemos nos calar reverentes. Ou proferimos palavras de conforto e solidariedade ou emudecemos respeitosamente.

SEM PIEDADE – Como podemos ser cruéis e sem piedade diante da morte dolorosa de uma pessoa extremamente bondosa, arraigada aos mais pobres, lutadora dos direitos dos trabalhadores e das mulheres e com grande amor ao Brasil? Ao ódio ela respondeu doando generosamente os próprios órgãos para que outros pudessem viver.

Lamentavelmente, o golpe perpetrado contra o povo impôs uma radical agenda que, segundo o jornalista Elio Gaspari, “é uma grande máscara, atrás da qual se escondem os velhos e bons oligarcas. Estes odeiam os pobres como odeiam o PT e Lula e odiaram Dona Marisa Letícia”. Mas a verdade e a justiça possuem uma força intrínseca. A luz brilhará e contemplaremos uma estrela no céu da política brasileira: Dona Marisa Letícia Lula da Silva.

Donald Trump abre uma nova etapa da história da humanidade?

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há anos que já se notava a ascensão de um pensamento conservador e de movimentos que se definiam como de direita. Com isso, sinalizava-se um tipo de sociedade na qual a ordem prevalecia sobre a liberdade, os valores tradicionais se impunham aos modernos e a supremacia da autoridade se sobrepunha à liberdade democrática. Esse fenômeno deriva de muitos fatores, mas, principalmente, da erosão das referências de valor que conferiam coesão a uma sociedade e forneciam um sentido coletivo de convivência.

O predomínio da cultura do capital, com seus propósitos ligados ao individualismo, à acumulação ilimitada de bens materiais e, principalmente, à competição, deixando pequeno o espaço para a cooperação, contaminou praticamente toda a humanidade, gerando confusão ético-espiritual e perda de pertença a uma única humanidade habitando uma casa comum.

NADA É SÓLIDO – Emergiu a sociedade líquida, na linguagem de Bauman, na qual nada é sólido. Face a essa diluição, surgiu seu oposto dialético: a busca de segurança, ordem, autoridade, normas claras e caminhos bem-definidos. Na base do conservadorismo e da direita em política, em ética e em religião, se encontra esse tipo de visão das coisas. Ela está a um passo do fascismo, como se verificou na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini.

Na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos, essas tendências foram ganhando força social e política. No Brasil, foi esse espírito conservador, direitista, que moldou o golpe de classe jurídico-parlamentar que destituiu a então presidente Dilma Rousseff. O que se seguiu foi a implantação de políticas claramente de direita, negadoras de direitos sociais e retrógradas em termos culturais.

Mas essa tendência conservadora alcançou sua dimensão mais expressiva na potência central do sistema-mundo, os Estados Unidos, confirmada pela eleição de Donald Trump à Presidência daquele país.

CONQUISTAS DE OBAMA – Trump, em seus primeiros atos, começou a desmontar as conquistas sociais alcançadas por Barack Obama. Nacionalismo, patriotismo, conservadorismo e isolacionismo são suas características mais claras.

Seu discurso inaugural é aterrador: “De hoje em diante, uma nova visão governará nossa terra. A partir deste momento, só os Estados Unidos serão o primeiro”. O “primeiro” aqui deve ser entendido como “só os EUA vão contar”.

Subjacente a essas palavras, funciona a ideologia do “destino manifesto”, da excepcionalidade dos EUA, sempre presente nos presidentes anteriores, inclusive em Obama. Quer dizer, os EUA possuem uma missão única e divina no mundo: a de levar seus valores de direitos, da propriedade privada e da democracia liberal para o resto da humanidade. Para ele, o mundo não existe. E, se existe, é visto de forma negativa.

PODE-SE ESPERAR TUDO – Da personalidade de Trump se pode esperar tudo. Habituado a negócios tenebrosos como são, de modo geral, os empreendimentos imobiliários nova-iorquinos, sem qualquer experiência política, pode deslanchar crises altamente ameaçadoras para o resto da humanidade, como, por exemplo, uma eventual guerra contra a China ou a Coreia do Norte, onde não se exclui a utilização de armas nucleares.

A frase que nos assusta é esta: “De hoje em diante, uma nova visão governará nossa terra”. Não sei se está pensando apenas nos EUA ou no planeta Terra. Provavelmente, as duas coisas para ele se identificam. Se for verdade, teremos que rezar para que o pior não aconteça para o futuro da civilização.

Governo está secando a seiva da vida intelectual e artística

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Charge do Bruno Galvão (chargesbruno.blogspot.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

Já se disse quase tudo e se fez de tudo em termos de crítica e de manifestações de professores, alunos, artistas e intelectuais no sentido de salvar um dos patrimônios culturais mais caros à cidade do Rio de Janeiro: a Universidade do Rio de Janeiro (UERJ), fundada em 1950. Quero ater-me a um testemunho pessoal dos anos em que fui professor de ética e de filosofia da religião nessa universidade. Mas antes vale recordar uma política exemplar vinda de Cuba.

À dissolução política da União Soviética, que apoiava economicamente Cuba nos quadros de uma política de solidariedade internacional, seguiu-se formidável crise generalizada, pois a nova Rússia não tinha mais condições de ajudar o país. Entregou-o à própria sorte. Tudo foi duramente reduzido e reajustado. Entretanto, dois campos ficaram intocáveis: a saúde e a educação. Ali se mantiveram todos os investimentos necessários. É conhecido o alto nível da educação e da saúde de Cuba. A razão era óbvia: um povo doente e ignorante nunca poderia levar avante qualquer projeto nacional.

Pois não é isso que ocorre no Brasil. Cortou-se na saúde e na educação. Parece que a falta de educação e de saúde obedece à lógica da dominação das classes endinheiradas e do Estado refém de suas estratégias. É mais fácil explorar um povo ignorante e doente que um sadio e educado.

SEM HORIZONTE – Assistir à derrocada da UERJ, uma das melhores universidades do país, é aceitar que se mate a seiva da criatividade e se feche o horizonte de um futuro da atual geração de estudantes e professores. Bem dizia Celso Furtado em seu “O Longo Amanhecer”:

“Uma sociedade só se transforma se tiver capacidade de improvisar, de ter ou não acesso à criatividade: eis a questão” (1999, p. 67). O que caracterizava a UERJ era, e continua sendo, sua criatividade, sua abertura a fronteiras novas, sejam ligadas à pesquisa de ponta em várias áreas técnicas e na saúde, seja sua articulação com as bases populares, com cursos de extensão em formação de lideranças, direito social e educação em direitos humanos em vários municípios, sua atuação corajosa nos conflitos de terras.

