Um país devastado, com a administração pública no caos

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Sebastião Nery

Em 1953, Getúlio Vargas era presidente da República. Jânio Quadros, prefeito de São Paulo; Carvalho Pinto, secretário da Fazenda de São Paulo; Coriolano Góes, diretor geral da Cexim (Carteira de Exportação e Importação do Banco do Brasil). Uma tarde, aparecem no gabinete do diretor da Cexim, no Rio, Jânio Quadros e Carvalho Pinto. Precisavam de uma audiência urgente para uma licença especial do governo federal para importar da Alemanha peças para os ônibus da CMTC, a empresa municipal de ônibus. O chefe de gabinete, Virgilio de Góes, filho do diretor, lhes diz que o pai não costumava receber ninguém à tarde, mas que, evidentemente, tratando-se do prefeito de São Paulo, a exceção era normal.

Jânio entrou no gabinete, ficou duas horas, saiu sorrindo, chamou Virgílio, pegou-lhe as duas mãos, encostou-as ao peito, entortou os olhos, revirou os ombros, dobrou as canelas e lhe disse pateticamente:

– “Meu jovem, devo-lhe a salvação da CMTC”.

– “Nada disso, prefeito. É apenas dever do governo federal ajudar a Prefeitura de São Paulo”.

– “Quero que me diga, qualquer dia em que precisar de alguma coisa, o que deseja, fa-lo-ei imediatamente”.

– “Muito obrigado”.

Janio foi saindo, voltou-se sobre os calcanhares retorcidos: – “Aliás, nem precisa telefonar. Pense, apenas pense, que eu atenderei”. E sumiu.

PEDINDO SOCORRO – Hoje já não se fazem Jânios como antigamente. Prefeitos e governadores estão em tais dificuldades que vivem de pires na mão pedindo socorro ao governo federal, que, também no sufoco, não pode atender.

Administrar a folha de pagamento dos Estados vem sendo a prioridade dos atuais governadores. A crise estrutural nas finanças públicas estaduais tornou-se um drama nacional. O desequilíbrio fiscal, que atingiu níveis recordes na estrutura do governo federal, estende-se praticamente a todas as unidades federativas. O ciclo de endividamento atingiu o máximo, agravado pelo populismo do mundo político. Os programas fantasias das administrações estaduais não resistem mais à realidade.

Acrescente-se o indiscutível despreparo público de vários governadores. Boa parte está mais preocupada com o seu destino e não com a população que representam. Em vez de sanearem as contas públicas, enfrentando os desafios fundamentais para o futuro, preferem o caminho fácil da propaganda mistificadora. O Estado do Rio é um exemplo de deterioração das finanças públicas.

PAGAMENTOS OBRIGATÓRIOS – E o mais grave, embora não o único: o pagamento de salários e aposentadorias vem sendo um drama. A origem está na correção das remunerações maiores do que a capacidade de arrecadação estadual, agravada com o endividamento dos Estados, tendo o Tesouro Nacional como avalista de financiamentos, em desacordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Governos populistas e submetidos às corporações (a exemplo do que ocorria no governo federal) adotaram a irresponsável contabilidade criativa. Agora estão colhendo o fruto.

O governador Rodrigo Rollemberg, de Brasília, constatou que 77% do orçamento são gastos com pessoal e inativos. Eleito pelo PSB, o partido dos socialistas, em uma coligação de esquerda, ele diz que é fundamental uma nova esquerda enfrentar o corporativismo dos sindicatos de uma velha esquerda. Ao assumir o governo, reduziu de 38 para 19 o número de secretarias e cortou 5 mil cargos de livre provimento.

-“O corporativismo está contribuindo para amplificar e aprofundar as desigualdades sociais. Quando o Estado perde a capacidade de fazer investimentos nas áreas de infraestrutura, porque os recursos estão sendo drenados para o pagamento de salários, estamos aprofundando um cenário de desigualdade social”.

DÉFICIT CRESCENTE – Hoje o déficit dos regimes próprios estaduais está por volta de R$ 64 bilhões, podendo em 2020 atingir os R$ 101 bilhões. Nos Estados existem 1.440 milhão de servidores aposentados e mais 490 mil pensionistas. Já os servidores ativos são 2,6 milhões, equivalendo a diferença dos ativos e inativos a uma proporção insustentável.

Em 1960, Kennedy também ia perder para Nixon…

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Vitória de Kennedy  também foi surpresa

Sebastião Nery

Naquele outubro de 1960, terminado o longo e monumental Congresso Internacional de Municípios em San Diego, na Califórnia, que durara duas semanas, um grupo de jornalistas baianos alugou um carro e saímos até São Francisco. Eu tinha ficado amigo do presidente do Conselho Municipal de Los Angeles, jornalista como eu, que me convidou para hospede de sua cidade por uma semana e conhecer além do que mostrava o cinema de Hollywood.

Embora só eu fosse ter a mordomia da hospedagem em Los Angeles, os outros toparam a viagem toda. E convidei minha bela amiga Mara, jornalista da Guatemala, já mais do que amiga, cara, cabelos e grandes olhos aveludados de índia, parecendo um desenho de Paul Gauguin. Ela ia voltar exatamente para lá, onde morava e estava instalada a representação do seu jornal e revista da Guatemala.

O Impala rabo de peixe, capota conversível, dava perfeito para cinco.

RUMO AO DOWNTOWN – Pedimos algumas informações no primeiro posto policial, aprendi que o macete era seguir sempre o “Downtown”. E lá fomos nós atrás do “Downtown”. Uma ponte, duas pontes, milhares de pontes, um viaduto, dois viadutos, milhares de viadutos, vários trevos e perdemos nosso “Downtown”. Tocamos em frente. Não sabíamos para onde íamos, mas íamos.

De repente escrito numa placa: Hollywood. Mais à frente, outra placa: Beverly Hills. Viramos numa curva e apareceu uma casa com uma placa:

– “Nesta casa viveu Carmen Miranda”, etc.

Morrera cinco anos antes, em 1955. Paramos. Exploramos Hollywood toda. À noite, o “Down-town” nos levou ao centro.

COMÍCIO DE KENNEDY – Acordamos evidentemente cansados. Meu anfitrião estava eufórico:

– “Vocês brasileiros têm mesmo estrela. Hoje à tarde vão ser recebidos pelo futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Daqui a pouco estarei aí para pegá-los para o almoço e depois levá-los ao grande comício”.

Kennedy abria sua campanha na Califórnia. Quando chegamos ao hotel onde seria o comício, pequena multidão já enchia as ruas próximas. Na frente do hotel, um palanque e, tocando guitarra e pulando montado em um microfone de pé um rapaz claro, muito branco, pálido, cabelos bem pretos até a testa, arrebatava os ouvintes com seu rock alucinado: era Elvis Presley.

No fim da tarde, bem jovem, alto, elegante, de gravata, uma flor no bolso do paletó, Kennedy subiu correndo a escada que dava para o palco levantado em frente ao hotel e fez seu primeiro discurso. Depois, um segundo lá dentro, no grande salão, todo enfeitado de bandeiras e balões;

POUCAS PALAVRAS – Só quase madrugada o presidente do Conselho de Los Angeles nos apresentou ao candidato para um cumprimento e nada além de umas poucas palavras. A fila era enorme. Mas deu para ver e sentir bem, nos dois discursos e naqueles dez minutos do encontro, que havia “uma força estranha no ar”.

Uma semana toda em Los Angeles, conversando com jornalistas e políticos, a maioria suspeita porque do Partido Democrata, deu para sair de lá convencido de que havia alguma coisa errada na imprensa americana e também na brasileira, que já davam Nixon, vice de Eisenhower, como eleito. A Mara trabalhava lá há muito tempo e tinha um grande circulo de amigos jornalistas, principalmente europeus, latino-americanos e da América Central, cujos jornais e revistas sediavam em Los Angeles seus correspondentes. Conversei com eles. E em São Francisco fomos ainda a mais dois comícios de Kennedy. A mesma comunicação, o sorriso aberto, as frases curtas e fortes e a promessa de que era preciso mudar. E a imprensa insistindo em Nixon.

Apertado, menos de 1%, 130 mil votos, mas Kennedy ganhou. Anos depois, o saudoso Samuel Wainer me disse:

-“Você escreveu aquilo como em um cassino de Las Vegas. Arriscou e acertou. O José Guilherme (Mendes, mineiro correspondente da “Última Hora” nos Estados Unidos), me disse que você ficou envolvido pelo rock de Elvis Presley”.

Mas quem ganhou foi Kennedy.

Hoje, meio século depois, a Hillary é uma hilária e o Trump uma trampa.

Palocci, Bernardo e o ajuste que a oposição quer destruir

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Em 2005, Dilma derrubou o ajuste e implantou a gastança

Sebastião Nery

Esta é quase uma historia de horror. Em 2005, no primeiro governo de Lula, os ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e do Planejamento, Paulo Bernardo, dois poderosos ministros do governo, prepararam um PAF (Plano de Ajuste Fiscal), um projeto de ajuste fiscal realista, fixando o limite de gastos públicos por dez anos, impedindo seu crescimento acima do PIB (Produto Interno Bruto). Quando o PAF chegou à Casa Civil, a ministra Dilma Rousseff liquidou o projeto, fundamental para o equilíbrio das finanças públicas, com uma frase de quatro palavras: – “É um ajuste rudimentar”. Era um tiro de escopeta. Pareciam tempos de Hitler ou Stalin.

Os dois ministros, ao invés de enfrentarem o primarismo da Dilma e convencerem o presidente da República da importância de uma base orçamentária realista, aceitaram a qualificação de “rudimentares”.

DILMA E MANTEGA – Com o afastamento do ministro Palocci, assumiria a Fazenda Guido Mantega, o anti-Palocci, adepto da gastança, que permaneceria nos governos Lula e Dilma.

Eleita presidente em 2010, Dilma Rousseff implantaria a desastrada “Nova Matriz Econômica”, onde o BNDES foi vítima e por extensão toda a sociedade brasileira. Dilma adotaria verdadeiramente uma “política econômica rudimentar”. O País iria afundar em dívidas impagáveis, juros na estratosfera, queda de arrecadação, desemprego na escala de milhões, renda per capita encolhendo em 10%, dívida pública bruta acima de R$ 4,3 trilhões, levando os Estados federativos a situações pré-falimentares.

APARELHAMENTO – Tudo isso foi gerado pelo gasto público irresponsável e aparelhamento do Estado por corporações que usufruíram vantagens de todo tipo: algumas empresas ganharam o apelido de “campeãs nacionais do desenvolvimento”. Um dos exemplos, mas não único, foi o empresário Eike Batista e suas empresas simbolizadas no X de multiplicação, hoje todas elas em situação falimentar. As outras, a “Lava Jato” está revelando.

Se em 2005 o Ajuste Fiscal de Palocci e Paulo Bernardo tivesse sido aprovado, o Brasil não estaria mergulhado no cenário de horror e brutal recessão econômica. A PEC que limita os gastos públicos, agora aprovada na Câmara dos Deputados, poderia ter se transformado em realidade onze anos atrás. Seus fundamentos básicos já estavam presentes na proposta dos dois ministros do PT.

PRISÕES – Satanás não perde tempo. Desolados com seu partido e seu governo, Palocci e Bernardo enveredaram pelos becos do pecado, pelos caminhos do mal. A Lava Jato os pegou na esquina do dinheiro sujo. Palocci está na cadeia, Paulo Bernardo aguardando tornozeleira nas pernas. E Lula se escondendo da Policia quando pensa no juiz Sergio Moro.