Aceitei ser professor nessa universidade sob a condição de que minhas aulas fossem abertas a quem quisesse das comunidades e a outros interessados.

TESES BRILHANTES – Minha preocupação em filosofia era levar os estudantes a pensar com suas próprias cabeças e tomar como temas de tese a realidade brasileira. Não basta saber o que Aristóteles, Heidegger, Habermas, Bergson, Deleuze ou Guatarri sabiam. Importa pensar o que sabemos. Daí nasceram teses brilhantes, como, por exemplo, uma sobre o profeta Gentileza, outra sobre espiritualidade nos tempos modernos no diálogo com a psicologia analítica de C.G. Jung.

Contudo, o que mais me impressionou nessa universidade – da qual trago as melhores lembranças e cujo nome levei a todos os países nos quais dei palestras e cursos, na Rússia, na China e até entre os samis (esquimós), perto do Polo Norte –, foi o ambiente de abertura e de representação do que é o Brasil real, com a presença de estudantes vindos das classes populares da Baixada Fluminense, a coexistência sem qualquer discriminação entre negros e brancos, a orientação social de todo o ensino da instituição, com forte acento na construção de uma nação livre, criativa, soberana e insubmissa às lógicas da dominação. Há que recordar a resistência da UERJ à ditadura militar, com a morte de um estudante pelos órgãos de repressão.

O lema das manifestações é “luto e luta”: luto pela agonia desse centro de excelência e luta para garantir sua existência contra o sucateamento e sua eventual privatização. Salvar a UERJ é garantir a seiva da vida intelectual e artística da cidade e permitir que o Brasil inteiro se beneficie com seus serviços sérios e excelentes.

O Deus que dizem ser brasileiro é um Moloc que devora seus filhos

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Charge do Will (willtirando.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

Diz-se que Deus é brasileiro, não o Deus da ternura dos humildes, mas o Moloc dos amonitas que devora seus filhos. Somos um dos países mais desiguais e violentos do mundo. Teologicamente, vivemos numa situação de pecado social e estrutural, em contradição com o projeto de Deus. Basta considerar o que ocorreu nos presídios de Manaus, Rondônia e Roraima. Pura barbárie!

Estamos assentados sobre estruturas histórico-sociais violentas, oriundas do genocídio indígena, do colonialismo humilhante e do escravagismo desumano. Não há como superar essas estruturas sem antes superar essa tradição nefasta.

Entretanto, esse é um desafio que demanda uma transformação de nossas relações sociais. Vejo ser possível a condição de seguirmos dois caminhos: a gestação de um povo e a instauração de uma democracia social de base popular.

NÃO ERA UMA NAÇÃO – A gestação de um povo: os que nos colonizaram não vinham para criar uma nação, mas para fundar uma empresa comercial e regressar a Portugal para desfrutar da riqueza acumulada. Submeteram primeiro os índios e, depois, introduziram os negros africanos como mão de obra escrava. Criou-se aqui uma massa humana dominada pelas elites, humilhada e desprezada até os dias atuais.

Abstraindo as revoltas anteriores, a partir dos anos 30 houve uma virada histórica. Surgiram os sindicatos e os mais variados movimentos sociais. Em seu seio, foram surgindo atores sociais conscientes e dotados de vontade para modificar a realidade social. A articulação dessas associações gerou o movimento popular brasileiro.

A criação de uma democracia social, de base popular: possuímos uma democracia representativa de baixíssima intensidade, cheia de vícios políticos e corrupta, com representantes eleitos, em geral, pelas grandes empresas, cujos interesses representam. Em contrapartida, como fruto da organização popular, se produziram partidos populares ou segmentos de partidos progressistas e até liberal-burgueses ou tradicionalmente de esquerda.

QUATRO PÉS – Essa democracia participativa se baseia, fundamentalmente, em quatro pés, como os de uma mesa: a participação mais ampla possível de todos; a igualdade, que resulta dos graus de participação; o respeito às diferenças de toda ordem; e a valorização da subjetividade humana.

Essa mesa, entretanto, está assentada sobre uma base sem a qual ela não se sustenta: uma nova relação para com a natureza e para com a Terra, nossa Casa Comum, como enfatiza a encíclica ecológica do papa Francisco. Em outras palavras, essa democracia deverá incorporar o momento ecológico, fundado num outro paradigma.

O vigente, centrado no poder e na dominação em função da acumulação ilimitada, encontrou uma fronteira insuperável: os limites da Terra e seus bens e serviços não renováveis. Uma Terra limitada não suporta um projeto ilimitado de crescimento. Por forçar esses limites, assistimos ao aquecimento global e aos eventos extremos vividos neste ano de 2017, com neves em toda a Europa que não ocorriam havia cem anos.

NOVO PARADIGMA – Essa consciência dos limites, que cresce mais e mais, nos obriga a pensar num novo paradigma de produção, de consumo e de repartição dos recursos escassos entre os humanos e também com a comunidade de vida. Aqui entram os valores do cuidado, da corresponsabilidade e da solidariedade de todos com todos, sem os quais o projeto jamais prosperará.

A partir dessas premissas podemos pensar na superação de nossas estruturas sociais violentas. O resto é tapeação de mudança para que nada mude.

O golpe parlamentar como assalto ao bem comum dos brasileiros

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Leonardo Boff
O Tempo

Um dos efeitos mais perversos do golpe parlamentar foi impor um projeto econômico-social de ajustes e de modificações legais que significam um assalto ao já combalido bem comum. O golpe foi promovido pelas oligarquias endinheiradas e antinacionais, que usaram um Parlamento de fazer vergonha por sua ausência de ética e de sentido nacional.

Está em curso um desmonte da nação. Isso significa a implantação de um neoliberalismo ultraconservador e predatório que praticamente anula as conquistas sociais em favor de milhões de pobres e miseráveis, tirando-lhes direitos com referência a salário, regime de trabalho e aposentadorias, além de reduzir e até liquidar projetos fundamentais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos, Fies e outros institutos que permitiam o acesso dos filhos e das filhas da pobreza ao estudo técnico ou superior.