O líder do PT na Câmara, o alegre baiano Afonso Florence, ignorando essa realidade, ainda afirma: – “A aprovação da PEC do teto dos gastos representará o desmonte de todas as políticas públicas do Brasil”.

É seguido pela amazônica senadora Vanessa Grazziotin, ao qualificar a PEC 241 de “PEC da maldade”: – “Quem vota a favor da PEC 241 vota contra o Brasil.”

Eles acreditam que o dinheiro público é infinito, desconhecendo que sem o ajuste o resultado será a explosão da inflação, da dívida pública, do desemprego, da falência de empresas e falta de recursos para os investimentos sociais.

APENAS O COMEÇO – O despenhadeiro em que jogaram o Brasil exigirá muito tempo para tirá-lo de lá. O ajuste das contas públicas é apenas o começo. As reformas na estrutura estatal, destacadamente na Previdência, na legislação trabalhista e na área tributária, são imprescindíveis.

Sem o enfrentamento dessas reformas, o desequilíbrio fiscal estrutural estará presente na economia brasileira. Exigirá coragem, determinação e consciência de saber estar construindo, para o futuro, o País que o seu povo merece e tem direito.

O voto secreto e o coronel Chico Heráclio

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Charge do Mário, reprodução da Tribuna de Minas

Sebastião Nery

Chico Heráclio, o mais famoso coronel do Nordeste, mandava e desmandava em Limoeiro, Pernambuco.Era o senhor da terra, do fogo e do ar. Ou obedecia ou morria. Fazia eleição como um pastor. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo, um a um, para o curral cívico. Na mão, o envelope cheinho de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia. Intocado e sagrado como uma virgem medieval.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito:

– Coronel, já cumpri meu dever, já fiz o que o senhor mandou. Levei as chapas, pus tudo lá dentro, direitinho. Só queria perguntar uma coisa: – Em quem foi que votei?

– Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessa. O voto é secreto.

GUETO – No mundo existem 236 países. Em 205 é adotado o voto facultativo como tradição democrática. Já o voto obrigatório fica em um “gueto” de 31 países, a maioria na América Latina, onde imperam as oligarquias, aliadas do atraso e da antimodernização. Entre as 15 maiores economias do mundo, só no Brasil o voto é obrigatório. A totalidade dos países desenvolvidos, ao adotar o voto facultativo, demonstra que esse devia ser o caminho da sociedade brasileira.

Pesquisa do DataFolha mostra que 64% dos brasileiros são contra o voto obrigatório. A Agência Senado consultou 2.542 brasileiros e encontrou 85% de apoio ao voto facultativo.

O voto é um direito da cidadania, não um dever, como exige a atrasada legislação eleitoral brasileira. O percentual recorde de abstenção, mais nulo mais branco, na última eleição municipal, deixou lição que precisa ser aprendida. O desprezo pelo voto obrigatório, de acordo com a Ecopolítica (do Tribunal Superior Eleitoral), foi de 43% em Belo Horizonte; 42% no Rio e 38% em São Paulo. O recado das três capitais estende-se por todo o País.

Em São Paulo, o prefeito João Dória foi brilhantemente eleito no primeiro turno, com o total de 3.085.167 votos. Já a abstenção, o voto nulo e os brancos foram superiores: 3.096.304 nulos. O total dos inválidos foi maior do que os válidos.

VOTO OBRIGATÓRIO – No Brasil o voto é exigência legal, punindo o eleitor ausente que deve justificar-se na Justiça Eleitoral, para não ter interditado os seus direitos políticos. A punição é severa, não podendo participar de concurso público, matricular-se em universidades federais, tirar carteira de identidade, passaporte ou obter empréstimos em bancos públicos. O voto obrigatório é uma clara tutela do cidadão, determinando arbitrariamente punição em um regime democrático. A obrigatoriedade de votar no Brasil é um exemplo de subdesenvolvimento político.

Os seus defensores estão enquistados nos três poderes republicanos. Os diferentes partidos em todos os padrões ideológicos, direita, esquerda, centro e adjacências, defendem a obrigatoriedade do voto. No Judiciário, amplos setores entendem que os brasileiros não estão preparados para o voto facultativo. No Executivo não é diferente. Já no mundo desenvolvido, onde as populações têm mais elevados índices de integração humana e democrática, prevalece o voto facultativo.

ALVARO DIAS – Antenado com o desejo dos brasileiros, o senador Álvaro Dias (PV-PR) formulou Emenda Constitucional defendendo o fim do voto obrigatório, por ser incompatível com as liberdades individuais.

– “O voto obrigatório no Brasil estimula os altos índices de abstenção, votos nulos e brancos, bem como escolha de qualquer candidato só para cumprir obrigação jurídica de votar e escapar das sanções legais”.

No Supremo, o ministro Marco Aurélio, defensor do voto facultativo, entende que o voto obrigatório deva ser abolido. No Tribunal Superior Eleitoral, a sua grande maioria expressa essa tese anacrônica.

O voto facultativo é a expressão máxima de uma democracia real, o voto obrigatório uma clara anomalia democrática. A verdadeira reforma política deveria começar pela revogação da obrigatoriedade do voto. Ela é uma das causas da corrupção política.

Circulando com Ulysses em Roma

Resultado de imagem para ULYSSES GUIMARÃES EM ROMASebastião Nery

Em abril de 1991 tive uma grande alegria em Roma, onde era Adido Cultural. Fui ao aeroporto Fiumicino receber Ulysses e dona Mora. Ele chegava magoado com o PMDB que lhe havia tirado a presidência do partido. Durante duas semanas ciceroneei os dois, a irmã e uma amiga de dona Mora, dirigindo meu carro pelos monumentos, palácios, igrejas, ruínas, catacumbas e restaurantes romanos.

No bar do estrelado Hotel d’Inghilterra, onde a nobreza paulista costumava hospedar-se, na via Bocca di Leone, abaixo da Piazza di Spagna, enquanto esperava dona Mora e a irmã descerem do apartamento para jantarmos na primeira noite, o velho Ulysses só pensava no Brasil.

Queixava-se de não ter continuado na presidência do partido. Achava que o PMDB lhe devia isso, sobretudo depois da derrota eleitoral para a Presidência da Republica. (Collor ganhou). Mas em tantas conversas de horas seguidas, eles passeando e eu pajeando-os dirigindo meu carro com carinho e emoção pelos caminhos eternos de Roma, nem uma vez ele reclamou do comportamento do governador Orestes Quércia na eleição.

APOIO DE QUÉRCIA – Pelo contrário. Citou vários governadores do PMDB e sobretudo as bancadas no Senado e na Câmara, que não tinham acreditado na sua candidatura e por isso não se empenharam na campanha. Lamentava que nem seu dileto amigo Pedro Simon, governador do Rio Grande do Sul, tivesse se empolgado com sua campanha, tanto que foi a São Paulo convidar Quércia, em nome dos demais governadores, a ser o candidato:

– “Se o Simon chamou o Quércia é porque não acreditava”.

Também falou no erro da candidatura de Waldir Pires a vice:

– “Não sei por que o Waldir deixou o governo da Bahia para ser vice, se durante toda a campanha em nenhum instante acreditou nela”.

E contou a dramática reunião de Brasília, na véspera da convenção, na casa dele, em que quase todos os governadores do PMDB, mobilizados por Moreira Franco, governador do Rio, foram lá pedir-lhe que desistisse, porque não teria chances. Quem falou por todos foi Pedro Simon. Quando Ulysses perguntou quem seria o candidato no lugar dele, todos se calaram:

– “Ali tive a certeza de que o Calabrês (assim às vezes se referia a Quércia) não estava me traindo. Foi correto comigo, como outros não foram. Se tivesse aceito o insistente convite dos outros para ser o candidato bastava que o indicassem e eu teria retirado meu nome. Mas ninguém disse nada. A Mora ficou irritada, foi buscar um café e a conversa acabou ali”.

EXEMPLO DE GRATIDÃO – Em outro jantar, na hora do “poire”, Ulysses disse que depois soube o que Quércia respondeu a Pedro Simon e aos que foram a São Paulo convidá-lo para ser o candidato:

– “Enquanto doutor Ulysses for candidato, não aceito nem tratar do assunto. Ele é o nome natural do partido, por tudo que ele é, pelo que fez e porque o país o vê como símbolo do PMDB. Alem disso, preciso terminar meu governo, ainda faltam quase dois anos. Se um dia doutor Ulysses retirasse a candidatura, só então eu poderia conversar. Tenho gratidão e deveres com ele. Ainda muito jovem, quis ser candidato a deputado estadual, ele me apoiou. Fui prefeito de Campinas com apoio dele. Participou de minha campanha para senador. Jamais disputaria com ele”.

UMA CARTA DE ULYSSES – Quando voltou ao Brasil, Ulysses me mandou esta carta:

“Brasília, 17 de abril de 1991

Meu querido Sebastião Nery,

Você é demais. Suas palavras me convenceram. Seu artigo (sobre Ulysses e o Parlamentarismo) teve ampla e consagrada repercussão. Todo mundo me fala dele. Deus lhe pague!

Mora e suas amigas ficaram deslumbradas com seu talento, sua erudição, a fluência e competência com que nos instruiu sobre coisas inéditas da eterna Roma.

Eu sou sua velha e barulhenta “macaca de auditório”.

Se tiver coisas sobre o parlamentarismo, envie. O parlamentarismo republicano, com a eleição de Presidente, não o monárquico sem eleição.

Dê notícias e quando vier ao Brasil não se esqueça de aparecer ao fraterno amigo e convicto admirador,

Ulysses Guimarães”.

 Não era uma carta. Era uma condecoração.

O naufrágio do PT e a necessidade da reforma política

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Fotomontagem reproduzida do Arquivo Google

Sebastião Nery

A história da humanidade tem naufrágios que ultrapassaram os tempos, como o do cônsul Pompeu voltando da África para Roma. No Brasil a Bahia nasceu do naufrágio do valente aventureiro Caramuru. Perdemos o bispo Sardinha nas costas do nordeste. E na história universal o Titanic, o supernavio afundado. Nesta semana mais um naufrágio veio para carimbar a história da política brasileira. Depois de 30 anos de belas vitórias, muitas loucuras, falcatruas e numerosas prisões, o PT naufragou de norte a sul do país. Não sobrou nenhuma liderança.

Lula está lá em São Bernardo escondendo-se da Polícia Federal. Dilma não quer ficar em Porto Alegre, mas fora de lá não tem onde se esconder. José Dirceu, Palocci, Vaccari, não podem atender o telefone. Preso não atende telefone. Não sobrou ninguém. Nem o talentoso ex-ministro Tarso Genro, porque ninguém quer papo com ele.

Perder São Paulo já seria uma derrota dolorosa, mas compreensível. O que é inexplicável é o PT, depois de tantos mandatos, ser escorraçado da capital, sem conseguir sequer chegar a um segundo turno. Nem isso. Foi derrotado, humilhado e ofendido.

O RETRATO – Com exceção do distante, minúsculo e boliviano Acre, em todos os estados onde tentou disputar alguma coisa foi varrido pelos eleitores. Não se salvaram nem o Rio Grande do Sul onde já teve berço e cama. Nem o ABC paulista com seus numerosos sindicatos e alguns outrora poderosos diretórios políticos e sequer no Nordeste que já foi um dia proclamado como território sagrado do partido. De tanto esconder-se, dele os eleitores e as urnas se esconderam. Como a Itabira do poeta, o PT ficou reduzido a um retrato na parede. Mas como dói.

Algum tempo vai ser preciso, mas logo logo o país sentirá o alívio que foi o sumiço do PT. Chegará ao fim a ladainha escondida atrás de discursos demagógicos, explorando a ingenuidade popular. Nunca mais ninguém dirá que nunca antes na história deste país houve alguém como ele ou que é mais honesto do que Jesus Cristo.

NOVOS TEMPOS – Parece pressa, mas chegou a hora. O Congresso tem o dever de começar uma reforma política para ficar pronta antes de 2018. Houve avanços, mas ainda são poucos. Acabar com o financiamento empresarial das eleições foi um salto. Mas não basta. É preciso regulamentar o financiamento individual para que espertos não finjam estar dando dinheiro que é dele quando não é.

Muita coisa há para reformular. Por exemplo: por que não começar a discutir um sistema parlamentarista que seja integral ou ao menos um que seja misto? O país está maduro para esta reforma. Mais urgente ainda é acabar com o vergonhoso carnaval dos partidos. Cinquenta partidos (funcionando ou a funcionar) tornam a democracia um fantoche. Eles passam a ser fundados ou a existirem apenas em função da teta gorda do Fundo Partidário e dos negociáveis tempos de TV e de rádio.

Mais de 10 partidos já seriam um exagero, e 50? Tornam-se um sórdido balcão de negócios. É claro que essas coisas não se implantam do dia para a noite. Mas na hora em que algumas dezenas de parlamentares sérios, que existem no Congresso, se dispuserem a preparar um projeto de cláusula de barreira, como existe em todas as democracias, a pressão da opinião pública virá irresistível. É preciso querer e fazer.

O excelente deputado Miro Teixeira tem tempo, independência e autoridade para começar esta batalha.

A escravidão também jamais iria acabar. Mas um dia acabou.

Jango em Paris, quando ainda tinha esperança de viver

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Jango desobedecia aos médicos e continuava fumando

Sebastião Nery

Faz 40 anos, neste setembro da 2016. Em 1976, acabada a Constituinte portuguesa (quando escrevi “Portugal, Um Salto no Escuro”, para a Francisco Alves), com vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, iria começar a da Espanha. Viajei pela “IstoÉ” e “Correio Braziliense”. Antes dos comícios da Espanha, fui passar duas semanas em Paris e soube que o ex-presidente João Goulart estava na cidade, cuidando do sofrido e alquebrado coração. Estava hospedado no hotel Claridge (Champs Élysées, 74). Fui lá deixar-lhe um cartão com um abraço brasileiro. Saindo do hotel, encontrei o Carlos Castello Branco, do “Jornal do Brasil”, que fora conversar com ele. Estava preocupado:                                                              – O Jango não está bem, muito pálido e inconformado com o exílio.

Deixei um bilhete, com o telefone do hotel onde estava hospedado (o “Argentine”, ao lado do Arco do Triunfo). No dia seguinte, um recado do Presidente. Esperava-me para uma conversa. Conversamos horas. O Castelinho tinha razão. A ditadura militar estava assassinando Jango.

HITLER – Talvez eu tenha sido inábil ao lembrar-lhe a história rocambolesca do hotel dele. O “Claridge”, onde tantas vezes me hospedei quando era no máximo de 200 dólares a diária, faz parte da história cultural, política e militar de Paris. Nele viveram artistas, escritores e generais alemães. Colette, a dama das letras, morou lá, como o cantor Maurice Chevalier. Quando Hitler invadiu Paris em 1940, o marechal Von Rundstedt, com seu ajudante de ordem o coronel Paulus, ocupou a suíte central , a mais bonita.

Finda a guerra, o diretor M Machenaud, serviçal e puxa saco, foi preso e executado pelas tropas de De Gaulle. Em agosto de 45 os nazistas derrotados foram substituídos por gente melhor, como Marlene Dietrich e Jean Gabin, a divina Edith Piaf, o automobilista argentino Manoel Fangio, Evita e Juan Perón, Ella Fitzgerald, Scott Fitzgerald, o poeta Ezra Pound, o cantor Ray Charles, a atriz Jane Mansfield, o ator Curt Jurgens, o cineasta Luis Buñuel, de novo Perón em 73, já agora com sua Izabelita.E Pavarotti.   Jango espichava a dura perna direita, olhava os móveis e cortinas do bar, bebia mais um uísque, ficava calado e infinitamente triste. Ia morrer.

EXCELENTE BIOGRAFIA – Voltei ao Brasil lendo a excelente biografia de João Goulart, bem documentada e sobretudo verdadeira, do professor e historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPQ. Não era novidade para quem conhecia suas exemplares e convincentes pesquisas sobre o trabalhismo brasileiro: “O Imaginário Trabalhista – Getulismo, PTB e Cultura Política Popular”, “Prisioneiros do Mito – Cultura e Imaginário Político dos Comunistas no Brasil”, “O Populismo e sua Historia”.

Jango viajara para a Europa para fugir das ameaças que passara a sofrer na Argentina e tomar providências para encontrar uma residência em Paris, onde residiria até o retorno ao Brasil.

EXILIO – Em Paris, Jango encontrou-se com Abelardo Jurema e José Gomes Talarico, a quem pediu que procurasse Mário Soares para agradecer-lhe o convite para ir a Portugal. Não deveria aceitar, pelo constrangimento que causaria ao líder português, no início do mandato. Mas pedia que ele regularizasse a situação dos exilados brasileiros. Mário Soares manifestara preocupação com Brizola vivendo sob a ditadura uruguaia. E sugeriu que ele fosse para Portugal. Brizola foi.

O médico suíço concluiu que o coração de Jango era frágil como o de um homem de 80 anos, quando, na época, tinha 56. O médico francês disse que sem perder peso e parar de fumar a medicina nada poderia fazer:

-“Monsieur President, si on ne veut pas vivre, on ne vit pas.” (“Senhor Presidente, se não se quer viver, não se vive”)

Negava-se a parar de fumar. Escreveu para Cláudio Braga:

– “Estou concluindo exames com resultados bem razoáveis, especialmente considerando que não me sujeito a prescrições”.

Em dezembro de 76 Jango morria numa fazenda na Argentina. Por mais que fuçassem sua vida, os militares brasileiros e americanos nada encontraram para denunciá-lo. Seus ministros da Fazenda eram Moreira Sales e Santiago Dantas. Não eram o prisioneiro Mantega nem Palocci.

O velho e o rio

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O Velho Chico era defendido pelo velho Manoel Novaes

Sebastião Nery

Manoel Novaes fazia comício em Barra, à beira do São Francisco, nos estorricados sertões da Bahia. Um candidato a vereador fala ao povo, apinhado na praça da feira:

– Minha gente, quem deu a perfuratriz?

– Foi Novaes.

– O que é que a perfuratriz faz?

– Fura e tira água do rio.

– A vaca que dá leite a nossos filhos bebe o quê?

– Bebe água.

– Então quem dá leite a nossos filhos?

– É Novaes.

– Então Novaes é a vaca santa do rio e do sertão.

Durante mais de meio século, Manoel Cavalcanti de Novaes, alto, dois metros, voz de trovoada, cara grande e generosa de sertanejo, olhos fortes, ensolarados, foi isso: a vaca santa, sagrada, que dava água e leite, esperança e trabalho no infinito sertão do São Francisco.

O grande homem é aquele que se faz sinônimo de sua gente, de seu chão. Manoel Novaes foi uma vida a serviço de um rio muito longo e um sertão muito seco. Deixou o umbigo e o destino nas barrancas molhadas do São Francisco e no pó amarelo do sertão.

SÃO FRANCISCO – A tragédia que afogou o ator da TV Globo Domingos Montagner trouxe novamente o rio São Francisco para as manchetes nacionais. E com ela o rio sinônimo da Nação, centro, sul e norte, símbolo da unidade nacional.

Novaes foi uma vida a serviço de sua gente. Pernambucano, em maio de 1933 elege-se para a Assembleia Nacional Constituinte pelo Partido Social Democrata da Bahia. Reeleito em 1934, não parou mais. Foi um dos mais perenes parlamentares do mundo, com uma dúzia de mandatos consecutivos. Fora a interrupção da ditadura de Vargas, entre 1937 e 1945, com o Congresso fechado, Novaes passou a vida na Câmara.

Novamente constituinte em 1945, conseguiu aprovar 1% da receita tributária da União, durante 20 anos, para aplicação no Vale do São Francisco. Em 1946 já presidia, na Câmara, a Comissão Permanente de Transportes e a Comissão Especial da Bacia do São Francisco. Sempre reeleito, em 1950, 54, 58, 62, 66, 70, 74, 78, 82, participou da direção do “Centro de Estudos e Defesa do Petróleo”, que a partir de 1948 comandou a luta pelo monopólio estatal do petróleo. Até 1987, quando deixou o Congresso, sua luta, sua tarefa foi a defesa do Vale do São Francisco, para que um rio tão gordo não deixasse seco um sertão tão magro.

LAVA-JATO  – Houve um tempo, longo tempo, nas décadas de 50 e 60, em que Novaes não era apenas um mandato, era uma bancada. Decidia a eleição de muita gente, bancadas inteiras. Líder do PR (Partido Republicano), era o fiel de balança nas eleições para o Governo da Bahia.. Quando se aliava ao PSD-PTB, ganhavam juntos. Aliado à UDN-PTB, também ganhavam. Novaes era o “Barão do São Francisco”, o “líder do sertão e da caatinga.”

Aos 81 anos, fora do Congresso, onde viveu 47 anos, Novaes não se aposentou. Sentou-se à máquina e escreveu as “Memórias do São Francisco”, história da vida de um rio que também é história da vida de um homem. Um rio que, hoje, graças a ele e à competência do professor e cientista Eliseu Alves e sua equipe na Codevasf e na Embrapa, é símbolo e prova de que a irrigação é o caminho para salvar o sertão e o Nordeste. Foi um homem-exemplo de dedicação, desprendimento, generosidade e serviço público, com austeridade e honradez de monge.

DE MÃOS LÍMPIDAS – Esse homem que mobilizou, comandou, distribuiu, aplicou, durante 20 anos, uma das maiores verbas orçamentárias específicas do país e teve um peso político e eleitoral tantas vezes decisivo nos Governos da Bahia e do país, esse homem que passou a vida com o dinheiro público em suas mãos ou nas mãos daqueles que ele indicava para gerir, aplicar, esse homem chegou aos 80 anos e se afastou da vida pública pobre, honrado, incorrompido, incorruptível, fora e acima de qualquer Lava-Jato

Como os profetas, entrou e saiu da cidade do poder de mãos límpidas.

A falta que Juscelino Kubitschek faz

Resultado de imagem para juscelino kibitschekSebastião Nery

O telefone tocou na casa de praia de Madame Schneider, uma francesa amiga de Juscelino Kubitschek, a 20 quilômetros de Saint Tropez, no sul da França, onde ele, dona Sara, as filhas Márcia e Maristela e o ex-secretário amigo dileto Olavo Drummond passavam uns dias descansando, depois de deixar a presidência da República em 31 de janeiro de 1961.