Mais que tudo, começou-se a leiloar bens coletivos como partes da Petrobras e colocar à venda terras nacionais. A privatização significa sempre uma diminuição do bem de interesse geral, que passa às mãos do interesse particular. Ataca-se o que se chama hoje de “direitos de solidariedade”, que submetem os interesses particulares aos interesses coletivos e comuns.

DUAS PILASTRAS – Estão sendo erodidas as duas pilastras fundamentais que, historicamente, construíram o bem comum: a participação dos cidadãos e a cooperação de todos. Em seu lugar, a atual ordem imposta pelos que perpetraram o golpe enfatiza as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competitividade.

O propósito dos atuais gestores, já reconhecidos como incompetentes, alguns até imbecilizados, é: o mercado tem que ganhar, e a sociedade deve perder. Ingenuamente, creem ainda que é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é, por que vamos construir o bem comum?

Mas esclareçamos o conceito de bem comum. No plano infraestrutural, o bem comum é o acesso justo de todos aos bens comuns básicos, como à alimentação, à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à comunicação. No plano social, é a possibilidade de levar uma vida material e humana satisfatória na dignidade e na liberdade num ambiente de convivência pacífica.

BEM COMUM – Pelo fato de estar sendo desmantelado pela atual ordem injusta, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação, e não à competição, e articular todas as forças comprometidas com o interesse geral a resistir, a pressionar e a ganhar as ruas.

Por outro lado, o bem comum não pode ser concebido antropocentricamente. Hoje, desenvolveu-se a consciência da interdependência de todos os seres com todos e com o meio no qual vivemos. Não podemos vender nossas terras nem deixar de delimitar os territórios indígenas, os donos originários de nosso país, nem descuidar do desmatamento desenfreado da Amazônia, como está ocorrendo agora.

Nós possuímos os mesmos constituintes físico-químicos com os quais se constrói o código genético de todo vivente. Daí deriva-se um parentesco objetivo entre todos os seres vivos, como tem enfatizado o papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral. Por isso, cuidar e defender a natureza é cuidar e defender a nós mesmos, pois somos parte dela.

Cooperação se reforça com mais cooperação, pois aqui reside a seiva secreta que alimenta e revigora permanentemente o bem comum, atacado pelas forças que ocuparam o Estado e seus aparelhos no interesse de poucos contra o bem comum de todos os demais.

O ano de 2016 foi quando se tentou matar a esperança

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Leonardo Boff
O Tempo

A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja de políticos que, de forma desavergonhada, se pôs a serviço dos verdadeiros forjadores do golpe perpetrado contra a presidente Dilma.

Obviamente, há políticos valorosos e éticos, bem como empresários da nova geração progressistas que pensam no Brasil e em seu povo. Mas estes não conseguiram ainda acumular força suficiente para dar outro rumo à política e um sentido social ao Estado vigente.

Ao se referir à corrupção, todos pensam logo na Lava Jato e na Petrobras, mas esquecem ou lhes é negada a outra corrupção, muito pior, revelada exatamente no dia de Natal. Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, nos revela que, nos últimos 13 anos, esquemas de corrupção, fraudes e desvios de recursos da União repassados a Estados, municípios e ONGs podem superar 1 milhão de vezes o rombo na Petrobras.

ASSASSINATO DA ESPERANÇA – “A gente chama isso de ‘assassinato da esperança’. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município em médio e em longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”, disse o secretário. A nação precisa saber dessa matança e não se deixar mentir por aqueles que ocultam, controlam e distorcem as informações porque são antissistêmicas.

Mas não se pode viver só de desgraças que macularam grande parte do ano de 2016. Voltemo-nos para aquilo que nos permite viver e sonhar: a esperança.

Para entender a esperança, precisamos ultrapassar o modo comum de vermos a realidade. Pertence ao real também o potencial, o que ainda não é e que pode vir a ser. Esse lado potencial se expressa pela utopia, pelos sonhos, pelas projeções de um mundo melhor. É o campo onde floresce a esperança. Ter esperança é crer que esse potencial pode se transformar em real, não automaticamente, mas pela prática humana.

GRITO DA TERRA – Faço meu o lema do grande cientista e físico quântico Carl Friedrich von Weizsäcker, fundador de uma sociedade que me honrou, no final de novembro, em Berlim, com um prêmio pelo intento de unir o grito da Terra com o grito do pobre: “Não anuncio otimismo, mas esperança”.

Esperança é um bem escasso hoje no mundo inteiro e, especialmente, no Brasil. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do povo brasileiro. As medidas tomadas penalizam principalmente as grandes maiorias, que veem as conquistas sociais históricas sendo literalmente desmontadas.

Aqui nos socorre o filósofo alemão Ernst Bloch, que introduziu o “princípio esperança”. Esta é mais que uma virtude entre outras. É um motor que temos dentro de nós que alimenta todas as demais virtudes e que nos lança para a frente, suscitando novos sonhos de uma sociedade melhor.

SAIR ÀS RUAS – Essa esperança vai fornecer as energias para a população afetada poder resistir, sair às ruas, protestar e exigir mudanças que façam bem ao país, a começar pelos que mais precisam.

Como a maioria é cristã, valem as palavras do sábio Riobaldo, de Guimarães Rosa: “Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve… Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma”.

Ter fé é ter saudades de Deus. Ter esperança é saber que Ele está a nosso lado, ainda que invisível, fazendo-nos esperar contra toda a esperança.

 O lado humano de Fidel que tive a oportunidade de conhecer

 

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O Tempo

Cada ponto de vista é a vista de um ponto. Cada pessoa ocupa um ponto neste planeta e na sociedade na qual está inserido. A partir desse ponto, vê-se a realidade que ele permite ver. Por isso, não podemos absolutizar nenhum ponto de vista como se fosse o único. É o que dá origem aos fundamentalismos e às discriminações. Tal pensamento vale aos muitos pontos de vista que se estão fazendo da saga de Fidel Castro. Nenhum ponto pode cobrir todas as vistas.

LUZ E SOMBRA – Há outro elemento a ser considerado. Cada ser humano tem sua porção de luz e sua porção de sombra. Vale dizer, cada ser humano é portador de inteligência e de um sentido de vida. Isso não é um defeito de nossa construção. É um dado objetivo de nossa realidade humana que deve sempre ser tomada em conta. Também vale quando ajuizamos a figura complexa de Fidel Castro: suas luzes e suas sombras.