Era o empresário, poeta e redator de alguns dos históricos discursos de Juscelino, Augusto Frederico Schmidt, falando do Rio: “Juscelino, estou recebendo um clipping das revistas dos EUA. A revista “Time” está dizendo que você é “a sétima fortuna do mundo”.

Conversaram, Schmidt desligou e Juscelino ficou deprimido, amargurado. Olavo o chamou para darem uma volta:

“Presidente, hoje de manhã, quando fui comprar os jornais, quem estava na banca era a Brigitte Bardot. Podemos encontrá-la de novo”.

Juscelino riu. Saíram. A primeira pessoa que viram foi a Brigitte Bardot, no auge do sucesso, com aquela carinha de paraíso terrestre depois da maçã, cercada de fãs, tirando fotografias. Juscelino se afastou:

“Olavo, se eu sair com essa mulher em um fundo de fotografia, a imprensa vai dizer no Brasil que estou namorando com ela.”

Mas não esqueceu a história da “sétima fortuna do mundo”.

MENTIRA REPETIDA – Quatro anos depois, a embaixada da Inglaterra no Brasil mandaria a Londres um documento para o “Foreign Office”, sob o cód.371/179250:

“O ex-presidente Kubitschek retornou ao Brasil. Não há dúvida de que ele é popular, com seu charme e suas ideias expansivas e grandiosas. Mas ele era um verdadeiro símbolo da corrupção, saiu da pobreza para a posição de sétimo homem mais rico do mundo, segundo a revista “Time”.

Essa história do “sétimo homem mais rico do mundo” era então exaustivamente repetida pelo ex-deputado da UDN baiana Aliomar Baleeiro, e outros udenistas, civis e militares, depois do “Golpe de 64”.

Era uma velha indignidade. Na véspera de passar o governo a Jânio Quadros em 31 de janeiro de 1961, Juscelino reuniu um grupo de ministros, auxiliares e amigos no Palácio da Alvorada. Chega Jose Maria Alkmin: “Juscelino, estou seguramente informado de que o Jânio vai fazer um discurso agressivo contra você, na sua frente, na solenidade de transmissão do cargo, no Palácio do Planalto”.

“Vou passar o cargo ao presidente que o povo elegeu. Só o Dutra passou. Quero dar uma demonstração ao mundo de nossa democracia”.

“E se ele fizer um discurso agressivo?

“Dou-lhe uma bofetada na cara e o derrubo no meio do salão. Vai ser o maior escândalo da história da República”.

Não houve discurso nem bofetada.

CARTA DE JK – “Rio de Janeiro (GB) 15 de agosto de 1973.

Meu caro Sebastião Nery.

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que Sarah e eu ficamos encantados com a dedicatória com que nos distinguiu. Ao oferecer suas 350 Histórias do Folclore Político.

Palavras, não do fulgurante jornalista, mas do amigo de sempre, fiel e querido. Realmente, você tem razão: os políticos, os dirigentes dos países, os estadistas não fazem a história. Nem a compõem tampouco os heróis de Carlyle. Os homens públicos apenas se agitam, quando muito, como você o diz, lançam a semente.

O seu excelente livro fez-me a alegria de uns dias intermináveis, porque a cada anedota, a cada uma dessas admiráveis blagues eu voltava com ansiedade e o riso renovado.

Ainda bem que os homens do passado fizeram a crônica dos tempos políticos não com a violência, mas com a graça, o humor e esta extraordinária sensação da consciência limpa e tranquila.

O que você conta se renova, através da força com que reveste o dito e dá festa de sol e calor a esses casos isolados do interior que na sua pena de mestre se projetam na grande página da capital.

Particularmente, sinto-me honrado de figurar neste seu suave repositório de verve e de sutil perspicácia, repleto de uma cordialidade que nos une e nos comove.

Receba meus parabéns e sinceros agradecimentos.

Com muita amizade e crescente admiração, do amigo de sempre

Juscelino Kubitschek”

(No dia 22 de agosto fez 40 anos que JK morreu. Foi o maior presidente que o pais teve. E a falta que ele faz!)

As dores de Dilma e a verdade histórica

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Oficiais ocultava os rostos  para não serem reconhecidos

Sebastião Nery

A ministra sentou-se numa cadeira para conversar com o médico. Falaram sobre o tratamento inadiável, doloroso e incômodo. O exame definitivo tinha chegado de um laboratório de Houston, nos Estados Unidos, naquela sexta, 17 de abril (2009). Um breve silêncio foi quebrado por um suspiro longo: “A vida não é fácil. Nunca foi”.

A ministra seguiu para a entrevista coletiva. Parecia segura. Vestia um casaco de linho vermelho sobre a blusa de seda preta, o decote redondo acompanhava a curva do colar de pérolas. Era a Dilma de sempre”…

Essa historia está em um retrato forte e verdadeiro da ex-presidente Dilma : “A Vida Quer é Coragem”, do experiente e serio jornalista Ricardo (Batista) Amaral (Editora Primeira Pessoa – Sextante RJ).

Há a vida difícil e a brutal, às vezes militarmente bárbara. Ela contou: “Entrei no pátio da Operação Bandeirante (Exercito, em São Paulo) e começaram a gritar: – “Mata!”, “Tira a Roupa”!, “Terrorista!”, “Filha da Puta”! A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Palmatória. Levei muita palmatória. Mandaram tirar a roupa. Não tirei. Eles me arrancaram a parte de cima e me botaram com o resto no pau de arara. Aí me tiraram a roupa toda. Fizeram choque, muito choque. Eu me lembro que nos primeiros dias eu tinha uma exaustão física que eu queria desmaiar. Não aguentava mais tanto choque. Comecei a ter hemorragia. Choques nos pés, mãos, na parte interna das coxas, nas orelhas. Na cabeça é um horror. No bico do seio. Botavam uma coisa no bico do seio, que prendia, segurava… Não comer. O frio. A noite. Aguentei. Não disse nem onde morava. Não disse quem era o Max (Carlos Araujo, o marido)”.(22 dias de tortura e 3 anos de prisão).

“Pedro Roussef (pai da presidente Dilma) proporcionou uma vida de conforto à família. Seus negócios se estabilizaram e ele prosperou de vez quando a alemã Mannesmann, maior fabricante de tubos de aço do mundo, decidiu construir a siderúrgica do Barreiro, na região industrial de Belo Horizonte.A inauguração da fabrica, em agosto (12) de 1954, foi a ultima aparição publica de Getulio antes do suicídio. Estava ao lado de JK.

Getúlio foi recebido no centro de Belo Horizonte com vaias de estudantes ligados à UDN, e ao Partido Comunista. JK o levou para ser aplaudido pelos operários no Barreiro.Duas semanas depois, quando chegou à cidade a notícia do suicídio, multidões enfurecidas cercaram a sede do jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Numa manobra desesperada, um estudante comunista fez um discurso inflamado contra os “verdadeiros responsáveis” pela desgraça do presidente morto:os trustes norte-americanos e os entreguistas da UDN” .

O jovem comunista juntou um latão de gasolina, e começou o incêndio do consulado dos Estados Unidos Dilminha tinha seis anos”.

EXATIDÃO HISTÓRICA – O que transcrevi ai acima tropeça na exatidão histórica. Realmente, “Getulio foi recebido no centro de Belo Horizonte com vaias de estudantes ligados à UDN e ao PCB, e JK o levou para ser aplaudido pelos operários no Barreiro (Cidade Industrial). Mas não é verdade que “duas semanas depois, quando chegou à cidade a noticia do suicídio, multidões enfurecidas cercaram a sede do jornal do PCB)…. A sede cercada e quebrada foi a da UDN e seu jornal, o “Correio do Dia”.

E não é verdade que “o jovem comunista juntou às palavras um latão de gasolina e assim começou o incêndio do Consulado dos Estados Unidos em Belo Horizonte”. De fato houve o discurso, o latão de gasolina e o incêndio do Consulado. Mas quem fez o discurso não levou o latão nem começou o incêndio. Não daria tempo para o orador descer do palanque, um caminhão aberto, em frente às escadarias da Faculdade de Direito.

Essa segunda tarefa foi cumprida por outros, comandados pelos dirigentes do Partido Comunista em Minas, Roberto Costa e Dimas Perrin, presos no local e condenados a um ano de cadeia. O orador apenas leu a Carta Testamento, deu a senha do fogo e ia saindo rápido quando foi atacado e derrubado pela policia e quebrou o nariz.

Sei bem, porque o “estudante comunista” que fez o “discurso inflamado” fui eu.(“A Nuvem – O Que Ficou Do Que Passou – 50 Anos de Historia do Brasil Geração”.

Dilma é uma contemporânea da Historia.

Principal inimigo que detonou Dilma foi o pecado da soberba

Dilma só se preocupava em fazer “caras e bocas”

Sebastião Nery

Dilma diz que foi derrubada por um golpe do Congresso. Se tivesse o bom hábito de ler os doutores da Igreja saberia que o pecado foi dela: a soberba. Sem ouvir ninguém, sem ler ninguém, sem conversar com ninguém, ela empurrou a economia do país para o abismo. E ainda queria ficar mais dois anos brincando de casinha de boneca no Palácio do Planalto.

Encontro aqui em Salvador um mestre guardião da pátria: o doutor em economia, baiano, três vezes deputado federal pelo MDB e PMDB do Paraná, Hélio Duque, que com sua sabedoria, me mostra que Dilma não foi empurrada. Ela pulou.

1 – A pobreza do debate público no Brasil não fica limitada à sociedade. Penetra na política. A proposta do Governo de emenda constitucional para limitar o crescimento do gasto público vem sendo combatida pelos que não entendem a importância de uma gestão fiscal responsável. Sem forte ajuste nas contas públicas, impedindo que as despesas cresçam mais do que as receitas, torna-se impossível retomar o crescimento econômico. A brutal recessão que mergulhou a vida nacional na crise tem no descontrole das despesas sua origem.

2 – O Estado não é gerador de riqueza, mas arrecadador de tributos para devolver em benefício da sociedade, com investimentos em áreas essenciais para o desenvolvimento humano e econômico. Responsabilidade fiscal é um valor que deve ser cultivado pela sociedade, acima de preferências pessoais ou ideológicas. O governante deve em primeiro lugar estruturar uma boa administração econômica. Sem ela o fracasso é garantido. Governos populistas e corporativistas geram a disfuncionalidade do Estado.

3 – Grupos organizados no Congresso ensaiam, através de emendas incabíveis, torpedear o programa de ajuste e limitação das contas públicas. Desejam a perpetuação da tragédia econômica e social que pode ser vista na recessão econômica dos últimos anos: desemprego de 11 milhões de trabalhadores e um déficit fiscal de mais de 10% do PIB (Produto Interno Bruto), aumento da relação dívida bruta/PIB de 53% para 70% e déficit acumulado de mais de 400 bilhões de dólares. E uma taxa de inflação atingindo o poder aquisitivo dos assalariados, com imensa redução na inclusão social e distribuição de renda.

4 – A situação real da economia brasileira foi escondida da população por largo tempo, com a conivência dos partidos políticos que apoiavam o governo. Lamentavelmente, para muitos homens públicos política econômica e política social são coisas diferentes. Os populistas e os seus agregados infantilizados acreditam que a primeira é defensora dos ricos, poderosos e privilegiados, enquanto a segunda é uma conquista dos pobres e deve integrar o seu universo existencial. Nada mais falso. Elas estão integradas. São ligadas umbilicalmente. Os recursos gerados pela política econômica é que garantem o dinheiro para o investimento em educação,  saúde, segurança, nos programas assistenciais e nos programas sociais. Não existe política social sem dinheiro, desde tempos imemoriais. Quando faltam recursos, a desigualdade social aumenta.

5 – Até 2014, a melhoria do padrão de vida de milhões de brasileiros permitiu que muitos ascendessem à baixa classe média, comprovando que sem crescimento da economia que gera emprego e salários melhores, é impossível garantir a ascensão social. A perversa e cruel realidade foi responsabilidade de um governo que acreditava que os recursos públicos são infinitos, não aceitando disciplina e responsabilidade na administração do dinheiro público.

6 – Os parlamentares brasileiros deveriam meditar sobre essa realidade, empenhando-se na aprovação das reformas sem as quais a crise econômica se agravará.

O economista Mansueto Almeida, do Ministério da Fazenda sintetizou: “Se o Congresso não quiser aprovar a PEC contra o crescimento do gasto nem reforma da Previdência, não haverá ajuste fiscal.”

E sem ajuste fiscal, o governo terá de se financiar com juros crescentes, levando à explosão da dívida pública. Seria o descontrole da inflação e um tiro fatal na retomada do crescimento econômico.

O país está de olho no Congresso.

Rio brilhou nos Jogos, agora falta a Olimpíada da Pobreza

Felipe Barcelos fez esta foto e postou na internet

Sebastião Nery

Fernando Martins, jornalista, diretor da ANJ (Associação Nacional de Jornais) no Rio, conhecia o Salgueiro de “Chão de Estrelas” de Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Ia passando na boca do morro, um velho e um rapaz carregavam uma moça.

– O que é que ela tem?

– Está passando mal. Vamos levar para o hospital do INSS em Andaraí.

– Entrem aqui.

E tocou seu carro para o Andaraí.

Branca como uma nuvem, os olhos enormes saltando das pálpebras roxas, a moça tossia desesperada. O rapaz apertava a cabeça dela contra o peito e pedia baixinho:

– Calma, Gracinha, calma.

E a moça tossindo, tossindo, toda branca, como uma nuvem engasgada.

Trânsito ruim, Fernando furava o sinal, dava contramão, guardas apitando, anotando. Ligou o rádio para distrair a moça. Elisete Cardoso cantava “Chão de Estrelas”:

– “Minha vida era um palco iluminado / Eu vivia vestido de dourado / Palhaço das perdidas ilusões.”

E a moça tossindo, sufocada.

E Elisete cantando:

– “Cheio dos guizos falsos da alegria / Andei cantando minha fantasia / Entre as palmas febris dos corações.”.

A moça deu um gemido fundo, grunhiu forte.

Fernando sentiu as costas úmidas. Era a hemoptise. A mancha vermelha cresceu no ombro, escorria pelos braços. E Elisete cantando:

– “Nossas roupas comuns dependuradas / Na corda qual bandeiras agitadas / Pareciam um estranho festival./ Festa dos nossos trapos coloridos / a mostrar que nos morros mal vestidos / é sempre feriado nacional.”

O rapaz, desesperado, o rosto lavado de sangue que saia do peito dela, gritava:

– Gracinha, aguente, pare de tossir. Doutor, desculpe, estamos sujando tudo.

E as golfadas esguichando, ensopando o tapete do carro. E Elisete cantando:

– “A porta do barraco era sem trinco / e a lua furando nosso zinco / salpicava de estrelas nosso chão. / Tu, tu pisavas nos astros distraída / sem saber que a ventura desta vida / é a cabrocha, o luar e o violão.”

A moça pendeu a cabeça no colo do rapaz, parou de tossir. Houve um longo silêncio de segundos. O rapaz sacudiu o rosto da moça;

– Gracinha, abra os olhos. Você não pode morrer, meu amor. Cabo (Cabo era o velho), será que ela morreu, Cabo?

O velho apenas bateu com a cabeça. E passou os dez dedos calosos na testa da filha. O rapaz ficou soluçando baixinho, contido, beijando as pálpebras roxas. Tinha nos olhos o espanto dos loucos. E Elisete cantando:

– “Meu barraco no Morro do Salgueiro / Tinha o cantar alegre de um viveiro. / Foste a sonoridade que acabou. / E hoje, quando do sol a claridade / Forra meu barracão sinto saudade / Da mulher, pomba-rola que voou.”

Fernando estava na porta do hospital do INSS, em Andaraí. A moça tinha recebido alta algum tempo antes naquele mesmo hospital. Voltava morta. 21 anos, uma filha de dois meses. Comida pela tuberculose, a doença da fome.

O velho e o rapaz entraram com a moça morta. O rapaz saiu logo, o mesmo olhar de espanto dos loucos:

– Doutor, o senhor vai voltar para a cidade? Podia me deixar no serviço? Preciso avisar a meu chefe para ele não cortar meu ponto.

O rapaz era lixeiro do Departamento de Limpeza Urbana, Distrito do Salgueiro. Fernando o deixou lá, no pé do morro. Elisete já não cantava “Chão de Estrelas”.

RIO BRILHOU – Acabaram as Olimpíadas. O Rio deu magnífica demonstração da   unidade e capacidade de realização de seu povo. Agora é hora de nos mobilizarmos, nos unirmos todos e juntarmos toda essa energia para realizar as Olimpíadas da Pobreza, da Saúde, da Educação, da Segurança, da Moradia, do Saneamento. Da vida do povo.

 

Histórias de Fidel, um herói do século, que se tornou um ditador

Fidel Castro hoje trabalha como garoto-propaganda da Adidas

Sebastião Nery

No segundo semestre de 1957, 59 anos atrás, realizou-se em Moscou o Festival Mundial da Juventude. Milhares de jovens do mundo inteiro. Os brasileiros e latinoamericanos ficamos no hotel Zariá, ao lado da Universidade da Amizade dos Povos, que em 61 tornou-se a Universidade Patrice Lumumba, homenagem ao líder assassinado da independência do Congo Belga, depois Republica Democrática do Congo. Durante o ano, lá moravam estudantes russos. Homens em um hotel,mulheres em outro.

Os apartamentos eram por ordem alfabética. A Argentina antes do Brasil e a Colômbia depois. Estava lá, estudando cinema, um rapaz simpático da Colômbia, já com 30 anos, exilado de seu pais e jornalista em Paris, Gabriel Garcia Marquez, o Gabo.

No desfile de abertura, magnífico e emocionante, um mundo de bandeiras de todos os países e povos, com imensas flâmulas suspensas nos muros do Kremlin saudando a Paz – “Mir e Drusba” – (Paz e Amor) – na incomparável e iluminada Praça Vermelha, diante do Kremlin e do tumulo de Lênin, deu bem para ver que os russos já andavam rusgando com os chineses, que passaram silenciosos e pouco aplaudidos. Já os cubanos, uma pequena delegação, foram recebidos delirantemente como heróis.

Na frente deles, mais alto do que os outros, barba rala e boné verde, Fidel Castro. E Che Guevara, Camilo Cienfuegos e seus companheiros. Já lutavam nas montanhas da Sierra Maestra, apesar de os russos ainda não acreditarem na possibilidade de vitoria deles, diante do exercito do ditador cubano Batista e tão perto dos Estados Unidos.

Terminado o festival voltaram para Sierra Maestra. Em 59 venceram.

GUEVARA EM SÃO PAULO – Em 1952. Gaia Gomes era diretor artístico da Rádio América de São Paulo. David Raw trabalhava com ele. Uma tarde, entrou lá um rapaz de cabelos negros, olhos grandes, esbugalhados, bigode ralo e barbicha fina. Argentino, trazia para Gaia uma carta de apresentação de Alberto Castilho, médico e cantor de tango em Buenos Aires. Não queria emprego. Também era médico, mas estava precisando de uma passagem para a Guatemala, onde pretendia ajudar o governo revolucionário de Jacobo Arbenz.

Gaia e David fizeram uma “vaquinha” na rádio e compraram a passagem. Nos dias que passou em São Paulo, o rapaz de bigode ralo conheceu o deputado Coutinho Cavalcanti, paulista de Rio Preto, autor do segundo projeto de Reforma Agrária apresentado no Congresso Nacional (o primeiro foi o do baiano Nestor Duarte).

Com a passagem e o projeto, o rapaz de barbicha fina embarcou para a Guatemala. Lá acabou trabalhando no Instituto Nacional de Reforma Agrária e aplicando as ideias do deputado Coutinho. Em 1954, um golpe militar, montado nos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castillo Armas, derrubou o governo de Arbenz. O rapaz de cabelos negros fugiu para o México. Em 1958, ele apareceu em Cuba, na Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camillo Cienfuegos. Derrubado o ditador Batista, o rapaz de olhos grandes, esbugalhados, implantou a reforma agrária em Cuba, baseado no projeto do deputado Coutinho, paulista de Rio Preto.

O rapaz chamava-se Ernesto “Che” Guevara.

ADEMAR E FIDEL – Em 1960, Fidel Castro esteve no Rio. O embaixador Vasco Leitão da Cunha lhe ofereceu um banquete. Estava lá todo o society carioca, deslumbrado com o charuto enorme e a engomada farda de Fidel. De repente, aproxima-se dele um homem gordo e vermelho:

– Senhor primeiro ministro, só não lhe perdoo os fuzilamentos.

– Pois posso assegurar que só fuzilei ladrões dos dinheiros públicos.

O homem gordo e vermelho ficou ainda mais vermelho. Era Ademar de Barros.

FORMOSA CUBANA – Rômulo Pais, patrimônio de Minas, o maior compositor popular do Estado (Ataulfo, Ary Barroso, tantos outros nasceram lá, mas são cariocas), venceu carnavais sem conta, fez obras-primas, como: -“Foi pra Santa Tereza que aquela beleza o bonde pegou”.

Em 1961, fez uma música de muito sucesso: “Formosa Cubana”: – “Vamos todos cantar, cuba-libre tomar. Foi hasteada a bandeira no mastro, vitória do barbudo Fidel Castro. Vem, Lolita – formosa cubana, vem, vem pra festa e deixa a Sierra Maestra”.

Em 1964, no dia 1º de abril, Belo Horizonte incendiada pelo fogaréu de Magalhães Pinto, Rômulo entrou no bar Pólo Norte, matriz da boemia mineira. Gervásio Horta, outro grande compositor popular (alma secreta de Valdick Soriano, autor de muitos dos sucessos do padroeiro da cafonália), começa a cantar a “Formosa Cubana”. Rômulo volta rápido:

– “Rômulo, esta beleza de marcha não é sua?”

– “Nada disso. Não tenho nada com a letra nem com a música.”

Gervásio continua cantando. Rômulo faz um apelo desesperado: – “Não canta, Gervásio. Esta cubana, desde ontem, ficou muito feia”. E saiu assoviando: “Foi pra Santa Teresa…”.

O DITADOR – Fidel Castro fez 90 anos esta semana (13 de agosto). É um herói do século. Mas é um ditador.

Um homem da vida, que embelezou a humanidade

Ivo Pitanguy conseguiu embelezar a humanidade

Sebastião Nery

Quase tudo se disse sobre Ivo Pitanguy, sobretudo como um homem da beleza. Lembro-me dele principalmente como um homem da vida, o cirurgião da vida. É o que ele foi:

“A experiência que marcou mais fortemente a minha vida foi o tratamento das vítimas do incêndio do Gran Circo Norte-Americano, ocorrido no dia 17 de dezembro de 1961, em Niterói”.