Quero me referir a alguns pontos a partir dos quais se me permitiu uma vista singular de Fidel Castro. O primeiro deles é a negação do sistema imperante de viés capitalista, que diz: “Não há alternativa a ele”. Ele representa a culminância das sociedades humanas. Fidel Castro mostrou que, com o socialismo, pode haver uma alternativa diferente daquela capitalista, hoje em radical crise de autorreprodução.

REAÇÃO DOS EUA – A fúria dos Estados Unidos contra Cuba e Fidel, de tentar destruir o socialismo cubano, era para mostrar que não pode haver uma alternativa. Bem ou mal, com os defeitos que conhecemos, o socialismo se apresenta como outra forma possível de organizar a sociedade.

Um segundo ponto a ressaltar foi seu interesse pela Teologia da Libertação. Chegou a confessar que, se em seu tempo houvesse a Teologia da Libertação (só começou partir de 1970), teria assumido essa leitura para montar a sociedade cubana. Sob pressão da Guerra Fria, foi obrigado a ficar do lado da URSS e daí teve que assumir o marxismo.

Outro ponto relevante foi o convite que me fez, durante o tempo do “silêncio obsequioso” que me foi imposto em 1984 pelo ex-Santo Ofício: passar as férias com ele na ilha para aprofundar as questões da religião, da América Latina e do mundo. Efetivamente visitamos toda a ilha em conversações que iam noite adentro. Anotei quase tudo, pois queria transformar o material em um livro. Dias após minha volta de Cuba, deixei os escritos no bagageiro do carro, que foi arrombado num momento em que me distanciei por alguns minutos. Não levaram nada, apenas as anotações. Minha suspeita é que órgãos de segurança daqui ou de fora sequestraram o material.

O CASO DE LOLA – Há outro dado que mostra a dimensão de ternura de Fidel Castro, coisa que muitos testemunham. Tenho uma sobrinha com um tipo de reumatismo que nenhum médico conseguia tratar. Falei com Fidel se era possível tratá-la em Cuba. Pediu-me todos os laudos médicos daqui. Ele mesmo se encarregou de falar com os médicos cubanos. Efetivamente, não havia cura. Cada vez que me encontrava, a primeira coisa que perguntava era: “Como vai a Lola, sua sobrinha?”.

Essa memória carinhosa e terna não é frequente em chefes de Estado. Geralmente, onde predomina o poder, não vigora o amor nem floresce a ternura. Com Fidel era diferente. Alegrou-se enormemente quando lhe contei que um médico brasileiro inventou uma vacina cujo efeito colateral era curar esse tipo de reumatismo.

DIMENSÕES PROFUNDAS – São pequenos gestos que mostram que o poder não precisa fatalmente obscurecer essas dimensões tão profundas que são o enternecimento e a preocupação pelo destino do outro. O legado de sua pessoa carismática permanecerá como referência para aqueles que se recusam a reproduzir a cultura do capital e as injustiças que a acompanham, de ordem social e ecológica.

Papa Francisco deu outro sentido à Igreja, num reino de Justiça e Amor

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O Tempo

O papa Francisco tem um mérito inegável: tirou a Igreja Católica de uma profunda desmoralização por causa dos crimes de pedofilia. Em seguida, desmascarou os crimes financeiros do Banco do Vaticano. Mas mais que tudo, deu outro sentido à Igreja. Os dados revelam que o Cristianismo é hoje uma religião de terceiro e quarto mundos: 25% dos católicos vivem na Europa, 52% nas Américas, e os demais, no restante do mundo. Isso significa que o Cristianismo viverá, em sua fase planetária, uma presença mais densa nas partes do planeta que hoje são consideradas periféricas.

Ele só terá um significado universal sob duas condições: na primeira, se todas as igrejas se entenderem como o movimento de Jesus e se reconhecerem reciprocamente como portadoras de sua mensagem. A segunda condição é de o Cristianismo relativizar suas instituições de caráter ocidental e ousar se reinventar a partir da vida e da prática do Jesus histórico com sua mensagem de um reino de justiça e de amor.

NO PAI-NOSSO – Segundo a melhor exegese contemporânea, o projeto original de Jesus se resume no Pai-Nosso. Aí se afirmam as duas fomes do ser humano: a fome de Deus e a fome de pão. O Pai-Nosso enfatiza impulso para o alto. E o Pão-Nosso, seu enraizamento no mundo. Somente unindo Pai-Nosso com Pão-Nosso se pode dizer “amém” e sentir-se na tradição do Jesus histórico.

Isso implica para o Cristianismo, corajosamente, se desocidentalizar, se desmachicizar, se despatriarcalizar e se organizar em redes de comunidades que se acolhem reciprocamente e se encarnam em culturas locais, formando juntas o grande caminho espiritual cristão, que se soma aos demais caminhos espirituais e religiosos da humanidade.

OS DESAFIOS – Realizados esses pressupostos, apresentam-se atualmente às igrejas ou ao Cristianismo quatro desafios fundamentais. O primeiro deles é a salvaguarda da Casa Comum e do sistema vida, ameaçados pela crise ecológica generalizada e pelo aquecimento global.

O segundo desafio é como manter a humanidade unida. Os níveis de acumulação de bens materiais em pouquíssimas mãos poderão cindir a humanidade em duas porções: os que gozam de todos os benefícios da tecnociência e os condenados à exclusão, sem expectativas de vida ou até de serem considerados humanos.

O terceiro é a promoção da cultura da paz. Os conflitos bélicos, os fundamentalismos políticos e a intolerância face às diferenças culturais e religiosas podem levar a humanidade a níveis de violência altamente destrutiva.

O quarto desafio concerne à América Latina: a encarnação nas culturas indígenas e afro-americanas. Depois de ter-se quase exterminado as grandes culturas originárias, e de se terem escravizado milhões de africanos, impõe-se a tarefa de ajudá-los a se refazerem biologicamente e resgatarem sua sabedoria ancestral, vendo reconhecidas suas religiões como formas de comunicação com Deus.

ALIMENTAR A CHAMA – A missão das igrejas, das religiões e dos caminhos espirituais consiste em alimentar a chama interior da presença do sagrado e do divino no coração de cada pessoa. O Cristianismo, na fase planetária da Terra, possivelmente se constituirá em uma imensa rede de comunidades, encarnadas nas diferentes culturas, testemunhando a alegria do evangelho, que promove já, neste mundo, uma vida justa e solidária.