O que presenciei naquele dia superou os mais terríveis pesadelos. Uma multidão de 2.500 pessoas – na sua maioria crianças – sucumbiu ao fogo e à falta de atendimento adequado às gigantescas proporções do desastre. O dramático saldo registrou cerca de quinhentos mortos e outras tantas vítimas irremediavelmente desfiguradas.

Lembro-me como se fosse hoje. Estava indo para a Santa Casa quando ouvi no rádio do carro a notícia da tragédia. Desviei meu roteiro, tomei a barca e, junto com Odir Aldeia, Adolfo, Ronaldo, Ramil e outros colegas que já se encontravam em Niterói, comecei a organizar um pequeno time que pudesse nos ajudar, naquele ambiente de desespero que se apossou da cidade. Era preciso controlar a multidão, dar ordem ao caos, reabrir o Hospital Antonio Pedro, fechado por uma greve de funcionários, e criar um sistema de atendimento a todos aqueles queimados.

Fiquei impressionado com o caso de um menino de 11 anos. Havia surgido subitamente da espessa fumaça que formava uma muralha em torno do capitel em chamas. Estava gravemente queimado em 80% do corpo, mas parecia indiferente a seus ferimentos. Com as roupas em farrapos, sua única preocupação era olhar todos os outros feridos como se procurasse alguém.

– Meu amigo…

Seus lábios tremem tamanho o pavor que havia sentido antes de poder escapar da fornalha. Com o olhar alucinado, ele procura seu amigo:          

– Ele continua lá no fogo!

Sem que ninguém possa interferir, tão fulminante é sua decisão, o menino se arremete na direção do inferno.

Os apelos são inúteis. A pequena silhueta é novamente tragada pela armadilha de fumaça. Petrificados, estamos convencidos de que ele não escapará mais. De repente, as pessoas começam a gritar e correr. Urrando de terror, um elefante que arrasta em seu dorso panos incandescentes do circo, rasga uma passagem entre as chamas. Aproveitando-se do buraco, espectadores conseguem escapar:

– Olhem! O menino está ali…ali!

Uma enfermeira é a primeira a vê-lo e se precipita em sua direção para socorrê-lo. Ele caminha penosamente. Está no fim de suas forças. Mas carrega seu amigo quase desmaiado. Em seu rosto fino, inchado pelas queimaduras, seus olhos brilham loucamente com um indizível orgulho. Seu amigo está salvo.

A intrepidez e a abnegação desse menino marcaram-me para sempre. Arriscar a vida pelo outro é o mais nobre ato de um ser humano. O jovem herói chama-se Pablo. Livre de seu fardo vivo, ele cai a nossos pés. Lembro-me também desse momento exato. Enquanto eu e um assistente o instalamos cuidadosamente sobre uma maca, olho o céu que o incêndio avermelha E juro que vamos salvá-lo.

Pablo está moribundo. As chances de mantê-lo vivo são quase inexistentes. Durante mais de seis meses nós nos revezamos à sua cabeceira, prodigalizando-lhe os cuidados que nos são possíveis.

Entre todos os nossos pacientes, Pablo conserva uma dignidade que chama nossa atenção, e seguimos a lenta evolução de seu estado como se fôssemos seus parentes. Muitos de nossos queimados morrem. Um lençol branco recobre corpos martirizados.

Pablo sobreviverá? Nós o alimentamos com produtos dietéticos destinados a substituir os sais minerais que seu organismo perdeu. E no terceiro mês, tendo seu estado geral progredido, podemos praticar naquele corpo frágil e supliciado, os enxertos autógenos, utilizando as zonas onde a pele ainda está intacta.

Terra de crendices, de superstições e de fé, o Brasil é sensível aos signos e aos presságios. Certa manhã, uma religiosa vem ao meu encontro com seus passos miúdos, toda exaltada. Mãos juntas como para uma prece:

– Pablo vai sobreviver, doutor.

– De onde vem essa sua certeza, irmã?

Suavemente a religiosa entreabre a porta. Sobre o parapeito da janela, como a contemplar Pablo adormecido, uma pomba branca permanece imóvel.

– Deus a enviou para anunciar a sua cura! – murmura a religiosa.

Deus ou nossos cuidados? Ou Deus e nossos cuidados? Pablo se cura. Cresce. Seu corpo guarda cicatrizes do passado”.

O cirurgião Ivo Pitanguy embelezou a humanidade.

A nova Bahia e a lembrança do grande político Antonio Balbino

Balbino, governador da Bahia, quando a gente andava de trem

Sebastião Nery

SALVADOR – Quando o velho elevador do velhíssimo edifício da Rua da Quitanda, no centro do Rio, parou no escritório de advocacia do ex-governador da Bahia Antonio Balbino, eu já sabia o que ia lhe falar. Passei as quatro horas do voo germinando o “Jornal da Semana”, que ia lançar.

Não conhecia bem Balbino. Ele certamente menos a mim. Mas sempre tive uma admiração enorme pela sua biografia. Dos políticos da Bahia, só Octávio Mangabeira rivalizava com ele. Culto, talentoso, inteligente, formação universal, Balbino foi preparado “para brilhar lá fora”.

Nasceu em 1912 em berço de roça que era também um berço de ouro. O pai fazendeiro em Barreiras, extremo oeste da Bahia. E a mãe irmã de um dos brasileiros mais poderosos de seu tempo: Geraldo Rocha, homem de confiança de Getúlio Vargas, dono dos jornais “A Noite”, “A Nota”, “O Radical”, e o mais próximo amigo no Brasil do ditador argentino Perón.

ALUNO BRILHANTE – Pôs logo o sobrinho querido embaixo do braço. Balbino, moreno queimado, boca gorda, olhos apertados, estudou em Salvador e em 1929 foi para o Rio estudar Direito e trabalhar no jornal do tio, “A Noite”. Aluno brilhante, orador da turma, formou-se em 32 e foi fazer doutorado de Economia na Sorbonne em Paris, em 33 e 34. Voltou e saiu candidato à Constituinte estadual na legenda da oposição, liderada por Octávio Mangabeira, contra a chapa do interventor Juracy Magalhães. Elegeu-se.

Na Assembleia, fez parte da comissão encarregada de elaborar a Constituição do Estado. Getúlio deu o golpe de 37. Balbino foi ser professor, advogado, jornalista no “Diário de Notícias” que dirigiu de 1939 a 42. Professor, ensinava tudo: – Sociologia e Lógica, no pré-curso da Faculdade de Medicina; Finanças, na Faculdade de Direito; e História das Doutrinas Econômicas, na Faculdade de Filosofia.

FAMA DE GÊNIO – Em 45, candidato à Assembléia Nacional Constituinte, pelo pequeno PPS (Partido Popular Sindicalista), perdeu. Em janeiro de 47, já no PSD, elege-se para a Assembléia Constituinte estadual. Em 50, deputado federal. Chega ao Rio com fama de gênio.

Relator do projeto criando a Petrobras, a Lei 2004 afinal aprovada em outubro de 53, quando já era ministro da Educação e Cultura. Em 54, o PSD lhe nega a legenda para governador e lança Pedro Calmon. Balbino, com Juracy, que ganhou o Senado, saiu pelo PTB e UDN e venceu.

 

Sabia tudo da Bahia, do Brasil e do mundo. Terminado o governo, foi para a rua da Quitanda advogar e dar pareceres Em 1962, elege-se senador.

Estava em Paris na sua morte, em 1992. O Brasil foi frio. Como foi depois no seu centenário, em 2012. Não somos a Europa, que cuida de seus grandes mortos. E Balbino deixou plantada na história política do século passado uma forte presença. Era um homem excepcionalmente inteligente

NA DITADURA – Muitos de nós, que durante a ditadura militar fizemos a resistência, tivemos dele, em instantes duros, cruéis, uma solidariedade silenciosa mas sempre eficiente. Waldir Pires, Mário Lima, Hélio Ramos, eu, tantos outros que voltamos do exílio, saímos da cadeia ou nos livramos de IPMs e processos pela mão sábia e calorosa dele.

Devo-lhe uma absolvição no Superior Tribunal Militar que parecia impossível. E o fim de uma ordem de prisão na Bahia, assinada e já embalada. Ele fazia, depois sorria:

– “Tome juízo. Não os desafie. Eles têm os canhões”.

CAMINHOS ABERTOS – Balbino tem um título que a Bahia lhe deve. Foi ele quem começou a modernização do Estado. Governador em 54, entregou ao grande Rômulo Almeida o planejamento da nova Bahia. Com ele Rômulo criou a Comissão de Planejamento Econômico, da qual nasceram o Centro Industrial de Aratu, o Polo Petroquímico, a Coelba, a Tebasa, a Sabesb. Juracy, Lomanto, ACM, andaram caminhos abertos por Balbino e Rômulo.

Ministro da Indústria e Comércio de Jango, com o golpe de 1964 entrou para o MDB até 1971, quando voltou para a advocacia, no Rio, criando uma das mais poderosas bancas de advocacia do País.

Vai demorar muito para a Bahia fazer outro Balbino.

LEWANDOWSKI – O professor e economista baiano Helio Duque, tantas vezes iluminador desta coluna, mais uma vez acende a luz:

– O Conselho Nacional da Justiça, fiscalizador dos tribunais superiores na administração da Justiça, é presidido pelo ministro Lewandowski, do STF. Decisão surpreendente, em reunião do seu conselho, estabeleceu polêmica que desprestigia o Judiciário brasileiro. O ministro Lewandowski defendeu que juízes, desembargadores e membros dos tribunais superiores, ao proferir palestras promovidas por entidades privadas, ficam desobrigados de informar o valor recebido. De acordo com o jornal “O Estado de S.Paulo” (13-7-2016), teria afirmado: “Não somos obrigados a revelar quanto recebemos nas atividades privadas”.

Data vênia, Excelência. A Constituição, no artigo 95, determina que aos juízes é vedado receber, a qualquer título ou pretexto, auxilio ou contribuições de pessoas físicas, entidades públicas ou privadas, A atividade extra permitida pela Lei Orgânica é só o magistério superior.

Os ovos do brigadeiro e a eleição presidencial de 1945

Sebastião Nery

SALVADOR – Jornalismo é muitas vezes a garganta das pedras. Menino de fazenda aqui na Bahia, cedo aprendi que, quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível. O humor é uma linguagem absolutamente séria. necessária, eterna. Desde o começo dos tempos, sempre foi mais proibido proibir o humor.

Folclore não é história. É a versão popular da história. Folclore político não é história política. As historias do folclore vão mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Monteiro Lobato definiu exato:

– “Folclore são coisas que o povo sabe por boca, de contar um para o outro”:

Se Maurice Latey diz que “a história é o povo em ação”, está pondo o folclore como categoria literária, crônica da vida comum, poema do dia a dia, o contar para o outro, o cantar dos medievais menestréis.

Quando, em agosto de 1973, no auge do calar a boca nacional pela ditadura militar, lancei o “Folclore Político” no Clube dos Repórteres Políticos do Rio, com a presença de José Américo de Almeida, José Maria Alkmin, Magalhães Pinto e mais de cinquenta colegas de jornalismo político, José Américo, com sua competente precisão de linguagem, colocou o livro nos termos precisos:

-“É folclore. Nenhuma das histórias a meu respeito é inteiramente exata, mas nenhuma é inteiramente inexata. E são todas muito engraçadas”.