No presente, cabe-nos viver a comensalidade entre todos, símbolo antecipador da humanidade reconciliada, celebrando os bons frutos da Mãe Terra. Não era essa a metáfora de Jesus, quando falava do reino de vida, de justiça e de amor?

Os estudantes querem outro Brasil e outro tipo de política

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Seria ingênuo pensar que o movimento dos estudantes ocupando escolas e universidades se esgota na crítica ao projeto da reforma do ensino médio ou no protesto contra a PEC 55. O que se esconde atrás das críticas é algo mais profundo: a rejeição ao tipo de Brasil que até agora construímos e à política corrupta praticada por parlamentares em proveito próprio. Junto, vem o lado mais positivo: a demanda por outra forma de construir o Brasil e de reinventar a democracia.

Desde as manifestações de 2013, três autores continuam a nos inspirar, pois sempre lutaram por outro Brasil e sempre foram derrotados. O primeiro é Darcy Ribeiro, que disse: “Nós, brasileiros, surgimos de um empreendimento colonial que não tinha nenhum propósito de fundar um povo. Queria tão somente gerar lucros empresariais exportáveis com pródigo desgaste de gentes”.

O segundo é Luiz Gonzaga de Souza Lima na mais recente e criativa interpretação do Brasil, o livro “A Refundação do Brasil: Rumo à Sociedade Biocentrada”, em que afirmou: “Quando se chega ao fim, lá onde acabam os caminhos, é porque chegou a hora de inventar outros rumos; é hora de outra procura; é hora de o Brasil se refundar; a refundação é o caminho novo e, de todos os possíveis, é aquele que mais vale a pena, já que é próprio do ser humano não economizar sonhos e esperanças; o Brasil foi fundado como empresa. É hora de se refundar como sociedade”. Essa hora chegou.

O terceiro é um escritor francês, François-René de Chateaubriand (1768-1848), que disse: “Nada é mais forte do que uma ideia quando chegou o momento de sua realização”. Tudo indica que esse momento de realização está a caminho.

A HORA DOS JOVENS – Os jovens que estão ocupando os lugares de ensino estão revelando mais inteligência do que a maioria de nossos representantes sentados em nossas Casas parlamentares. Sem definição partidária, com seus cartazes incisivos, os estudantes querem nos dizer: “Estamos cansados do tipo de Brasil que vocês nos apresentam, com democracia de baixa intensidade que faz políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres”.

Efetivamente, até hoje, o Brasil foi e continua sendo um apêndice do grande jogo econômico e político do mundo. Mesmo politicamente libertos, continuamos sendo recolonizados, pois as potências centrais, antes colonizadoras, nos querem manter colonizados, condenando-nos a ser uma grande empresa neocolonial que exporta commodities: grãos, carnes, minérios. Dessa forma, nos impedem de realizar nosso projeto de nação independente, soberana e altiva.

Caio Prado Júnior, em seu “A Revolução Brasileira”, escreveu: “O Brasil se encontra em um daqueles momentos em que se impõem de pronto reformas e transformações capazes de reestruturarem a vida do país de maneira consentânea com suas necessidades mais gerais e profundas e com as aspirações da grande massa de sua população que, no estado atual, não são devidamente atendidas”.

UM OUTRO BRASIL – A maioria desses intérpretes clássicos olhou para trás e tentou mostrar como se construiu o Brasil que temos. Especialmente Souza Lima, como os jovens de hoje, olha para a frente e tenta mostrar como podemos refundar um Brasil na nova fase planetária, a ecozoica, rumo ao que ele chama “uma sociedade biocentrada”.

Ou um Brasil diferente nascerá desses jovens estudantes, ou corremos o risco de perder novamente o carro da história. Eles podem ser os protagonistas daquilo que deve nascer.

O golpe da reconquista do poder pelas oligarquias e o movimento social

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

O golpe de classe via Parlamento é um processo que gerou uma cadeia de outros golpes, com especial atropelo da ordem jurídica e constitucional. Os golpes são contra a diversidade social e de gênero, na cultura, na saúde, nos direitos sociais, nas aposentadorias. É um golpe judicial e nas eleições.

Esses golpes têm por trás as oligarquias, que utilizaram uma sagaz estratégia de conquistar setores do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal e do corpo de procuradores para conseguir seus fins. Encontraram um testa de ferro para desempenhar essa nova tipologia de golpe: um justiceiro de primeira instância, Sergio Moro, e sua equipe de jovens procuradores, infantilmente exibicionistas. Imbuídos de convicções messiânicas de limpar o país da corrupção – o que é louvável –, direcionam as investigações unicamente a um partido, o PT. Desprezando as demais agremiações, com não menos atos de corrupção, concentram o foco nas figuras referenciais, como o ex-presidente Lula e vários ex-ministros.

A novidade desse teatro político é a desfaçatez do juiz e dos policiais de passar por cima de direitos consagrados na Constituição e em todo o mundo, como a presunção de inocência. Pareceria que o juiz Moro tanto estudou a máfia italiana que se tornou ele mesmo um mafioso da Justiça. Confessou que pratica uma justiça de exceção, coisa que soa a fascismo.

ÓDIO E RECONQUISTA – Entre muitas razões subjacentes a esse golpe de classe, enfatizo apenas duas: o ódio que a classe dominante tem e sempre teve da população pobre e negra. Ocorre que um representante desses desprezados chegou a ser presidente e transformou profundamente a vida de milhões de pobres. Isso é intolerável para as oligarquias, habituadas a ocupar o Estado e seus aparatos não em vista do bem de todos, mas de seus interesses corporativistas Lula e seus assemelhados são odiados por isso.

Nunca apreciaram a democracia, mas regimes fortes e ditatoriais que lhes facilitam a acumulação, uma das mais altas do mundo. Jamais entenderam o poder como expressão jurídico-política da soberania de um povo, mas como dominação em função do enriquecimento. Sergio Moro forneceu o enquadramento jurídico canhestro para dar vazão a esse ódio de classe.

O segundo fator que cabe ser ressaltado é a estratégia de reconquista por parte das oligarquias, aquele punhado de famílias de super-ricos que controlam grande parte da renda nacional e que possuem imenso poder econômico, político e midiático. Visam voltar ao lugar que ocuparam por séculos, mas ao qual agora, com a situação histórica mudada, jamais chegariam por via democrática, expressa pelo voto popular. Mas o fazem com a trama de um golpe parlamentar vergonhoso.

SEM SOLIDARIEDADE – Essas oligarquias representam a ordem e a cultura do capital, cruel e desumano, e nunca mostraram solidariedade para com as grandes maiorias sofredoras. Praticam uma economia altamente concentradora e predatória de bens e serviços naturais, produzindo externalidades que são injustiças sociais graves e ambientais altamente danosas, das quais se eximem de responsabilidade, jogando ao Estado o ônus de sua reparação.

Elas agora voltaram para realizar a sonhada reconquista, só possível à revelia da Constituição. Aplicam medidas neoliberais das mais deslavadas, atropelando conquistas históricas dos trabalhadores e enxovalhando a inteligência brasileira. E o fazem com furor, respaldadas por um tribunal de exceção.

Esperamos a rejeição dessa reconquista pelos movimentos sociais, quiçá os únicos, nas ruas e nas praças de todo o país, capazes de inviabilizar esse retrocesso histórico infame.

A desordem mundial e o espectro da dominação total

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O Tempo

O título é do último livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2016), nosso mais respeitado analista de política internacional. O autor teve acesso às mais seguras fontes de informação e a múltiplos arquivos, aliando tudo a um vasto conhecimento histórico. Moniz Bandeira é, antes de mais nada, um minucioso pesquisador e, ao mesmo tempo, um militante contra o imperialismo estadunidense, cujas entranhas corta com um bisturi de cirurgião. Os materiais de que dispõe lhe permitem denunciar a lógica imperial presente no subtítulo: “Guerras por Procuração, Terror, Caos e Catástrofes Humanitárias”. Quem ainda nutre admiração pela democracia norte-americana e procura se alinhar aos desígnios imperiais (como fazem neoliberais brasileiros) encontrará vasto material para reflexão crítica e dados para uma leitura do mundo mais diferenciada.

Dois motes orientam o centro do poder do Estado norte-americano com seus inumeráveis órgãos de segurança: “um mundo e um só império”, ou “um só projeto e o espectro da total dominação”. Quer dizer, a política externa norte-americana se inspira no (ilusório) “excepcionalismo” do velho “destino manifesto”, uma variante do “povo eleito por Deus, de raça superior”, chamada a difundir no mundo todo a democracia, a liberdade e os direitos e se considerar “a nação indispensável e necessária”.

MONARCAS – No século XVIII, Edmund Burke (1729-1797) e, no século XIX, o francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) pressentiram que o presidente norte-americano detinha mais poderes que um monarca absolutista. Efetivamente, sob George W. Bush – por ocasião dos atentados às Torres Gêmeas –, se instaurou a verdadeira democracia militar, com a declaração da “guerra contra o terror” e a publicação do “Patriotic Act”, que suspendeu os direitos civis básicos, como o habeas corpus, e instaurou a permissão de torturas. Na verdade, isso configura um Estado terrorista.

Como vários cientistas norte-americanos citados por Moniz Bandeira afirmaram: “Não há mais uma democracia, mas uma dominação da elite econômica à qual se deve submeter o presidente”. As decisões são tomadas pelo complexo industrial-militar, por Wall Street, por ponderosas organizações de negócios e por um pequeno número de norte-americanos muito influentes.

Para garantir o espectro da total dominação, são mantidas 800 instalações militares pelo mundo afora e 16 agências de segurança, com 107.035 civis e militares. De 1776 a 2015, portanto, em 239 anos de existência dos EUA, 218 foram anos de guerra e apenas 21 anos de paz.

OBAMA NADA FEZ – Esperava-se que Barack Obama desse outro rumo a essa história violenta. Ilusão. Trocou apenas os nomes, mas manteve todo o espírito excepcionalista e as torturas em Guantánamo e em outros lugares fora dos Estados Unidos, como no tempo de Bush. Com certa decepção, constatou Bill Clinton, “desde 1945 os EUA não venceram nenhuma guerra”. Do Iraque fugiram em sigilo e na calada da noite.

O livro de Moniz Bandeira entra em detalhes sobre a guerra na Ucrânia, na Crimeia e contra o Estado Islâmico na Síria, dando nomes aos principais atores e datas. A conclusão é avassaladora: “Onde quer que os EUA intervieram, com o específico objetivo de ‘espalhar’ a democracia, constitui-se de bombardeios, destruição, terror, massacres, caos e catástrofes humanitárias… Entraram para defender suas necessidades e seus interesses econômicos e geopolíticos, seus interesses imperiais”.

A mola de informações arroladas sustenta essa afirmação, não obstante as limitações que sempre poderão ser apontadas.

Por que Deus não usou seu poder e acalmou o furacão Matthew?

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Furacão agrava a miséria que assola a a população do Haiti

Leonardo Boff
O Tempo

Quando vemos nas primeiras páginas dos jornais a devastação que o furacão Matthew provocou agora em outubro, nos perguntamos angustiados: “Deus, onde estavas naquele momento em que a fúria assassina do furacão Matthew se abateu sobre o Haiti e os Estados Unidos? Por que não usaste teu poder para amainar a virulência destruidora daqueles ventos e daquelas águas inimigas da vida? Por que não intervieste se podias fazê-lo?”

“Nem sequer permitiste aos haitianos tempo suficiente para se recuperarem da devastação que significou o terremoto de 2010. Por que agora enviaste outro látego para açoitar e matar?”

“Tu bem sabes, Senhor: o povo haitiano é um dos mais pobres do mundo. Negros, conheceram todo tipo de discriminação. Foram oprimidos por ditadores ferozes. Tudo sofreram, tudo suportaram. Não desistiram. E eis que, de novo, foram açoitados pela natureza rebelada. Onde está tua piedade?”

DESÍGNIOS DE DEUS – Não entendemos os desígnios dAquele que se revelou como Pai de infinita bondade. Ele pode ser Pai de uma forma misteriosa que não conseguimos compreender. Muito menos pretendemos ser juízes de Deus. Mas podemos, sim, gritar como Jó, Jeremias e Jesus, que clamou: “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Marcos 15,34).

Nossos lamentos não são blasfêmias, mas um grito humilde e insistente a Deus: “Desperta! Não te esqueças da paixão daqueles que atualizam a Paixão de teu Filho bem-amado”.

Seguramente, as invectivas de Jó contra Deus por causa do sofrimento incompreensível, e as lamentações de Jeremias vendo Jerusalém conquistada, foram incluídas no rol das escrituras judaico-cristãs para que nos servissem de exemplo.