E José Maria Alkmin:

– “Essas histórias do folclore político a gente nunca sabe quais são as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vão se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem é que sabe quem é a mãe do cogumelo?”

ALCKMIN E GOMES

Outro Alckmin, o paulista Geraldo Alckmin, o exemplar e competente governador de São Paulo, relembrava nestes dias, numa solenidade, uma velha historia folclórica do Brigadeiro Eduardo Gomes.

Segundo ele, o doce feito de chocolate e leite condensado chama-se “brigadeiro”, porque, em 1945, ele candidato a Presidente da República, mulheres paulistas faziam o doce aos milhares para vendê-los nos comícios da UDN, anunciando:

– Brigadeiro, brigadeiro, é bonito e é solteiro!

Ganhou Dutra que era feio e era casado.

Isso diz o folclore paulista. Aqui na Bahia, nesse mesmo 1945, os doces “brigadeiros” faziam sucesso, mas por uma razão histórica. Nas lutas militares de 1922 e 1924, o valente e heróico Brigadeiro levou um tiro nos órgãos genitais e ficou fisicamente prejudicado.

E o que é que tem a ver o doce com o tiro? Muito simples: o “brigadeiro” é o único doce feito sem ovos.

Sou mais a sabedoria baiana.

CRISTIANO MACHADO

Mas Eduardo Gomes não é o único candidato folclorizado. Em 1950, fim do governo do marechal Dutra, o país estava partido politicamente em três pedaços: PSD com Cristiano Machado, UDN com o brigadeiro Eduardo Gomes, PTB com Getúlio Vargas. Em plena campanha eleitoral para a Presidência da República, morre dona Santinha, mulher do presidente.

A missa de sétimo dia foi na Candelária superlotada. Getúlio estava no Sul, não foi. Eduardo Gomes chegou, entrou, ficou rezando. Cristiano Machado foi entrando com seu ar discreto e sóbrio de mineirão dos velhos tempos. Um correligionário exaltado teve um acesso de puxa-saquismo, meteu o pescoço entre as pernas, suspendeu-o e saiu carregando-o igreja adentro, como um estranho andor.

Foi um escândalo. Cristiano Machado, constrangido, esperneava, grudado nos cabelos do eleitor, mas não conseguia livrar-se. O correligionário gritava:

– Viva o Dr. Cristiano Machado! Viva o futuro presidente!

E a Candelária ouviu, penalizada, o protesto aflito, quase um gemido do candidato:

– Me larga, seu imbecil!

Largou mas deixou Cristiano inchado.

A RAINHA

No avião, do Rio para Salvador, ela lia tranquilamente sua revista. As pessoas olhavam com intenso afeto, mas para não incomodá-la não a interrompiam. Passavam. Quem estava ali era uma rainha: Maria Bethania.

As mãos de Pilatos, lavadas agora na França e na Turquia

A besta satãnica do terro ressurge no verão ensolarado de Nice

Sebastião Nery

Pontius Pilatus ganhou de Tiberius, imperador de Roma, o governo da Judeia e da Samaria, quando exilou Arquelau, filho de Herodes o Grande, e irmão de Herodes Antipas, o antipático, que deu a Salomé o pescoço de João Batista. Philo Judaeus e Josephus, historiadores judeus, contemporâneos dele, disseram que era “ríspido” e “intratável”. Mas não queria matar Jesus.

Quando aquele homem de olhos mansos, todo ensanguentado, chegou preso ao palácio, trazendo na cabeça a coroa sarcástica ”Jesus Nazarenus Rex Judeorum”-, Pilatos lhe perguntou quem ele era.

– “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

O caminho, Pilatos sabia o que era. A vida, também. Mas a verdade, não. O evangelista João (18,38) conta que Pilatos então lhe perguntou: – “O que é a verdade”?

Jesus não respondeu. E foi levado para morrer.Monges medievais diziam que Jesus não respondeu porque a resposta já estava na pergunta. A pergunta, em latim, era: – “Quid est veritas”? (O que é a verdade?)

Com as 14 letras da pergunta se escreve a resposta: – “Est vir qui adest”. (É o homem que está aqui).

A verdade é que nem a própria Verdade disse o que é a verdade. E, até o fim dos tempos, jamais alguém saberá.

Toda a tragédia, e todo o ridículo, do homem é que passam os séculos sobre os séculos e nunca ele saberá o que é a verdade. A vida, afinal, é a bela e fugaz busca de Pilatos, querendo em vão saber o que é a verdade. E ninguém saberá, porque ela é muitas. Por isso, Pilatos lavou as mãos e foi dormir.

O QUE É A VERDADE? – Desde o começo dos tempos, o grande conflito das civilizações sempre foi a tentativa de uns imporem aos outros sua verdade. Como ela nunca está com uns nem com outros, porque jamais existiu uma só verdade, a coação ideológica é a grande desgraça dos povos.

Todos os sistemas religiosos, filosóficos, políticos, acabaram se esvaindo pela impossibilidade de se implantarem absolutos. Um dia, o homem sacode a cangalha e pula livre para o campo.

O mais humano e generoso movimento político dos dois últimos séculos foi o socialismo. E acabou se degenerando na brutalidade hegemônica do nazismo, do fascismo, do comunismo. Da mesma forma que a direita sempre tentou e continua tentando impor seu pensamento único, chame-se colonialismo, imperialismo, neoliberalismo, globalização, também a esquerda imaginou e imagina possível encarneirar a humanidade em um curral ideológico único, universal, inexorável.

FANTASIA E PESADELO – Um dia, infelizmente a tão duro custo, a humanidade acaba descobrindo que tudo não passou de fantasia ou pesadelo. Tudo isso, por tão óbvio, é banal e fácil de dizer. Difícil é enfrentar o dragão radical, solto no poder, na sociedade, no trabalho, na vida. A coragem de dizer não, como Ortega y Gasset:

– “Ser da esquerda, como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil: ambas são formas de hemiplegia moral”.

Intelectual é sinônimo de liberdade, de independência. E o primeiro dever de quem fala, escreve, participa da vida coletiva, é a coragem de ser livre. Para dizer o que pensa porque sabe o que diz.

Seguir a caravana, entrar na correnteza, deixar-se levar pela onda, é cômodo, mas medíocre. E inútil. Perguntem a Pilatos, que por isso lavou as mãos e foi dormir.

TERROR EM NICE – O mundo foi abalado mais uma vez pela besta satânica do terrorismo. E logo, outra vez, exatamente na França, o mais democrático dos países. Parece uma maldição e é. Logo em um balneário da França, Nice, cidade de repouso e férias, em pleno e ensolarado verão.

Um caminhão, um terrorista dirigindo o caminhão em zigue-zague, na hora em que milhares de pessoas olhavam o céu vendo a explosão de fogos comemorativos do “14 de Julho”, a maior festa nacional , e 84 pessoas atropeladas e mortas e centenas de feridos na fileira da morte.

Um só matando 84 e ferindo centenas. Alguém dirá que o terrorista era um louco. Mas uma sociedade que produz esse tipo de loucura também é uma sociedade enlouquecida. Como Pilatos, ela deve lavar as mãos e ir dormir, imaginando que não tem nada a ver com a loucura coletiva.

Os filhos de Pilatos estão pagando o preço de suas mãos lavadas.

E NA TURQUIA… – Desgraça nunca vem só. Depois da tragédia terrorista da França, militares da Turquia tentam golpe de Estado, bombardeiam o parlamento, cercam o presidente no palácio e ameaçam massacrar a população que honra sua bela historia e vai para as ruas defender a democracia.

Mãe da Grécia e avó de Roma, a Turquia não merece isso. Não há desculpa. Golpe militar com as armas da nação é canalhice.

Alysson Paulinelli foi o JK do agronegócio brasileiro

Alysson Paulinelli, o criador da Embrapa, um grande brasileiro

Sebastião Nery

Um grande brasileiro está completando 80 anos: Alysson Paulinelli, meu contemporâneo de política estudantil em Minas, professor e reitor da Universidade de Lavras, ministro da Agricultura de Geisel, o melhor que o Brasil teve durante anos, criador da Embrapa e pai da nova agricultura brasileira. Ele foi para a agricultura o que Juscelino foi para a indústria.

Naquela manhã de 30 de março de 1978, entrei no seu gabinete em Brasília. O jornalista mineiro e assessor de imprensa, meu amigo Silvestre Gorgulho, me recebeu ansioso. Abriu a “Sinopse” do dia (“Sinopse”, hoje “Clipping”, era um boletim mimeografado de 10 a 12 paginas, tamanho oficio, tipo corpo 12, meia hora de leitura, preparado de madrugada pela Agencia Nacional, sob a responsabilidade da Casa Civil da presidência da Republica, com a síntese do que diziam jornais e revistas). Edição limitada, reservada, só o primeiro escalão a recebia: o Presidente, vice, ministros, chefes dos outros poderes, Legislativo e Judiciário, comando militar.

Silvestre sabia a preciosidade que tinha: – “Veja o que o “Estado de Minas”, que representa 90% da imprensa mineira, está dizendo na edição de hoje, primeira pagina: – “Apesar dos 14 disputantes à vaga do governador Aureliano Chaves, o nome do presidente nacional da Arena, deputado Francelino Pereira, continua o mais cotado.Até o MDB já se pronunciou a favor”
Silvestre explicou: -Acontece que o “Estado de Minas” não diz nada.   Já telefonei para lá. Não tem nada. E também nada no “Diário de Minas”. Estão enxertando a “Sinopse” do alemão? Vou fazer um escândalo.

Cada dia uma manchete inventada. -“Diário de Minas”. O anúncio do futuro governador do Estado está sendo aguardado para o próximo dia 10 de abril. Até o momento o deputado Francelino Pereira é o mais cotado”. Pura invenção. Estavam engravidando o Geisel.

FUI PARA MINAS – Peguei as “Sinopses”, enrolei, sai às pressas. Fui direto para o aeroporto, tomei um avião para Belo Horizonte. Lá, passei nos jornais, comprei os citados e fui marcando. Nada conferia.No dia 31 a “Sinopse” atribuía ao “Estado de Minas”: -“Políticos mineiros veem em Francelino uma força total na ajuda ao presidente Geisel e ao general João Figueiredo”.  Fui à primeira banca, o “Estado de Minas” nada dizia. Enchi a mala de jornais, voltei para Brasília. No “Hotel Nacional”, onde me hospedava, encontrei no elevador o Mino Carta, diretor da revista “Isto É”, que me havia mandado para Paris entrevistar o embaixador Delfim Netto e para a Espanha cobrir a campanha da Constituinte espanhola:
– Mino, tenho uma “bomba” para você. Aqui na mala.

Em cinco minutos, Mino entendeu tudo. As “Sinopses” fraudadas e os jornais provando a fraude: – “Vá para São Paulo, leve tudo. Amanhã estarei lá”.

Saiu uma capa gritada: – “FranSinopse – Mentiram Para Geisel”.Na semana seguinte, outra capa da “Isto É”:-“O Minasgate”. O escândalo desaguou em todas as redações. A imprensa queria saber o que o governo ia fazer com a fraude na “Sinopse” do poderoso imperador Geisel.