A MORTE NA CRUZ – Podemos gritar como Jó e nos lamentar como Jeremias. Mais ainda, podemos, no limite do desespero, bradar como Jesus na cruz, experimentando o inferno da ausência do Deus que sempre o chamava de “Abba”, “meu querido paizinho”. E Ele silenciou e não o livrou da morte na cruz.

Semelhante lamentação como a nossa expressou de forma comovente o papa Bento XVI quando visitou o campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau, onde mais de 1 milhão de judeus e outros seres humanos foram enviados às câmaras de gás: “Quantas perguntas surgem neste lugar. Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar esse excesso de destruição, esse triunfo do mal?” Como nunca antes, o papa Bento XVI se mostrou um finíssimo teólogo que, como homem de fé sensível, ousou queixar-se diante de Deus.

NOBRE SILÊNCIO – Embora guardemos um nobre silêncio diante de tamanha dor, perseveramos na fé como Jó, Jeremias e Jesus. Jó chegou a dizer: “Mesmo que me mates, Senhor, ainda assim continuo a confiar em Ti. Antes Te conhecia só por ouvir dizer, mas agora viram-Te meus olhos (42,5)”.

As últimas palavras de Jesus foram: “Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito” (Lucas 23,46). E Deus o ressuscitou para mostrar que a dor, mesmo misteriosa, não escreve o último capítulo da história, mas a vida em seu esplendor.

Na esperança ansiamos por aquele dia em que “Deus enxugará as lágrimas de nossos olhos e a morte não existirá, nem haverá luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Apocalipse 21,4).

E nunca mais haverá tsunamis, nem Katrinas, nem Matthews, porque surgirá uma nova Terra, onde o ser humano terá aprendido a cuidar da natureza, e esta nunca mais se rebelará contra ele.

A política como mediação para realizar o bem comum

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Passaram-se as eleições municipais dentro de um contexto político dramático: o governo federal tem baixa credibilidade e legitimidade discutível. Grande parte dos políticos visa chegar ao poder por interesse e, uma vez nele, busca promover sua reeleição. Muitos deles não vivem para a política, mas da política. Deforma-se assim a natureza da política como busca do bem comum. Pior, o político interesseiro se coloca acima do bem e do mal. Só faz o bem quando possível e o mal sempre que necessário.

Mas importa denunciar: trata-se do exercício perverso do poder político. Max Weber, em famoso texto de 1919 aos estudantes da Universidade de Munique, desanimados com as condições humilhantes impostas pelas potências que venceram a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, já havia advertido em “A Política como Vocação”: “Quem faz política busca o poder. Poder, ou como meio a serviço de outros fins, ou poder por causa dele mesmo, para desfrutar do prestígio que ele confere”.

Esse último modo de poder político foi exercido historicamente por grande parte de nossas elites, esquecendo o sujeito e o destinatário de todo o poder, que é o povo.

SOBERANIA POPULAR – Precisamos resgatar o poder como expressão político-jurídica da soberania popular e como meio a serviço de objetivos sociais coletivos. Só este é moral e ético. É imperativo, pois, contar com políticos que não façam do poder um fim em si e para seu proveito, mas uma mediação necessária para realizar o bem comum, a partir de baixo, dos excluídos e marginalizados.

É nesse contexto que queremos recuperar esta figura ímpar de político dos tempos modernos: Mahatma Gandhi. Para ele, a política “é um gesto amoroso para com o povo”, que se traduz pelo “cuidado com o bem-estar de todos a partir dos pobres”. O mesmo se poderia dizer de outra figura exemplar: Nelson Mandela.

Nestes tempos de desesperança política, por causa do ódio que grassa na sociedade, e também por aquilo que não poucos denunciam como um golpe parlamentar-judiciário contra uma presidente consagrada por uma eleição majoritária, precisamos reforçar os governantes que se propõem cuidar do povo e fazer com que o cuidado se constitua na marca da condução da vida social no município, no Estado e na Federação.

CUIDAR DOS POBRES – Na verdade, o Brasil precisa urgentemente de quem cuide dos pobres e marginalizados. Lula e Dilma se propuseram cuidar, e não administrar o povo, mediante políticas sociais de resgate de sua vida e dignidade. Atualmente, predomina uma política que cuida menos do povo e mais dos ajustes severos na economia. Tudo é feito sem escutar o povo e até contra direitos sociais conquistados a duras penas.

Que não se diga que tal diligência representa já cuidado para com o povo. Cuidado meticuloso e até materno há, sim, para com as elites dominantes, para com os bancos e o sistema financeiro nacional e internacional.

Em lugar de cuidado, há administração das demandas populares, atendidas de forma paliativa, mais para abafar a inquietação e afogar a revolta justa do que para atacar as causas de seu sofrimento.

ESCUTAR O POVO – O cuidado para com o povo exige conhecer suas entranhas por experiência, sentir seus apelos, compadecer-se de sua miséria, encher-se de iracúndia sagrada e escutar, escutar e escutar. Deveria haver um Ministério da Escuta, como existe em Cuba. Escutar a saga do povo, seus padecimentos e suas esperanças, o Brasil que sonha. O que ele mais quer é dignidade e ser reconhecido como gente e ser respeitado.

O povo merece esse cuidado, essa relação amorosa que espanta a insegurança, confere confiança e realiza o sentido mais alto da política.

A persistência do bullying sobre o Partido dos Trabalhadores e Dilma

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

É notório o bullying político e social sofrido persistentemente pelo PT e por Dilma Rousseff. Uma coisa é reconhecer que houve corrupção e erros políticos do PT, e outra coisa é tributar quase exclusivamente tais fatos e a crise atual ao PT e à ex-presidente.

Para entender esse penoso fenômeno, socorre-nos um dos maiores pensadores da atualidade que dedicou grande parte de sua obra a decifrar o que seja a agressividade humana e seus disfarces: René Girard (1923-2015), francês, professor de letras e antropólogo, que viveu nos Estados Unidos.

Constata Girard que todos os grupos, e mesmo as sociedades conhecidas, vêm atravessados por tensões e conflitos. O processo civilizatório, a educação, as leis e as religiões propõem um ponto de equilíbrio que permita uma convivência minimamente pacífica ou que impeça que os conflitos não sejam destrutivos.