INQUÉRITO – O governo abriu um inquérito na Agência Nacional em Brasília e na sucursal da Agencia Nacional em Belo Horizonte. O SNI (Serviço Nacional de Informações), que bisbilhotava a vida de todo mundo,foi desmoralizado. Eram fajutas as notícias que punham nas mãos de Geisel. Veio para cima de mim. Queria saber como eu tinha acesso à “Sinopse”, se era reservada para o Presidente e ministros. Dei um balão neles. Disse que havia pegado na mesa do ministro Petronio Portela.

No ministério, Paulinelli comandou sua revolução agrícola com o sábio mineiro Eliseu Alves criando a Embrapa, abrindo o Cerrado, implantando a Codevasf e multiplicando em milhões a safra agrícola.

Veio o “Premio Esso” de 1978, dividido com meus colegas da “Folha”, Getulio Bittencourt e Haroldo Lima.Prometi a Silvestre rachar o cheque. Não cumpri. Chamei a namorada, bebemos o vinho em Paris.

ADVOGADOS – O brilhante economista, professor e ex-deputado do MDB do Paraná Helio Duque fez uma pesquisa sobre os estudos de Direito no Brasil :

1.- O Brasil tem mais faculdades de Direito do que todos os demais países do mundo juntos. Haja Lava-Jato! O advogado Jefferson Kravchyn afirma: “Temos 1.240 Faculdades de Direito. No restante do mundo, incluindo China, Estados Unidos, Europa e África, são 1.100 cursos. O número de advogados inscritos na OAB, chega a 900 mil. Se não tivéssemos a OAB teríamos um número maior de advogados do que todo o mundo. Temos mais de 3 milhões de bacharéis não inscritos na Ordem”.

2. – O número aumentou de mais 26 faculdades, totalizando 1.266 cursos de Direito no Brasil. No final de 2015, a OAB selecionou, com “selo de qualidade”, 139 cursos em todo o País. Entre as faculdades, 78 são públicas e 61 privadas. Marcos Vinicius Coelho, à época presidente da OAB, advertiu: “Precisamos proteger a sociedade contra o estelionato educacional, que, sem qualquer qualidade, vende ilusão”.

Desculpem os colegas bacharéis. Precisamos de mais escolas de Agronomia do que de Direito.

A Turquia é o rosto do mundo

Terrorismo sangra a Turquia, um dos berços da civlização

Sebastião Nery

A Turquia não é um país. É um mapa. É o único país do mundo que já teve 12 capitais: Troia, Hattusa, Xanthos, Sardes, Pergamo, Amaseia, Bizâncio, Constantinopla, Bursa, Edirne, Istambul e Ancara hoje. Com belos e estranhos nomes, viveram desde o começo dos tempos naqueles 780 mil km2 e hoje tem 65 milhões de habitantes. São uma enciclopédia da humanidade, herança de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Ali há marcas do homem 100 mil anos antes de Cristo.

A Turquia é o maior museu a céu aberto do mundo. Cada cidade um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações. Toda a história antiga girou em torno de brutais batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, nos estreitos de nomes lindos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bosforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. Toda ela é patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Ali a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou marcas e garras, a Mesopotâmia virou Europa, o Cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio e viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Ali a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria. Ali nasceram Homero o maior dos poetas e São Paulo o maior dos jornalistas, Tales de Mileto, Pitágoras, Anaximandro,

DE PLATÃO A SÃO PEDRO – Ali ensinaram Platão e Apelikon de Teos, os maiores dos professores e bibliotecários. Ali Hipódromos criou o urbanismo Ali se fez a primeira Escola de Escultura. Ali Cleópatra e Marco Antonio se amaram.

Quando Noé ancorou sua arca foi ali, no monte Ararat (5.165 metros). O Tigre e o Eufrates são dali. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso estão (estavam) ali. Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram de Jerusalem para lá e lá morreram. São Pedro falou ali, pela primeira vez, a palavra cristão.

A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, ali. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, pelos da barba, dente e pegadas de Maomé estão ali. Ali houve uma biblioteca de 200 mil volumes, antes de Cristo, a mais importante do Império Romano.

Assassino, desarvorado, o terrorismo planta na Turquia sua barbárie, duas vezes em poucos meses, contra a Mesquita Azul, a Praça do Sultão, o aeroporto monumental. O terrorismo sangra a Turquia porque ela é o rosto da humanidade.

CASTELO DE AREIA – Agora, histórias outras. Nossas histórias.

1.- Em 2009, a “Operação Castelo de Areia” já contava valores e fazia cálculos na divisão de propina na Transpetro da Petrobrás . A força tarefa daquela operação encontra anotações do diretor financeiro Pietro Bianchi, da construtora Camargo Correa, associados a Sérgio Machado. O Ministério Público detalha a conta da Camargo Correa no Banco de Andorra transferindo valores para o HSBC Private Bank Zurich, em benefício da Jaravy Investments Inc. com sede no Panamá.

Ao anular a “Operação Castelo de Areia”, o Superior Tribunal de Justiça impediu as investigações, só retomadas com a Operação Lava Jato.

SERGIO MACHADO – Como o tempo é o senhor da razão, em dezembro a Polícia Federal executou mandados de busca e apreensão na Transpetro e nos endereços de Sérgio Machado. Ele era alcançado pela chamada “República de Curitiba”. Apareciam contas no exterior envolvendo seus filhos no esquema de corrupção montado na estatal.

Antecipando a possível prisão pela Lava Jato do bravo, exemplar e intransigente juiz Sergio Moro, Machado buscou em Brasília a Procuradoria Geral da República (PGR), garantindo entregar todo o esquema corrupto e os benefícios políticos dos desvios milionários dos recursos transferidos para os senadores que garantiram sua nomeação, por longo tempo, na presidência da Transpetro.

Na deleção premiada, o infame saía de gravador escondido até em camas de hospital, captando conversas com Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, surgindo secretos diálogos não conseguindo gravar os senadores Edson Lobão e Jader Barbalho, nominou os cinco parlamentares como recebedores de vários milhões de reais da fortuna corrupta que administra. Na PGR, garantiu a devolução de R$ 75 milhões incorporados a seu patrimônio. No fim teve homologada pelo ministro Teori Zavascki, do STF, a sua delação que atingiu a cúpula do Senado no PMDB.

Machado cumprirá pena de dois anos e pouco na confortável residência na praia do Futuro, em Fortaleza, “em paz com a sua consciência”, como afirma. Nesse tempo de reclusão, contemplará os verdes mares cearenses sonhando com “pedras preciosas” da riqueza no seu “dolce far niente”.

CANTANHÊDE – A incansável e incomparável jornalista Eliane Cantanhêde, em “O Estado de São Paulo”, sob o título “Pena Leve”, constatou:

“Machado roubou mais para ele do que para qualquer partido. Quem devolve R$ 75 milhões desviou quanto? Ainda fica com quanto? Multa e tornozeleira desacreditam a máxima de que o crime não compensa”.

E tudo começou em Londrina

Bernardo ia ser nomeado diretor-geral da Itaipu Binacional

Sebastião Nery

Em 1954, o principal líder estudantil e presidente da União Paraibana de Estudantes era o François, de Campina Grande, na Paraíba. Preparando o congresso nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes) que seria no Rio, uma comissão foi ao Norte e Nordeste. Em Campina Grande, o François nos garantiu que a maioria da delegação paraibana votaria com a esquerda. E votou. 20 anos depois, em 1974, recebi no Rio um telefonema de Londrina: “Nery, aqui é o Leite Chaves, o François de Campina Grande. Sou candidato a senador pelo MDB do Paraná. Queria que você viesse ao comício de lançamento de minha campanha, para dar um depoimento sobre minha atuação no movimento estudantil, no nosso tempo da UNE”.

Cheguei à tarde. O comício era à noite.No aeroporto,faixas e uma charanga tocando a musica da campanha.Vi logo o François: “François, companheiro!”

François deu um passo à frente, me abraçou e disse ao ouvido: “Nery, não fale em François, pelo amor de Deus. Aqui em Londrina sou o doutor Leite Chaves, advogado. François aqui é cabeleireiro”.

UM SENADOR EXEMPLAR – O doutor Leite Chaves, em plena ditadura, fez uma campanha brilhante pela oposição, ganhou e foi um senador valente e exemplar.

Infelizmente em Londrina não havia apenas a banda boa do Leite Chaves, com seus companheiros José Richa prefeito, senador e governador, Alencar Furtado várias vezes deputado, Helio Duque três vezes deputado, Álvaro Dias governador e senador, Luiz Gonzaga e tantos outros. Também havia a banda podre que nasceu lá atrás com José Janene deputado, Alberto Youssef doleiro, Antonio Belinati deputado e duas vezes prefeito cassado.

O Mensalão estava em Londrina com Janene. O Petrolão também está em Londrina com o mesmo Youssef do Mensalão. E reaparece a historia rocambolesca do Janene, depois feito cadáver insepulto. E não é que quem assinou o atestado de óbito do Janene foi o Youssef?

BERNARDO E GLEISI – Na “Folha de São Paulo” a Estelita Carazzai e a Marina Dias contam que quando o governo de Lula surfava em popularidade, seu ministro Paulo Bernardo e a senadora Gleisi Hoffmann (PT), mulher dele, tinham agenda cheia no Paraná.

Afastado do ministério, Bernardo foi enfim preso e depois solto. À frente do Planejamento entre 2005 e 2010, com o orçamento federal na mão, aproximou-se de prefeitos e deputados. Apesar de eleito para três mandatos, era conhecido apenas em sua base eleitoral, o norte do Paraná, para onde se mudou em 1982. Lá iniciou carreira no sindicalismo, dirigindo o Sindicato dos Bancários de Londrina.

PARCERIA POLÍTICA – Com a mulher, Bernardo construiu uma parceria política. Em 1999, ela o acompanhou para ser secretária de Estado no Mato Grosso do Sul, durante a gestão Zeca do PT – ele assumiu a pasta da Fazenda. Também foi assim em Londrina, em 2001 e 2002, quando foram secretários municipais.

Em 2003, quando voltou à Câmara e ela assumiu a diretoria financeira de Itaipu (onde há dinheiro o PT vai atrás), as carreiras do casal decolaram. Bernardo era um dos principais articuladores das campanhas de Hoffmann. Embora parte da militância torcesse o nariz (logo o narizinho!) para eles, não conseguiram conquistar o eleitor paranaense, avesso ao PT.

Com a rejeição ao governo Dilma e as denúncias envolvendo o PT, o plano foi abaixo. A votação de Hoffmann caiu de 2,2 milhões em 2006, quando concorreu ao Senado, para 881 mil na sua última campanha ao governo, em 2014. A senadora chegou a ser hostilizada no aeroporto de Curitiba. Em maio, ela e Bernardo foram denunciados ao STF (Supremo Tribunal Federal) sob acusação de corrupção.

MIÚDO MIUDINHO – Agora a Lava Jato descobriu o golpe do roubo “miúdo miudinho”, como no “xaxadinho”, sobre os empréstimos consignados dos pobres, pensionistas e aposentados.

Bernardo tinha medo de ser preso desde 10 de abril de 2015, quando o ex-deputado André Vargas era levado à prisão pela operação Lava Jato. Vargas era conhecido como operador de Paulo Bernardo desde que era deputado no Paraná. Quando o ex-secretário de comunicação do PT foi preso, Bernardo achava que seria o próximo. Em 2015, Dilma suspendeu a nomeação de seu ex-ministro das Comunicações para a diretoria-geral brasileira da hidrelétrica Itaipu.

Está na hora de Londrina deixar os Janenes dormirem em paz.