SEM EQUILÍBRIO – Mas pode chegar um momento em que os conflitos perdem as rédeas e as forças do negativo vão se acumulando, rompendo o referido equilíbrio. Começam os processos de ruptura nas relações sociais e até nas famílias e entre amigos. O instrumento mais usado é a mídia.

Lentamente, emerge o sentimento de que, assim como se encontra, a sociedade não pode continuar. Ela tem que encontrar um novo equilíbrio. Uma das formas, a mais equivocada e persistente, é a criação de um bode expiatório, que varia consoante as circunstâncias históricas: podem ser os comunistas, os sem-terra, os pobres que ascenderam socialmente, os terroristas, os muçulmanos, as esquerdas e outros.

Em nosso caso, o bode expiatório escolhido foi e continua sendo o PT e a ex-presidente Dilma Rousseff. Toda a raiva e o ódio acumulados são lançados sobre o bode expiatório. Ele carrega todas as maldades e é feito responsável por todos os desmandos ocorridos e pela crise econômico-financeira. Esquecidos ficam, consciente ou inconscientemente, todos os acertos, em especial a maior transformação social pacífica feita em nosso país, que implicou a diminuição de nossa maior vergonha, a desigualdade social e, positivamente, a integração de cerca de 40 milhões de pessoas, sempre consideradas peso morto da história.

Mas há outra função, a de ocultar. Ao colocarem toda culpa e todos os males sobre o PT e a ex-presidente, os grupos dominantes ocultam sua própria perversidade e culpa. Apresentam-se, farisaicamente, como paladinos da moralidade e tomados de indignação contra a corrupção. No entanto, exatamente dentro desses grupos dominantes se encontram os maiores corruptos, corruptores e sonegadores de impostos.

BODE EXPIATÓRIO – A Bíblia conhece também a figura do bode expiatório, sobre o qual a comunidade colocava todas as ofensas a Javé e o levava para o deserto para lá morrer. O mesmo faziam os gregos, chamando o bode expiatório de “phármacon”, que, como um remédio farmacêutico, purificava a sociedade de seus desacertos. O cristianismo o vê na figura do cordeiro imolado. O efeito é sempre o mesmo: aplacar a sociedade para que, refeita, possa equilibrar seus conflitos, até que estes se agravem novamente e acabem por criar algum outro bode expiatório.

Assim funciona canhestramente nossa história sacrificialista. Girard vê uma saída sensata: na coordenação dos interesses ao redor do bem comum, na total transparência e na inclusão de todos, sem sacrificar ninguém. Mas reconhece que esse não é o caminho seguido pela maioria das sociedades conhecidas. O mais fácil é criar bodes expiatórios, como se pratica atualmente no Brasil. Para a infelicidade geral.

Madre Teresa de Calcutá, uma santa que não acreditava em Deus

0Leonardo Boff
O Tempo

Deixemos, por um momento, as questões políticas de lado e ocupemo-nos com um tema de grande relevância existencial e espiritual. Trata-se da noite escura que a recém-canonizada Madre Teresa de Calcultá viveu e sofreu desde 1948 até sua morte, em 1997. Temos os testemunhos recolhidos pelo postulador de sua causa, o canadense Brian Kolodiejchuk, no livro “Come Be My Light” (“Venha Ser Minha Luz”, em tradução livre).

Como é notório, Madre Teresa vivia em Calcutá recolhendo moribundos das ruas para que morressem humanamente dentro de uma casa e cercados de pessoas. Fazia-o com extremo carinho e completa abnegação. Tudo indicava que o fazia a partir de uma profunda experiência de Deus.

Qual não foi nossa surpresa quando viemos a saber de seu profundo desamparo interior, verdadeira noite sem estrelas e sem esperança de um sol nascente?! Essa paixão dolorosa durou quase 50 anos.

OBSCURIDADE – Sabemos que muitos místicos testemunham essa experiência de obscuridade. Constatamo-lo em são João da Cruz, em santa Teresa d’Ávila, em santa Teresa de Lisieux, entre outros. Conhecida é a noite escura de são João da Cruz, tão bem expressa em seu poema “La noche oscura”. Ele distingue duas noites escuras: uma, a noite dos sentidos pela qual a alma vive sem consolos espirituais e numa severa secura interior. A outra é a noite do espírito, “oscura y terrible”, na qual a alma já não consegue crer em Deus, chega a duvidar de sua existência e se sente condenada ao inferno.

A modernidade, centrada em si mesma e perdida dentro do imenso aparato tecnológico que criou, vive também essa ausência de Deus que Nietzsche qualificou como “a morte de Deus”. Não que Deus tenha morrido, porque então não seria Deus, mas nós o matamos; ele não é mais um centro de referência e de sentido. Vivemos errantes, sós e sem esperança.

VIVENDO NO AMOR -Dietrich Bonhöffer, teólogo mártir do nazismo, captou essa experiência, aconselhando-nos a viver “como se Deus não existisse”. Mas vivendo no amor, no serviço aos demais e no cultivo da solidariedade e do cuidado essencial.

Suspeitamos que Jesus tenha conhecido essa noite terrível. No Jardim das Oliveiras, sentiu-se tão só e angustiado que chegou a suar sangue, expressão suprema do pavor. No alto da cruz, grita ao céu: “Pai, por que me abandonaste?” Não obstante essa ausência de Deus, se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Despojou-se de tudo. A resposta veio na forma da ressurreição como a plenitude da vida.

A noite escura de Madre Teresa nos deixa uma interrogação teológica. Ela descompõe todas as nossas representações de Deus.

UM MODO DE SER – Crer em Deus não é aderir a uma doutrina ou a um dogma. Crer é uma atitude e um modo de ser; é aderir a uma esperança que é “a convicção das realidades que não se veem” (Hebreus 11,1), porque o invisível é parte do visível.

Simone Weil, a judia que, na Segunda Guerra Mundial, se converteu ao cristianismo, mas não se deixou batizar em solidariedade a seus irmãos condenados às câmaras de gás, nos dá uma pista de compreensão: “Se quiseres saber se alguém crê em Deus, não repare em como fala de Deus, mas como fala do mundo”, se fala na forma da solidariedade, do amor e da compaixão. Deus não pode ser encontrado fora desses valores.

Madre Teresa de Calcutá, no amor aos moribundos, estava em comunhão com o Deus abscôndito. Agora, que já se transfigurou, viverá a presença de Deus face a face no amor e na comunhão.